Terezinha Trocoli superou a infância miserável e a esquizofrenia da mãe: 'Sobrevivi para espalhar minha história'

Gilberto Júnior
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Lembro-me até hoje da primeira — e única — boneca que ganhei do meu pai, aos 10 anos. Não era nada demais, mas para uma criança que cresceu sem nada, significava muito. Mas nunca cheguei a brincar com ela... Minha mãe sofria de esquizofrenia (que só descobri quando eu já era adulta) e guardou aquele objeto inocente no alto do armário, onde eu não alcançava, para não estragar. Papai tinha surtos agressivos, nos agredia e, às vezes, era necessária a intervenção da polícia. Ficava dias fora de casa e voltava sujo e cabisbaixo. Chegou a ser internado numa clínica para doentes mentais, mas jamais recebemos um diagnóstico preciso. Sou fruto desse lar problemático e de extrema pobreza. No entanto, sobrevivi para espalhar minha história e, quem sabe, inspirar alguém.

Ao contrário de outras meninas, não frequentava a escola. Aos 7 anos, acompanhada de uma vizinha, fui me matricular num colégio. Sem querer, comecei naquele instante minha transformação. Apesar de todas as dificuldades e obstáculos, fui evoluindo, construindo laços de amizade. E foram essas amizades que me salvaram em diversas passagens da vida. Na adolescência, depois de mais uma briga violenta dos meus pais, fui morar com meus tios, deixando Bangu, onde nasci, para trás. No bairro do Rocha, algumas coisas mudaram, mas outras permaneceram exatamente iguais. Dormia numa cama de molas e lona, e era tratada como empregada. Também não podia ouvir os Beatles ou os Rolling Stones. Mas não faltava comida (ainda que o cachorro pequinês tivesse prioridade na hora do bife) e tive liberdade para estudar.

Aos 19, me formei no Instituto de Educação e virei professora do antigo primário. Nas escolas públicas em que dei aula, me enxergava nos alunos frequentemente. Eram muitas semelhanças. Fui à frente do tempo e usava o método de unidade de experiência. Usava um tema e a partir dele eu englobava todas as matérias. O mais especial, no entanto, foi o valor que dei aos estudantes. Mostrei que eu me importava com eles e que o colégio poderia ser a saída para seus dramas particulares.

Meu primeiro casamento foi aos 20 anos e tive dois filhos. Minha caçula foi diagnosticada na infância com bexiga neurogênica. Por conta disso, ela tinha que urinar de hora em hora para não acumular mais de 100ml, evitando assim refluxo e infeção renal. Como não podia parar de trabalhar, as amizades, mais uma vez, me salvaram. Cuidavam da minha menina enquanto eu lecionava. Depois de muita preocupação e internações, inclusive uma passagem pelo CTI, Patricia conseguiu controlar o problema de origem neurológica.

Para aumentar a renda, me aventurei no ramo de comida congelada. Deu certo por mais de três décadas. Também investi no setor de vestuário, montando uma espécie de loja na sala de casa. Era uma loucura divertida. Nesse meio tempo, me separei por diferenças irreconciliáveis. Ele nunca foi à luta; vivia nas minhas costas. Meu ex-marido não tinha nada a ver comigo.

Já aposentada do magistério e com a empresa de congelados fechada, percebi que estava ficando velha. Resolvi resgatar amigos e fiz uma feijoada no quintal da residência onde moro com meu atual companheiro, na Ilha Primeira, na Barra da Tijuca. Foi um sucesso enorme e tive o estalo de que poderia fazer algo com aqueles metros quadrados. Peguei um empréstimo e dei uma repaginada no local. Assim surgiu o Veneza Garden, espaço que alugo e executo casamentos, aniversários, eventos corporativos e reuniões familiares. Paramos por causa da pandemia, mas logo estaremos de volta. Mesmo diante de todo sofrimento que o mundo me impôs, nunca reclamei ou me revoltei. Ficava esperando um momento melhor. E, hoje, aos 71, não será diferente.