Testemunha que denunciou 'faraó dos bitcoins' à CVM foi 'ridicularizada' por membros do grupo: 'Ligavam para confrontar'

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Uma tesmunha ouvida nas investigações sobre as atividades da GAS Consultoria, empresa do ex-garçom Glaidson Acácio dos Santos — preso desde o fim de agosto e réu, ao lado de outros 16 comparsas, por crimes contra o sistema financeiro nacional, entre outros delitos —, afirmou ao Ministério Público Federal (MPF) que recebeu "respostas evasivas ou descoladas da realidade" ao cobrar de membros do grupo chefiado pelo "faraó dos bitcoins" um detalhamento das operações diárias realizadas com os valores investidos. Após ser contatado para ingressar no esquema como cliente e desconfiar da natureza das atividades, o homem denunciou o caso à Comissão de Valores Imobiliários (CVM), responsável por fiscalizar e regular o setor no Brasil.

No depoimento anexado à denúncia contra a organização, obtida pelo EXTRA, ele conta que questionou integrantes do grupo sobre de que modo seria possível assegurar o retorno garantido de 10% ao mês independentemente do sucesso das supostas transações envolvendo criptomoedas. A resposta, segundo a testemunha, "era basicamente: confia". O investidor em potencial assegura que insistiu no tema: "Não existe confia. Qual é a operação? Eu posso ter acesso a todas as operações diárias que vocês estão fazendo, de compra e venda de ativos para que eu possa ver o quanto vocês estão fazendo num mês, num dia, numa semana?"

Além disso, o homem também pediu para ter acesso às "chaves privadas e públicas" dos bitcoins armazenados pelo grupo. Mais uma vez, ele diz ter recebido apenas negativas: "Nós não temos como te dar acesso às chaves, nós não temos como te mostrar as operações que a gente está fazendo dia após dia". A testemunha acrescentou, então: "À medida que eu provocava as perguntas do meu ponto de vista técnico, alguém de hierarquia mais alta me ligava". E arrematou: "Eles não me ligavam mais para me explicar. Eles me ligavam para me confrontar".

Em outros momentos, ainda de acordo com esse relato, pessoas ligadas à GAS debochavam dos questionamentos relativos à operação. "Diziam: você precisa estudar", lembrou o homem ao depor. A testemunha revelou ainda que, diante de toda a situação, chegou a se afastar da igreja evangélica na qual foi convidado a investir na empresa: "Me ridicularizaram perante àquela comunidade Cristã da qual eu não consegui mais fazer parte".

O homem afirmou também que, ao comunicar que faria a denúncia à CVM, pessoas ligadas à empresa passaram a fazer ligações para tentar dissuadí-lo. De acordo com ele, a justificativa apresentada era a de que "a empresa já estava há oito anos no mercado", e que não haveria como "uma pirâmide durar mais do que dois anos". Um parêntese: condenado a 150 anos de prisão e morto na cadeia, em 2021, o americano Bernie Madoff comandou uma pirâmide financeira por cerca de duas décadas, pelo menos, chegando a movimentar 85 bilhões de dólares. O esquema é considerado uma das maiores fraudes conduzidas por um único indivíduo na história mundial.

"Essa passou a ser a argumentação. Não se discutiu mais chaves públicas, privadas, não se discutia mais CVM, quais eram as entidades que estavam responsáveis por aqueles investimentos, agora a discussão passou a ser o tempo de vida daquela empresa", pontuou a testemunha no depoimento.

Em seguida, o homem discorreu sobre uma possibilidade oferecida a ele pelos consultores: a de, em vez de sacar, reinvestir os 10% obtidos a cada mês, aumentando o potencial de lucro. O modelo, contudo, era insustentável, como o próprio cliente fez questão de explicitar. "Eu mostrei um cálculo para eles", contou. "Se eu tivesse investido cem, duzentos mil, em questão de cinco ou dez anos eu teria mais que o PIB dos Estados Unidos ou PIB global por conta dos efeitos dos juros compostos".

Após reproduzir o depoimento da testemunha, a denúncia conclui: "As atividades exercidas pelos denunciados eram absolutamente clandestinas e à margem de qualquer regulamentação, razão pela qual inexistia qualquer tipo de balancete ou demonstrativo de investimentos apresentado aos investidores, os quais se contentavam com o recebimento da remuneração mensal de 10% nas datas acordadas".

Acusado de homicídio

Na última quarta-feira, Glaidson foi indiciado pela Polícia Civil como mandante do atentado contra Nilson Alves da Silva, de 44 anos, ocorrida em Cabo Frio em março de 2021. Para a 126ª DP (Cabo Frio), responsável pelas investigações sobre o caso, o ex-garçom encomendou a morte do concorrente, que também trabalhava com investimentos em criptoativos, depois que a vítima "espalhou a notícia" de que ele seria preso pela PF, aconselhando clientes a retirarem valores aportados junto à GAS Consultoria.

De acordo com a Polícia Civil, Glaidson determinou que Thiago de Paula Reis, "pessoa de sua extrema confiança", contratasse os executores do crime. A proximidade entre os dois é reforçada por uma visita feita por Thiago ao patrão na cadeia, poucos dias após a prisão. Após receber a ordem, Thiago negociou com Rodrigo Silva Moreira, Fabio Natan do Nascimento, Chingler Lopes Lima e Rafael Marques Gonçalves Gregório para que cometessem o assassinato.

Fabio e Chingler também são acusados pela morte do investidor Wesley Pessano Santarém, em agosto, na cidade vizinha de São Pedro da Aldeia, também na Região dos Lagos. O rapaz, de 19 anos, foi executado em um Porsche avaliado em R$ 440 mil. Segundo a Polícia Civil, as investigações prosseguem para identificar se Glaidson também foi o mandante do assassinato de Pessano, que se apresentava nas redes sociais como investidor de criptomoedas.

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