Testemunha acusa Flordelis de ter influenciado filho a mudar versão sobre morte de pastor

Carolina Heringer
A deputada Flordelis dos Santos: acusação de testemunha

Uma testemunha da morte do pastor Anderson do Carmo acusou a deputada federal Flordelis dos Santos (PSD) de ter influenciado um de seus filhos, Lucas Cézar dos Santos, de 18 anos, a mudar sua versão sobre o crime. O relato foi dado à Justiça por Regiane Ramos, ex-patroa de Lucas, durante audiência na Justiça no último dia 31. Em carta escrita no fim de setembro e assinada por Lucas, o rapaz admitiu participação no assassinato, o que sempre negou à polícia. Ainda segundo Regiane, o intuito seria que Lucas “admitisse toda a culpa pelo crime”.

A testemunha afirmou ainda que os advogados de outro filho de Flordelis acusado do crime, Flávio dos Santos, também influenciaram na mudança de versão. As informações sobre o depoimento de Regiane constam em ata da audiência do dia 31, no processo respondido por Lucas e Flávio. Os irmãos são réus pela morte de Anderson, que completa cinco meses neste sábado. Ao EXTRA, em nota divulgada por sua assessoria de imprensa, Flordelis negou que tenha incentivado ou desestimulado os filhos a tomarem qualquer posição com relação ao caso.

Nos dias 31 de outubro e 1º de novembro, foram realizadas duas audiências do processo, nas quais foram ouvidas testemunhas de defesa e acusação, entre elas Regiane. A inclusão de trechos do depoimento de Regiane na ata de audiência do dia 31 foi solicitada pela promotora do caso, Fernanda Neves, ao fim da sessão. Ela também pediu que fosse ressaltado, no documento, que dois advogados de Flávio, Maurício Eduardo Mayr e Flávio Crelier, visitaram Lucas na penitenciária Bandeira Stampa, conhecida como Bangu 9. As visitas, fato classificado pela promotora como “completamente inusitado”, ocorreram na semana anterior à divulgação da carta de Lucas por Flordelis, nos dias 17 e 18 de setembro.

Procurado pelo EXTRA, o advogado Maurício Mayr afirmou que a sua ida e de Flávio Crelier ao presídio foram para confirmar a autoria da carta com Lucas, o que, segundo ele, foi confirmado pelo rapaz à Justiça. No entanto, em entrevista coletiva de imprensa realizada no dia 24 de setembro, Mayr afirmou aos jornalistas que os advogados só tiveram acesso à correspondência no dia 23, um dia após Flordelis ter divulgado a carta no “Fantástico”, da TV Globo.

“No sábado, fizeram a reconstituição do crime, então foi uma ocasião em que os advogados puderam estar juntos. Os da Flordelis, Flávio e do Lucas. Naquele momento, nós trocamos os nossos contatos. Essa carta foi divulgada no domingo e no próprio domingo, eu recebi um convite do doutor Fabiano Migueis para pegar uma cópia dessa carta”, afirmou Mayr na coletiva.

Quando a correspondência foi escrita, Lucas e Flávio dividiam a mesma cela em Bangu 9. Ainda na ata da audiência, a promotora ressalta que Lucas desistiu de participar da reconstituição do caso, realizada pela Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo no dia 21 de setembro, após a visita dos advogados. Também foi consignado, no documento, que a carta foi obtida de forma “no mínimo duvidosa”, já que conversas encontradas pela DH no celular de Flordelis revelam preocupação da deputada em manter os filhos no mesmo presídio, de forma a manter Lucas “sob controle”. Ainda foi encontrado, no telefone da deputada, um comprovante de depósito de R$ 2 mil feito a uma pessoa ligada à Andrea dos Santos Matos, mulher de um preso apontada como responsável por intermediar a entrega da carta a Flordelis.

Diante dos fatos que pediu para serem elencados na ata, a promotora solicitou que Lucas fosse questionado se gostaria de continuar a ser defendido pelo advogado Marcelo Pires Branco da Costa, que assumiu o caso após a confecção da carta. Em um primeiro momento, Lucas optou por continuar com o advogado. No fim da audiência, quis passar a ser representado pela defensoria pública. Marcelo Pires Branco da Costa também é advogado de Marcos Siqueira, ex-policial militar e marido de Andrea dos Santos.

Maurício Mayr ainda ressaltou, ao EXTRA, que Lucas e Flávio, após serem presos, não receberam qualquer visita de familiares, por isso Regiane “não tem como afirmar algo desse tipo”. Ainda segundo o advogado, ao tomar conhecimento da carta, ele e os outros colegas que atuam na defesa de Flávio afirmaram que a carta merecia apuração e principalmente exames grafotécnico para atestar sua autenticidade. “Agora, o teor daquela carta e o porque ela foi escrita não é de nosso conhecimento e muito menos possui qualquer participação, influência ou qualquer outra atribuição a advogados. Isso inclusive ficou esclarecido pelo depoimento do próprio Lucas”, afirmou Mayr.

Lucas foi interrogado no segundo dia de audiência e negou ter sido o autor da carta na qual ele mudou sua versão sobre o crime. O rapaz alegou ter copiado um texto já pronto, na biblioteca da Penitenciária Bandeira Stampa, conhecida como Bangu 9, onde estava preso. Diante das declarações de Lucas, a juíza Nearis dos Santos determinou apuração de crimes envolvendo a confecção da correspondência.

A Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo também já vinha apurando a carta. Ao apreender os telefones celulares de Flordelis e de duas netas - Lorrane e Rayane -, no dia 17 de setembro, a polícia encontrou indícios de que o documento pode ter sido fraudado. A deputada nega que tenha participado de fraude ou que tenha tomado conhecimento de que isso tenha ocorrido.

Lucas trabalhou com Regiane em sua oficina de veículos antes de entrar para o tráfico de drogas. A ex-patroa está na lista de pessoas autorizadas a visitar Lucas atualmente. Além dela, só podem estar com o rapaz um de seus irmãos, Daniel dos Santos de Souza, o defensor público que o representa e o marido de Regiane.