Teste para Covid-19 criado pela UFMG custa menos de R$ 1 por paciente graças à produção de insumos no Brasil, diz pesquisador

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Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) possibilitou a criação de um teste para detecção da Covid-19 que custa apenas R$ 0,80 por paciente. Já patenteado, a expectativa é que o kit diagnóstico passe a ser fabricado em larga escala por indústrias a um custo ainda menor — cerca de R$ 0,50 — e auxilie o Sistema Único de Saúde (SUS) na realização de testagem em massa e na adoção de medidas sanitárias mais assertivas de controle da pandemia.

Em entrevista ao GLOBO, o professor e coordenador da pesquisa que deu origem ao exame, Rodolfo Giunchetti, explica que o baixo custo se deve à produção de insumos feita quase que totalmente no Brasil, fator que reduz em até 30% os gastos com a importação. O diferencial deste teste, em comparação a outros semelhantes, é sua capacidade de avaliar três tipos de anticorpos (IgG, IgA e IgM), tornando o diagnóstico mais preciso. O teste é feito em plataforma já consagrada em laboratórios de análise e realizado com amostra sanguínea, a partir do 14º dia de sintomas. O resultado sai em apenas duas horas.

O desenvolvimento do teste teve a coordenação do professor Alexsandro Galdino, da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), e contou com a parceria da Federal de Lavras (Ufla), da Federal da Integração Latino-americana (Unila) e da Fundação de Ensino e Tecnologia de Alfenas (Unifenas).

Como o estudo foi adaptado para ter um custo menor que R$ 1?

Um dos fatores que otimizou o desenvolvimento do teste foi a diluição dos insumos que possibilitam a identificação do vírus, até um limiar que consegue manter a capacidade de detecção do anticorpo. Isso fez render mais e barateou o kit diagnóstico a nível laboratorial (adquirindo materiais em pequenas quantidades) e deixará ainda mais barato a nível industrial, que possui produção em larga escala.

Outro fator que reduziu os custos e que diferencia o kit frente aos outros exames é que ele é praticamente nacional, exceto a placa com 96 orifícios usada para análise sanguínea. O custo desse material no exterior varia de R$ 1,5 mil a R$ 3 mil, e no laboratório sai em torno de R$ 80. Ou seja, se eu tiver 1 mil plaquinhas, faço 100 mil testes por dia, por 0,80 centavos cada.

Por que a detecção de três tipos de anticorpos no teste é tão importante e considerado um avanço?

O nosso kit avalia três tipos de anticorpos (IgG, IgA e IgM), possibilitando uma varredura na população. É como se fosse três tipos de exames em apenas um. Este teste não funciona como o PCR, mas como os testes comuns feitos a partir da coleta de uma gota de sangue, que requer 14 dias de sintomas para detectar anticorpos. O tempo para realização do exame não pode ser acelerado, visto que esse é um processo natural do organismo para começar a combater a doença.

Em outras palavras, será possível realizar milhares de exames em um dia, a custo baixo e com alta chance de detecção da doença, ajudando os estados e municípios a identificarem as áreas que têm maior índice de contágio e propensão de ter mais casos de Covid em pessoas que ainda não tem o anticorpo para o coronavírus.

Como funciona o processo de patentear o estudo?

A patente da exclusividade para quem desenvolveu a tecnologia, a fim de proteger contra plágio. A partir disso, garantimos a exclusividade para quem quiser comercializar o produto. Além disso, é uma forma de valorizar a ciência feita nas universidades públicas. A UFMG e instituições apoiadoras começaram a pesquisa quase sem recurso nenhum, porque o investimento em pesquisa caiu no Brasil. A realização do estudo aconteceu com ajuda financeira de empresa, com doação de R$ 800 mil; valor que não contemplou integralmente, visto o alto custo da mão de obra e equipamentos.

Como funciona a transferência desse kit para indústrias?

A Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica da UFMG já está em tratativas com três empresas da área de diagnóstico e a expectativa é que em três meses uma delas tope produzir o exame, a partir do licenciamento de tecnologia. Antes de chegar ao mercado, é preciso aprovação da Anvisa para regular o kit. E depois de aprovado, o produto chega ao mercado. Nós, pesquisadores, temos o interesse máximo de que esse kit chegue, especialmente, ao SUS, e essa foi uma das condições para buscar empresas.

Qual será o custo do kit diagnóstico para o SUS?

Para o poder privado, a regulação é livre concorrência, mas para o SUS projetamos um aumento de 100% a 200% sob o custo. Pois, tendo em consideração a produção em larga escala, a empresa conseguirá produzir o teste por cerca de R$ 0,50. Dessa forma, o teste para o governo federal custaria entre R$ 1 e R$ 2. O que ainda vai ser cerca de 10% mais barato que outros testes já existentes. Uma vez aprovada pela Anvisa e produzida pela indústria, caberá ao Ministério da Saúde definir se quer comprar ou não o kit diagnóstico.

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