Testemunha nos EUA diz que deu dinheiro do narcotráfico ao presidente de Honduras

Laura BONILLA
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Uma testemunha protegida do governo dos Estados Unidos, que foi contador de uma grande empresa hondurenha, disse em um julgamento em Nova York nesta terça-feira (16) que entregou dinheiro do narcotráfico ao presidente de Honduras e que testemunhou uma reunião na qual este propôs a um suposto traficante de drogas para trabalharem juntos.

A testemunha foi apresentada a um tribunal federal de Manhattan sob um nome falso, José Sánchez, por motivos de segurança.

Ele disse que trabalhou durante 15 anos na empresa de arroz Graneros Nacionales de Fuad Jarufe, na cidade de Choloma, que lavava dinheiro para o temido cartel hondurenho Los Cachiros e também para o acusado Geovanny Fuentes Ramírez.

O contador assegura ter presenciado várias reuniões nas quais esteve o presidente Juan Orlando Hernández, duas delas com Fuentes, acusado pela justiça americana de traficar toneladas de cocaína para os EUA com a ajuda do presidente, de outros políticos hondurenhos, policiais e militares corruptos.

A testemunha disse que em 2013 esteve em um encontro entre Hernández e Fuentes nos Graneros Nacionales, no qual o presidente - então chefe do Congresso Nacional e candidato à Presidência - disse ao arguido “que tinha interesse em (Fuentes) trabalhar para ele em seu laboratório" de cocaína.

- "Seremos intocáveis" -

“Juan Orlando Hernández disse que não havia necessidade de se preocupar com a justiça já que ele tinha o procurador (geral da República, Oscar) Chinchila naquele local para protegê-los, e que a transferência da droga seria feita por meios diversos” com a ajuda da polícia e dos militares, disse a testemunha.

Hernández afirmou que "quando os Estados Unidos soubessem da verdade já teriam modificado as leis" e abolido a extradição dos traficantes, acrescentou o contador, um homem de 45 anos que falava pausadamente.

Segundo Sánchez, Hernández também disse: “Oliva e Chinchila já estão trabalhando nisso. Seremos intocáveis (...) Vamos colocar a droga nos gringos debaixo de seus próprios narizes e eles nem perceberão”.

Oliva era então deputado federal e atualmente é presidente do Congresso e candidato à Presidência de Honduras pelo Partido Nacional, no poder há mais de uma década.

A testemunha afirmou que Fuentes pagou a Hernández naquela reunião 15 mil dólares em dinheiro da droga, em notas de US$ 20, "para ajudar na campanha". O presidente deu o dinheiro a Sánchez para trocá-lo por lempiras (moeda hondurenha) e disse que queria em dinheiro vivo.

Em uma segunda reunião, Fuentes deu ao presidente outros 10 mil dólares, acrescentou.

Ele também disse que a cada mês Hernández recebia 250 mil lempiras (cerca de 10.400 dólares nas taxas de câmbio atuais) do empresário Fuad Jarufe para sua campanha eleitoral.

Em outra reunião com Jarufe, disse ele, Hernández "se gabou de como estavam roubando fundos da previdência social e mais fundos do Estado e disse: 'Estamos roubando mais do que nos dias do (ex-presidente Rafael) Callejas e ninguém pode fazer nada'".

A testemunha disse que obteve cópias de vídeos desse encontro e do segundo, no qual o acusado negociou esteve com Hernández.

- "Minha vida estava em perigo" -

“Fugi de meu país porque minha vida estava em perigo”, depois de testemunhar os dois encontros de Hernández com Fuentes, disse a testemunha, que reside nos Estados Unidos desde 2015, possivelmente com uma nova identidade.

"Ninguém nesta sala conhece o réu como eu", disse ele.

O líder do cartel Los Cachiros, Leonel Rivera, testemunhou na segunda-feira que pagou a Hernández um suborno de 250 mil dólares em troca de proteção.

O presidente de Honduras nega todas as acusações e diz que os narcotraficantes buscam vingança.

Sánchez disse que conheceu um dos membros de Los Cachiros, Santos Isidro Rivera Maradiaga, nos Graneros Nacionales, onde vendia cabeças de gado a um preço inferior ao de mercado, porque usavam animais para esconder drogas nos caminhões.

Ele não sabia quem era e não o tratou bem porque interrompeu seu almoço.

Então, seu chefe Fuad Jurafe o chamou e disse: "Eu te apresento o Cachirín."

"Qual foi a sua reação?", perguntou o promotor. "Medo", respondeu.

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