Terceiro vereador mais votado do Rio, Gabriel Monteiro quer armar Guarda Municipal

Rodrigo de Souza
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Terceiro vereador mais votado no Rio neste domingo, o youtuber e ex-PM Gabriel Monteiro (PSD) foi uma das exceções em meio ao fracasso bolsonarista nas eleições municipais. “Para a tristeza dos vagabundos, acabo de ser eleito”, tuitou ele. Com 60.326 votos, Monteiro desbancou nomes conhecidos da política carioca, como o ex-prefeito Cesar Maia (DEM) e o ex-deputado Chico Alencar (PSOL), e foi superado apenas por Tarcísio Motta (PSOL) e Carlos Bolsonaro (Republicanos), filho do presidente. Aos 26 anos, ele coleciona processos disciplinares na Polícia Militar, da qual se desvinculou para concorrer a uma vaga na Câmara Municipal, e seguidores nas redes sociais, onde sua atuação o colocou entre os maiores — e mais controversos — influenciadores digitais brasileiros.

Quem pensa que Gabriel Monteiro, conhecido por sua trajetória turbulenta na PM, é estranho ao meio político fluminense, está enganado. Em 2014, antes de entrar para a corporação, ele foi assessor do ex-deputado Armando José (PSB), membro da bancada evangélica da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Já no posto de soldado, no ano passado, Monteiro também fez a segurança do deputado Filippe Poubel (PSL), em quem se inspira.

— Minha passagem pelo gabinete do Armando José foi muito rápida e, no caso do deputado Poubel, fui escalado para fazer a segurança de gabinete. Mas aprendi muito. Como vocês podem analisar, um dos responsáveis pelo fim prematuro da carreira do vagabundo Wilson Witzel foi Poubel — diz Monteiro.

O remanejamento para o gabinete de Poubel aconteceu depois que Monteiro foi gravar um vídeo para o YouTube na Câmara dos Vereadores e se envolveu num tumulto com o responsável pela segurança da Casa, coronel Marcos Paes. Monteiro interpelava o vereador Tarcísio Motta (PSOL) quando Paes, surpreso pela insistência do soldado, interveio. Um processo na Comissão de Revisão Disciplinar da PM chegou a ser aberto para apurar o ocorrido, mas foi suspenso no dia seguinte. À época, a ida de Monteiro para o gabinete de Poubel foi visto por segmentos da PM como uma interferência para livrar o soldado de uma possível expulsão.

Agora, eleito com um discurso anti-corrupção e de combate ao crime, Monteiro defende medidas como o armamento da Guarda Municipal:

— Temos lei federal que permite isso. Devemos salientar que a GM tem que caçar violadores da lei, não ficar correndo atrás de vendedor ambulante. Melhor vender goiabada no sinal do que cocaína no morro — diz o vereador eleito.

O ex-PM pretende “unificar cada vez mais policiais com Guardas Municipais” e expandir a presença de câmeras inteligentes pela cidade. No ensino, propõe implementar a educação financeira nos primeiros anos e pressionar o Executivo a zerar a fila das creches. Na Saúde, quer aumentar o cerco à corrupção, e, na área da mobilidade urbana, promete lutar pela “abertura da caixa preta dos transportes”:

— Não é possível que megaempresários do ramo, famílias antigas, ainda não tiveram taxa de lucro suficiente para aumentar a frota, pôr ar condicionado em todos os ônibus, melhorar a higienização… Considero isso uma afronta à sociedade.

Monteiro se recusa a declarar seu voto no segundo turno, que será disputado entre Eduardo Paes (DEM) e Marcelo Crivella (Republicanos) no dia 29. O ex-PM, que já minimizou a importância dos partidos políticos e defendeu a liberação de candidaturas avulsas, teme cometer “infidelidade partidária” caso manifeste seu apoio a um ou a outro candidato. Mas não se furta a criticar a configuração que a Câmara Municipal terá a partir de 2021:

— Qualquer político que seja verdadeiramente conservador tem todo meu apreço, admiração e carinho — disse. — Não tivemos a renovação esperada. Contudo, respeito a vontade popular. O que, é óbvio, não legitima a eleição do Lindbergh, que teve sua candidatura impugnada pelo TRE.

Lindbergh Farias teve 24.912 votos e foi o 9º candidato mais votado do Rio, mas ainda aguarda decisão do TSE para saber se vai ocupar uma vaga na Câmara. Ele foi o nome mais votado do PT, um dos principais alvos de Monteiro no YouTube. Num gesto surpreendente, o ex-PM já chegou a relacionar o PT à figura do senador Flávio Bolsonaro. Em vídeo do dia 5 de março, no qual defendia a criação de uma CPI para investigar o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Poder Judiciário, Monteiro critica Flávio por se posicionar contra a proposta, relacionando-o ao “petismo”. Sobre o assunto, o youtuber, que durante a campanha eleitoral fez questão de se vincular aos Bolsonaro, hoje desconversa.

— A pergunta tem uma premissa questionável e descontextualizada — afirma por WhatsApp o vereador eleito, que se recusou a conversar com a reportagem pelo telefone.

