Teste feito em casa identifica infecção pela Covid com análise da saliva

Elisa Martins
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A retomada de atividades de trabalho e socialização em várias cidades brasileiras movimentou o mercado de testagem para Covid, que se expande com a reabertura. Em São Paulo, um laboratório acaba de lançar um serviço no qual a pessoa pede pela internet um kit que contém um teste de saliva, faz a coleta em casa e agenda a devolução a um coletor da empresa, que levará o material para análise em laboratório. O resultado sai em menos de 24 horas, também na internet.

— É um teste simples de colher, prático, acessível do ponto de vista financeiro e que dá uma resposta rápida. A ideia é que seja mais uma camada de proteção para que as pessoas retornem com segurança às atividades de escola, trabalho, socialização, encontros de família — explica David Schlesinger, CEO do laboratório de mapeamento genético Mendelics e da healthtech por trás do serviço, chamada meuDNA.

O teste custa R$ 169, mais acessível em comparação aos exames tradicionais de RT-PCR. A tecnologia foi desenvolvida em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, em julho, mas até então o teste ficava restrito ao ambiente hospitalar e a empresas que contratavam o serviço para testar seus funcionários, sem venda direta ao consumidor final.

— Começamos a fazer para empresas, foram mais de 300 mil testes, e vimos que havia uma demanda grande de pessoas que queriam testar na própria família, sem depender de intermediários. Essa nova logística veio da necessidade de maior agilidade e acessibilidade — acrescenta Schlesinger.

O teste usa como base de diagnóstico uma tecnologia chamada PCR-LAMP (Amplificação Isotérmica Mediada por Loop). Assim como o RT-PCR, a técnica confirma a infecção a partir da identificação de presença do material genético do novo coronavírus no material colhido.

A diferença, explica o laboratório, é que o resultado não depende de análise do swab nasofaríngeo (a secreção nasal é colhida com um cotonete nos exames de RT-PCR). E o próprio consumidor pode fazer a coleta de saliva em casa, em um tubo estéril que vem no kit.

— Apesar de o número de infectados estar caindo, agora é um momento crucial para testagem e controle de novos picos, como temos visto na Europa — afirma Schlesinger. — Inclusive é um teste especialmente válido para assintomáticos, que têm carga viral e podem transmitir a doença mesmo sem apresentar sintomas. A testagem complementa outras estratégias, como o uso de máscaras e o contato reduzido com pessoas e aglomerações desnecessárias, e pode ser feita com frequência para aumentar a segurança.

Segundo o laboratório, a confiabilidade do kit de saliva é maior do que a dos testes rápidos, alvos de discussão sobre falsos negativos no início da pandemia.

— A sensibilidade gira em torno de 80%, e a especificidade é de quase 100% — diz Schlesinger. — Sem contar que o teste PCR-Lamp indica a infecção em fase ativa, não é baseado em testes de anticorpos, que são desenvolvidos depois da infecção.

Por enquanto, o serviço está disponível apenas na cidade de São Paulo e região metropolitana, por conta da logística de entrega e retirada do teste. A empresa estuda formas de expansão a outras cidades.

Os testes baseados em análise de saliva têm sido uma aposta no Brasil e no exterior. O hospital Sírio-Libanês também desenvolveu um teste próprio que usa a análise RT-PCR em saliva colhida de pacientes e que será lançado ainda este mês.

— É um teste molecular com processo parecido ao do swab, mas com análise da saliva — explica Cesar Nomura, superintendente de medicina diagnóstica do Sírio. — A vantagem é a facilidade de coleta. Não é necessário um ambiente protegido, como quando se faz a coleta de swab nasal, e o resultado sai mais rápido, em menos de 24 horas. Além disso, a saliva tolera melhor a temperatura ambiente e não precisa ser acondicionada em refrigeração até o processamento do material.

Segundo o médico, o teste é especialmente dirigido a pessoas assintomáticas, em empresas ou escolas que queiram ter um retrato da infecção entre colaboradores ou alunos.

— Esse teste tem especificidade de 100%, sensibilidade de 93% e concordância próxima a 96% — afirma.

Para os casos que chegam ao hospital com forte suspeita de Covid, o teste mais recomendado ainda é o convencional RT-PCR, explica, que tem a detecção mais alta.

A Universidade de São Paulo (USP) também trabalha em um teste que detecta a Covid por meio da saliva, com o uso da técnica RT-Lamp. Ainda em testes internos, ele deve ser lançado no próximo mês.

Além disso, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Universidade Federal de Goiás (UFG) estão desenvolvendo testes de Covid com análise de saliva, como opção para ampliação do diagnóstico de funcionários e pacientes.