'Teremos de jogar nossa cerveja no ralo': o temor dos pubs britânicos com novo lockdown

Russell Hotten - Da BBC News
·5 minuto de leitura
Woolpack pub
The Woolpack, pub do grupo Shepherd Neame; setor se queixa do governo e prevê meses de dificuldades

Com um recorde de novos casos diários de covid-19, o Reino Unido se prepara para enfrentar mais um lockdown - quarentena obrigatória e com regras rígidas, que vêm sendo temidas em particular pelos pubs britânicos.

A partir da quinta-feira (05/10), o novo lockdown deve entrar em vigor, proibindo pubs e restaurantes de abrir suas portas (exceto para vender comida para viagem ou em sistema delivery), bem como atividades não essenciais de compras e lazer.

Interações com pessoas de outras casas (ou de outras "bolhas") também estão vetadas, embora atividades ao ar livre e aulas escolares e universitárias continuem sendo permitidas.

O plano delineado pelo premiê Boris Johnson tem previsão de durar quatro semanas e será votado no Parlamento britânico na quarta-feira.

Johnson afirmou que o Reino Unido estará diante de "um desastre médico e moral" se não agir para conter o contágio. O país tem o maior número de mortos por covid-19 na Europa (quase 50 mil) e registrou 18.950 mil novos casos do novo coronavírus na segunda-feira.

Donos dos tradicionais pubs britânicos, porém, se queixam do governo e antecipam novas dificuldades para o setor.

"(O plano do governo) é a quarta mudança de estratégia afetando o setor de hospitalidade nas últimas seis semanas, e não acho que será a última", afirma à BBC Jonathan Neame, executivo-chefe da cervejaria Shepherd Neame, que se declara a mais antiga do Reino Unido.

Diante do temor de que não consiga escoar sua produção sequer para retiradas ou delivery, Neame afirma que "teremos de jogar nossa cerveja no ralo".

A cervejaria já demitiu 10% de sua equipe e manteve outra parte de licença. "As pessoas pagando o preço são as que já estavam mais fragilizadas, tendo passado por um lockdown e apenas começando a reencontrar seu caminho", afirma Neame.

Jonathan Neame
Diante do temor de que não consiga escoar sua produção sequer para retiradas ou delivery, Jonathan Neame afirma: "teremos de jogar nossa cerveja no ralo"

O executivo prevê que os efeitos do novo lockdown se estendam até o Natal e afetem particularmente os pubs dos centros das cidades. "É difícil imaginar que eles renascerão tão cedo."

"Durante o primeiro lockdown, houve um apoio incrível das comunidades aos pubs locais", ele prossegue. "As pessoas querem seus pubs, querem que eles sobrevivam."

O setor teme que as medidas a serem votadas pelo Parlamento impeçam até mesmo o delivery ou a retirada de cerveja nos pubs para consumo em outros lugares.

Mark Newcombe, presidente do grupo comunitário que dirige o pub Craufurd Arms, em Berkshire, afirma ser "ridícula" a ideia de que pubs não possam entregar a cerveja.

"No último lockdown, fizemos um serviço de delivery e, embora sequer estivéssemos cobrindo nossos custos, pelo menos havia dinheiro entrando no pub", afirma.

O Craufurd Arms, especializado em cerveja do tipo ale, não serve comida. "Ale não tem uma vida longa. Quando chegar quinta-feira, o que não tiver sido vendido terá de ser jogado fora", afirma Newcombe.

"Gastamos tanto dinheiro e tempo para preparar nossos pubs para uma reabertura segura, e agora isso (um novo lockdown). Como se planejar? Pode durar quatro semanas, pode durar cinco. Pode durar até janeiro, não sabemos."

Craufurd Arms
The Craufurd Arms também teme ter de jogar fora sua cerveja astesanal a partir de quinta-feira, quando novo lockdown entrará em vigor

Para evitar ter de jogar sua produção fora, a cadeia de pubs Wetherspoon está oferecendo a "pint" de ale por 99 centavos de libra (cerca de R$ 7) até quarta-feira à noite.

"É melhor que os consumidores possam desfrutar da ale por um bom preço enquanto os pubs puderem ficar abertos", afirma Eddie Gershon, porta-voz do Wetherspoon. Ele afirma que a promoção não vai causar aglomerações, uma vez que "cada um de nossos pubs está adotando medidas contra a covid e restringindo o número de pessoas".

Para James Calder, executivo-chefe da Sociedade de Cervejeiros Independentes (Siba, na sigla em inglês), diz que é urgente que o governo esclareça quais serão as restrições para a venda de cerveja no novo lockdown. O setor também pede apoio financeiro, incluindo mais crédito e a extensão de cortes de impostos para pubs.

Em discurso no Parlamento nesta segunda, o premiê Boris Johnson afirmou que "o governo continuará a fazer todo o possível para apoiar empregos e a subsistência (dos britânicos) nas próximas quatro semanas. Protegemos 10 milhões de empregos com as licenças (remuneradas) e vamos estender isso até novembro".

Johnson tem enfrentado resistência para o segundo lockdown até mesmo dentro de seu partido, o Conservador, e de críticos que dizem que o governo está sendo ineficaz em antecipar os ciclos da pandemia no país.

O premiê argumenta que as medidas mais duras são necessárias para evitar as previsões mais pessimistas, de que o Reino Unido poderia alcançar 80 mil mortes por covid-19 e sobrecarregar ao extremo o serviço público de saúde. "Estamos enfrentando uma doença. (...) Quando os dados mudarem, nós também vamos mudar de curso", afirmou.

O chefe da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse por sua vez que se trata de "mais um momento crítico para a ação" de líderes mundiais, à medida que diversos países da Europa e Estados americanos enfrentam uma nova onda de contaminações. "É também mais um momento crítico para as pessoas se unirem em um propósito conjunto."

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