Monteiro também rebate a afirmação de que os candidatos apoiados por Bolsonaro fracassaram nas urnas, embora apenas 9 dos 44 postulantes à vereança impulsionados pelo presidente tenham se elegido, como mostrou o GLOBO:

— Pelo que eu vi, o apoio do presidente foi bem simbólico. O senhor presidente, em regra, manteve seus dizeres de distância no primeiro turno. Contudo, vimos candidatos com alta expressão de voto, o estreante Nikolas (Ferreira, do PRTB) de Belo Horizonte ficou em segundo lugar, na capital do estado da ex-presidente Dilma.

Bandeira cara ao bolsonarismo, a repressão ao crime foi um assunto que atravessou toda a campanha de Gabriel Monteiro, que teve no engajamento virtual um trunfo na corrida pela vereança. O ex-PM começou a ganhar fama na internet em 2018, com vídeos que acusavam a Polícia Militar de corrupção e perseguição. Atualmente, tem mais de 2,5 milhões de seguidores e embolsa do YouTube cerca de R$ 27,5 mil por mês, de acordo com o site SocialBlade. Por isso, diz que a questão financeira não foi o que o empurrou para a política.

— Eu vinha de muitos ataques da minha corporação, que incansavelmente me perseguia. O motivo primordial da escolha (de ser vereador) é para continuar denunciando e fiscalizando atos públicos criminosos — afirma o vereador eleito.

Em seus vídeos, que repetem um modelo criado por Arthur do Val, o “Mamãe Falei”, Monteiro dispara perguntas a pessoas desconhecidas ou de esquerda, em geral pegas de surpresa, para tentar constrangê-las a concordar com ele em seus posicionamentos. Numa das filmagens, Monteiro vai ao velório da menina Ágatha Félix, de 8 anos, que morreu baleada no Complexo do Alemão, com a intenção de persuadir os presentes de que a Polícia Militar não tinha sido responsável pelo ocorrido (embora um agente da corporação tenha sido denunciado pelo crime posteriormente). Monteiro bate boca com um jovem e, num dado momento, lhe dá um soco. Depois, entra rapidamente no carro, que parte em disparada.

Nem mesmo os superiores de Monteiro na Polícia Militar escaparam de seus questionamentos. Em outro vídeo, o então soldado interpela o coronel Marcos Alexandre Balbino sobre o combate aos caça-níqueis em Copacabana. Diante do silêncio do soldado, Monteiro diz que vai resolver o problema sozinho e, mesmo sem ordem, parte em busca das máquinas, proibidas por lei.

Outros exemplos de insubordinação marcaram a passagem de Gabriel Monteiro pela Polícia Militar. Entre faltas e descumprimentos, o youtuber acumulou 16 transgressões disciplinares e 33 dias de detenção durante os quatro anos que pertenceu à corporação, conforme revelou o EXTRA.

A ficha se inicia apenas quatro dias após a entrada de Monteiro na PM, quando ele descumpriu a ordem de um major ao não participar de um treinamento para formatura. Desde então, Monteiro registrou várias abstenções — por exemplo, durante o cerco na favela da Rocinha, entre 2017 e 2018 — e respondeu a um processo na Comissão de Revisão Disciplinar da PM por constrangimento ao coronel Íbis Pereira (vice da candidata do PSOL à prefeitura do Rio, Renata Souza) durante a gravação de um vídeo para o YouTube. Além disso, o PM já foi punido por se reagir a um capitão da corporação durante uma blitz da Lei Seca, em 2017, e por portar arma fora de serviço em diversas ocasiões.

No processo que resultou na expulsão de Monteiro da PM, o youtuber é acusado de deserção por não apresentar ao trabalho do dia 22 ao dia 31 de julho deste ano. Monteiro recorreu da decisão e foi reintegrado ao efetivo no dia 14 de agosto, mas se despediu da corporação sete dias depois, para concorrer nas eleições.

No entanto, nem depois de se desvincular da PM Monteiro deixou de se envolver em intrigas com a corporação. Durante a campanha eleitoral, o youtuber foi acusado de manter uma escolta ilegal com a participação de policiais militares, que o acompanhavam sem farda e com espingardas calibre 22 por todo o Rio de Janeiro.

Monteiro alegou que integrava o programa de proteção a pessoas ameaçadas e que a equipe estava autorizada pela PM a acompanhá-lo. A PM respondeu que a escolta oficial garantida ao youtuber seria feita com policiais fardados e se restringia a seu domicílio eleitoral, em Copacabana. Um processo interno foi aberto para apurar a acusação e os PMs que escoltavam Monteiro foram identificados. Embora a escolta oficial da PM só valesse para o período eleitoral, Monteiro diz que o grupo armado continua a acompanhá-lo:

— O que a PM informou aos senhores é mentira, tanto é que os policiais que estão comigo são da 2ª seção da polícia, sem farda. Todos me acompanham pelo estado todo. Os coronéis corruptos da PM estão com muito medo.

Depois de todo o imbróglio com a Polícia Militar, o novo vereador do Rio de Janeiro ainda recusa se chamar de ex-PM. A lei determina que policiais com menos de dez anos de serviço, caso se ausentem para disputar um cargo eletivo, passam automaticamente para a reserva não-remunerada, desligando-se da corporação.

— Se a PM diz que não sou mais policial, por que eles ainda não publicaram minha exclusão? Todo cidadão tem o direito de votar e ser votado, isso não pode ser motivo de exclusão. A democracia não pode ser vista como um crime.

(*Estagiário, sob supervisão de Leila Yousseff)