Testemunha de genocídio, anciã indígena morre com sintomas de Covid-19

FABIANO MAISONNAVE
·3 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sobrevivente do genocídio contra o povo paiter-suruí, a anciã Weitãg Suruí morreu no último sábado (2), com sintomas de Covid-19. De idade próxima dos 100 anos, ela sobreviveu a uma sucessão de doenças que quase dizimou sua etnia após o contato com os brancos, em 1969. Weitãg morava na aldeia Apoena Meireles, dentro da Terra Indígena (TI) Sete de Setembro, entre Mato Grosso e Rondônia, e não chegou a ser testada para o novo coronavírus em vida. O povo paiter-suruí vem enfrentando a segunda onda de Covid-19. Na primeira onda, ela perdeu Renato, um dos seus sete filhos. "O contato sempre foi um desafio pro nosso povo. A geração da minha mãe nos orientou a chegar até aqui para que a gente pudesse compreender a diferença da cultura e sobreviver dentro dessas diferenças", diz Almir Suruí, 46, importante liderança indígena do país. A história do contato dos paiter-suruís com os brancos está ligada à construção da BR-364, durante a ditadura militar, entre Cuiabá (MT) e Porto Velho (RO), nos anos 1970. Com a obra, colonos e madeireiros invadiram o território paiter-suruí, em um processo caótico que matou centenas de indígenas, vítimas principalmente do sarampo. Casada com Marimop, importante liderança, Weitãg perdeu ao menos um tio e um irmão para as doenças do branco, conta Almir. Em meio ao choque com a invasão, além de apoiar o companheiro, coube a ela a transmissão oral do conhecimento da medicina tradicional e da confecção de peças de artesanato aos filhos, aos 63 netos e 55 bisnetos. Nora de Weitãg, a indigenista Ivaneide Cardozo diz que tinha dificuldades para engravidar até fazer um tratamento feito com ela. "Dois meses depois, estava grávida". Ela tem duas filhas adolescentes da união com Almir. "Para nós, a minha avó é uma pessoa de conhecimento. Não somente na área de ervas tradicionais, ela também nos aconselhava. Foi uma pessoa sensacional", afirma o neto Rubens Suruí, 31. Weitãg fazia parte de um reduzido grupo que nascera antes do contato. Eles somam cerca de 50 pessoas, em uma população de cerca de 1.500 paiter-suruís. São facilmente reconhecíveis pela pintura permanente no rosto, linhas harmoniosas desenhadas com espinho e tinta de jenipapo para marcar a passagem para a vida adulta. Ela nunca aprendeu a falar português -só se comunicava em tupi-mondé. Mesmo assim, acompanhava as dramáticas mudanças ocorridas no seu povo, sem dúvida entre as mais velozes do mundo. Do mundo dos brancos, obteve um documento de identidade que registra seu nascimento em dezembro de 1922. Ela também se converteu ao cristianismo e passou a frequentar cultos proferidos em sua língua, mudança cultural do seu povo registrada no premiado filme Ex-Pajé, de 2018. Após a tragédia dos primeiros anos do contato, os paiter-suruís demonstraram grande capacidade de articulação com não indígenas. Foram o primeiro povo indígena do mundo a vender créditos de carbono, fizeram acordo com o Google e produzem café orgânico. Poucos povos passaram por tantas mudanças em tão pouco tempo. Em sua biografia Save the Planet (salve o planeta), publicada em francês e inglês, Almir narra um episódio em que Weitãg mostra como interpretava o mundo ao redor. Em gesto diplomático e afetivo, ela colocou um colar produzido por ela no pescoço do suíço Thomas Pizer, presidente do Instituto Aquaverde, parceiro dos paiter-suruí. "O tipo específico de colar que ela deu a eles era reservado para as lideranças e nunca havia sido oferecido a um branco", diz Almir. "Ela explicou que havia tido uma visão e que Thomas daria uma ajuda importante na batalha em que o povo e eu estávamos perto de lutar." O suíço passou a ser considerado filho de Weitãg.