Testemunhas dizem que PMs andaram com adolescente de 14 anos por comunidade, afirma primo

Arthur Leal
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RIO — A família do jovem Ray Pinto Faria, de 14 anos, morador do Campinho, Zona Norte do Rio, morto na madrugada desta segunda-feira, durante uma operação da Polícia Militar na comunidade do Fubá, chegou ao Instituto-Médico Legal (IML) do Rio por volta das 11h da manhã desta terça-feira. Ainda muito emocionado, o primo do rapaz, Lucas Isaías da Silva, de 19 anos, contou sobre o momento em que descobriu que o primo havia desaparecido, segundo moradores, levado por policiais militares.

O jovem narrou que manchas de sangue foram encontradas numa parede, na comunidade do Fubá, onde supostamente ele teria sido morto antes de ser levado por PMs para outra favela. O celular que estava com Ray também desapareceu.

— Às 4h40 da manhã acontecia uma operação na comunidade, e no início da operação, eu estava acabando de voltar de um pagode. Eles me renderam sem mais nem menos, sem me perguntar se eu era (bandido), se não era, me deram tapas na cabeça e me botaram para casa. Às 6h, recebi mensagens no celular me dizendo que os policiais teriam encontrado o Ray na porta de casa e estariam andando com ele pela comunidade, a pé — disse.

O rapaz conta que, questionados, os PMs negaram ter visto o menino pela comunidade.

— Eu saí de casa e encontrei com a minha prima, Alessandra, mãe do Ray. Ela ja estava à procura do Ray e os policiais diziam que não sabiam, e que não tinham visto nenhuma criança. Então, logo, nós fomos de ponta a ponta da comunidade, em busca do Ray, mas nós não conseguimos achá-lo. Eles (PMs) mandaram irmos à 28 DP, 29 DP e caçarmos em hospitais, que eles não tinham pego ninguém.

Foi quando, ele conta, a família encontrou o menino, já morto, no Hospital Salgado Filho, no Méier.

— Logo depois encontramos o Ray morto com dois tiros, um no abdomen e outro na perna, no Hospital Salgado Filho. E foi aí que o médico falou que ele deu entrada com mais dois bandidos do Morro do Dezoito. Ele entrou como se fosse um bandido, como se tivesse trocado tiros. Ele, uma criança, de 14 anos. Ele estava sentado no portão e foi pego pelos policiais. Até agora eles negam e alegam que nenhuma criança morreu na comunidade do Campinho — contou.

Família clama por justiça

Questionado sobre o desejo da família a partir de agora, Lucas desabafou:

— Nós só queremos justiça, porque uma criança que tinha uma vida toda pela frente teve a vida perdida. Sonhos que ele tinha foram perdidos. Hoje, a minha prima chora, minha família chora. E hoje é a minha família, mas amanhã, podem ser outras. Vão continuar crianças morrendo? Eles matando sem mais nem menos e nossa justiça não será feita? — lamentou.

Lucas também negou que o rapaz tivesse qualquer envolvimento com a milícia, que disputa território na região.

— Estão falando que o Ray era cobrador de imposto. Não era. Uma criança feliz, alegre, um morador. Não era miliciano, é mais um morador que a PM matou — disse.

Outra questão levantada pela família e por moradores foi em relação às câmeras de segurança de uma padaria, que poderiam ter flagrado, tanto a abordagem ao jovem pela comunidade, quanto uma suposta ação de truculência de agentes durante a manifestação feita pela comunidade após a morte do rapaz, quando 29 pessoas foram detidas, na tarde desta segunda-feira.

— A câmera de segurança eles (PMs) modificaram, levaram todo equipamento de segurança da padaria, e inclusive, ameaçaram as pessoas, mas não deixaram nenhum rastro. Somente os cabos ficaram — contou.

Questionada, a PM afirmou apenas que todas as circunstâncias das ações estão sendo apuradas internamente pelo Comando de Operações Especiais (COE) e pelo 1° Comando de Policiamento de Área (CPA). E que todas as ocorrências foram apresentadas nas 24ª DP, 25ª DP e Delegacia de Homicídios da Capital. Na ação, a Polícia Militar reconhece que morreram três suspeitos, sendo um menor de idade, mas não confirma oficialmente que tratava-se de Ray.

A Polícia Civil, por sua vez, disse que as investigações sobre a morte de Ray já estão em andamento pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC). Familiares da vítima e os policiais militares envolvidos na operação prestaram depoimento na Especializada. De acordo com os investigadores, diligências estão sendo realizadas para identificar outras testemunhas que ajudem a esclarecer o homicídio. As armas dos policiais militares que participaram da ação foram apreendidas e passarão por perícia.

O corpo de Ray, por enquanto, segue no Instituto Médico Legal (IML), onde passa por exames. A família encontra-se no local, aguardando a liberação.

Sonho interrompido e uniforme escolar que nunca será usado

Ray, segundo os parentes, estudava na Escola Municipal Edgard Romero, onde estava no 4⁰ ano do Ensino Fundamental. Agora, parentes lamentam o kit escolar, recebido há poucos dias, que nunca será usado por ele.

— Era uma criança cheia de sonhos. A mãe dele tinha acabado de buscar o kit escolar dele, que está em casa. E agora, quem irá usar esse kit escolar?

Ele, mais uma vez, desabafa:

— Nosso sentimento é de revolta. Como foi com outras crianças pretas, faveladas, negras, hoje foi com o Ray. Mas espero que seja a última criança morta pela Polícia Militar.