Tese de acidente tóxico em cidade síria é 'inverossímil' para especialistas

Por Michel MOUTOT
(4 abr) Hospital destruído no suposto ataque químico em Khan Sheikhun

As vítimas do suposto ataque químico na cidade síria de Khan Sheikhun não podem, em nenhuma hipótese, ter sido alvo da explosão acidental, após um bombardeio aéreo, de um depósito de produtos ou armas químicas, afirmam especialistas.

O exército russo tentou inocentar, parcialmente, o regime de Damasco ao alegar que a aviação síria atacou na terça-feira um "armazém" dos rebeldes, que continha "substâncias tóxicas". Na explosão, as substâncias foram disseminadas na atmosfera.

"A explicação dada pelos russos é completamente inverossímil, provocaria risadas se a situação não fosse tão dramática. Penso que nem eles mesmos acreditam", disse à AFP Olivier Lepick, cientista da Fundação para a Pesquisa Estratégica (FRS), especialista em armas nucleares, radiológicas, biológicas e químicas (NRBC).

"Inventar este tipo de sandice no período de poucas horas para tirar do atoleiro um aliado tão complicado como Assad é realmente doloroso. Já vimos os russos mais eficazes em termos de desinformação. A tese não se sustenta tecnicamente nem por um segundo", completou.

De acordo com Lepick, a forte disseminação na atmosfera de um agente mortal, como foi constatada em Khan Sheikhun, constituiu o que os especialistas chamam de "aerossolização", que é a marca de uma arma química de qualidade militar, o que não pode ocorrer durante uma explosão acidental.

"Se calcula claramente na análise das zonas de impacto, pela forma como as pessoas foram afetadas, que são claramente munições que foram concebidas para liberar um agente químico, ou seja explodir, com grande capacidade de aerossolização, com uma eficácia máxima na difusão do agente químico", disse.

- Arma química militar -

"Se, por acaso, tivesse atingido um armazém, poderia acontecer a formação de uma nuvem tóxica. Você simplesmente nunca vê uma aerossolização tão eficaz como a que se observou no local".

"Aqui, com clara evidência, se utilizou uma arma química militar, não se trata de um vazamento de um depósito. Está claro e é evidente, para qualquer um com um olhar objetivo, o que aconteceu", completou o especialista.

Hamish de Bretton-Gordon, coronel da reserva e ex-comandante da unidade britânica de combate contra NRBC, que entrou em contato com os médicos sírios que trabalham na região afetada, chegou à mesma conclusão.

Ele considera "inverossímil" a explicação de Moscou sobre um ataque contra um depósito no qual os rebeldes anti-Assad teriam armazenado substâncias tóxicas.

"Os russos tentam proteger seu aliado", disse à BBC.

"Está claro que é um ataque com gás sarin, um agente neurotóxico. Se você explode um depósito de sarin , você o destróis", adverte.

"A ideia de que uma reserva de sarin, da Al-Qaeda ou dos rebeldes, foi destruída por uma explosão é completamente insustentável e completamente falsa", considera.

"A maioria das vítimas parecem ser crianças e mulheres, e não combatentes rebeldes. Parece estranho que, no caso de ataque contra uma reserva de munição, as vítimas sejam mulheres e crianças", completou o ex-coronel, que agora dirige a ONG Doctors Under Fire.

O ataque contra Khan Sheikhun, nordeste da Síria, provocou indignação desde terça-feira.

As potências ocidentais intensificam os esforços para tentar aprovar uma resolução de condenação ao ataque na ONU, ao mesmo tempo que o governo americano ameaça adotar uma ação unilateral em resposta ao ataque, que o presidente Donald Trump chamou de "odioso" e de "afronta à humanidade".

O balanço atualizado do ataque é de 86 mortos, incluindo 30 crianças, de acordo com o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), que também cita mais de 160 feridos e pessoas desaparecidas.