Tesoureiro de França é suspeito de ter sido fantasma do governo

WÁLTER NUNES
·5 minuto de leitura
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, SP, 28.07.2020 - Márcio França, candidato do PSB à Prefeitura de São Paulo. (Foto: Karime Xavier/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, SP, 28.07.2020 - Márcio França, candidato do PSB à Prefeitura de São Paulo. (Foto: Karime Xavier/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O contador Janio Francisco Benith, tesoureiro da campanha de Márcio França (PSB) à Prefeitura de São Paulo, é alvo de um processo administrativo do banco de fomento estadual Desenvolve SP sob suspeita de ter sido, por dois meses, funcionário fantasma da instituição.

Entre novembro e dezembro de 2018, Benith ocupou o cargo de superintendente do setor de produtos da Desenvolve SP, com salário de cerca de R$ 25 mil. Neste período, França era governador de São Paulo, em substituição a Geraldo Alckmin (PSDB), de quem era vice e que deixou o cargo para concorrer à Presidência da República.

Benith foi alvo de uma investigação do comitê de ética da Desenvolve SP, que, segundo a reportagem apurou, apontou que ele não foi ao trabalho nos dois meses em que ocupou a superintendência de produtos do banco.

A comissão da Desenvolve-SP calculou que o banco desembolsou mais de R$ 80 mil, em salários e benefícios, com o funcionário que não teria ido trabalhar. O relatório do grupo apontou a necessidade de abertura de processo administrativo para apurar a conduta do ex-funcionário. A ação ainda não foi concluída.

A Desenvolve SP é uma instituição financeira do governo paulista --hoje sob gestão de João Doria (PSDB)-- que financia projetos para pequenas e médias empresas do estado. O cargo de superintendente, ocupado por Janio Benith, é o terceiro degrau da hierarquia do banco, abaixo apenas da presidência e das diretorias.

A trajetória de Janio Benith tem muitos pontos de contato com a vida política de Marcio França. Em 2016, Benith foi indicado para a assumir a presidência da Jucesp (Junta Comercial do Estado de São Paulo), órgão responsável pelas aprovações e arquivamentos das alterações e operações societárias das empresas do estado.

A Jucesp faz parte da estrutura da Secretaria do Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação. Na ocasião, França acumulava o posto de vice-governador com o cargo de secretário do Desenvolvimento.

Benith só saiu do comando da Jucesp dois anos depois, em maio de 2018, para ocupar interinamente a Secretaria de Desenvolvimento, no lugar de França, que assumiu o Palácio dos Bandeirantes após Geraldo Alckmin renunciar ao governo para disputaria a eleição presidencial.

Em 20 de junho daquele ano, Benith recebeu uma placa em homenagem ao período que comandou a junta. A reportagem sobre o evento no site da Jucesp registra que ele discursou agradecendo o padrinho.

"[Benith] Lembrou de todas as dificuldades iniciais, em sua gestão, e enalteceu a participação de todos os funcionários, membros da diretoria e a cada vogal representante de entidades respeitadas no estado, que participaram com entusiasmo de toda a transformação ocorrida em sua gestão. Discorreu sobre sua escolha, em ser presidente da Jucesp, e que contou com o apoio do governador Márcio França", diz a reportagem.

Naquele dia o sucessor de Benith na Jucesp, o presidente Marcelo Strama, encerrou a sessão comemorativa também fazendo referência à ligação de Benith e França.

"É muito nítida a transformação que a Junta Comercial do Estado de São Paulo teve na gestão que teve o dr. Janio como presidente. Antenado com o governador Márcio França, aceitou o desafio e promoveu as mudanças que eram o desejo dos funcionários, colaboradores e usuários", disse Strama.

Benith é filiado ao PSB. Na gestão de França como presidente do diretório estadual do partido, o contador ocupou a função de segundo secretário de finanças.

Márcio França avançou nas pesquisas de intenção de voto na reta final da campanha. Segundo o Datafolha, ele passou de 9% para 13% na última pesquisa, publicada na quinta-feira (5). Está empatado tecnicamente com Celso Russomanno (Republicanos), que registrou 16%, e Guilherme Boulos (PSOL), que tem 14%.

OUTRO LADO

A assessoria de imprensa da campanha de Márcio França disse que a nomeação de Benith no banco de fomento "foi de livre nomeação do então presidente da Desenvolve SP da época". "Janio Benith é um profissional competente, com mais de 35 anos de experiência em contabilidade. Foi presidente da Junta Comercial de São Paulo ""uma das maiores do mundo"" por indicação do Conselho Regional de Contabilidade", diz a nota.

Segundo a assessoria do candidato, Benith "não concorda com a comissão de ética, porque nunca lhe foi concedido o direito legítimo de defesa". "Ele pediu, mas não teve acesso ao processo administrativo. Assim, sem conhecer o teor da apuração, não teve como se defender, o que torna o processo absolutamente ilegal", diz o comunicado da assessoria de França.

"O sr. Janio Benith foi prestar seus serviços junto à Secretaria de Planejamento do Governo de São Paulo, para preparação do Orçamento de 2019 e sua consequente tramitação na Assembleia Legislativa. Diretor não assina ponto e fica permanentemente à disposição. No caso de Janio, durante 60 dias, teve a incumbência de ajudar no preparo do orçamento. Ao que tudo indica, Janio foi alvo de uma retaliação do então presidente da Desenvolve exonerado por Márcio França", diz a nota.

"Vale lembrar ainda que Janio, que assumiu a Secretaria de Desenvolvimento interinamente quando Márcio teve de se ausentar do cargo, foi eleito pelos filiados do partido como secretário de finanças da agremiação no estado, o que referenda sua reconhecida competência e legitimidade."

A campanha de França também diz ser "estranho que justamente no momento em que França sobe nas pesquisas rumo ao segundo turno, para disputar com o candidato do PSDB, surjam denúncias de âmbito essencialmente burocrático". "Mais parece uma inquisição de cunho eleitoral, reflexo do medo que eles têm do crescimento do candidato do PSB nas pesquisas."

A Desenvolve SP, em nota, disse que o processo administrativo contra Benith ainda não foi concluído. "O Desenvolve SP informa que o caso passou pelo comitê de ética, que indicou a abertura de processo administrativo, que atualmente está em andamento. As medidas judiciais cabíveis são sempre adotadas de acordo com a conclusão de cada processo. Ele ficou no cargo nos meses de novembro e dezembro de 2018", afirmou.