Ciente das dificuldades do Sport, atacante Thays convive entre a quadra e o campo pelo amor ao futebol

(Foto: Arquivo pessoal)

Por Eryck Gomes

A conversa começou às 15h25 da quinta-feira, dia 8 de agosto. Thayslane, 21 anos, estava em Maceió para a disputa de uma competição de futsal pela universidade onde é bolsista. Quatro dias antes fizera o último jogo do Campeonato Brasileiro Feminino, no campo, pelo Sport. A partida contra o Iranduba-AM terminou em 3 a 1 para as rubro-negras. Thays, como costuma ser chamada, marcou dois gols. Foram os únicos três pontos conquistados pelo Leão. “Desde o começo, quando foi feita a equipe, nós já sabíamos das dificuldades. O nosso objetivo, a princípio, era não ser rebaixado, para no ano seguinte haver melhorias. Mas foi tudo em cima da hora, poucos treinamentos, e isso dificultou muito”, lamentou a atacante.

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Ao todo, 16 equipes compuseram o Campeonato Brasileiro Feminino. O Sport foi o último colocado, somando três pontos. A campanha consistiu em 14 derrotas e uma única vitória. As Leoas balançaram as redes adversárias seis vezes e foram vazadas em 56 oportunidades. Em 2020, disputarão o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino A2, segunda e última divisão da modalidade.

- Não tivemos competições antes do Campeonato Brasileiro. Os treinos começaram em janeiro, ainda com a equipe profissional. Mas aí cancelaram tudo e foi todo mundo embora. O time foi refeito uma semana antes da competição começar - explicou Thays.

Em meio a toda repercussão, aproveitou para corrigir uma informação que vem sendo divulgada sobre a colega de time, Janaína. Chegou-se a dizer que a goleira na verdade seria zagueira, atuando de forma improvisada.

- No tempo de escola, ela jogou como zagueira por opção do técnico, mas sempre foi goleira. Ela até já comentou em algumas publicações que não era zagueira, mas mesmo a assim continuaram colocando.

Por conta de graves problemas financeiros, a diretoria do Sport, no início deste ano, encerrou as atividades do futebol feminino. Para não correr o risco de sofrer qualquer punição por parte da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), formou uma equipe às pressas, em parceria com o Ipojuca, time da capital pernambucana e de onde viera Thays. As 25 meninas do elenco não têm contrato profissional e recebem uma ajuda de custo na faixa dos R$400 - algumas um pouco mais, dependendo da condição social. O investimento que vinha sendo feito pelo clube desde 2017 rendeu em 2018 um sexto lugar no Campeonato Brasileiro e os títulos do Pernambucano e da Taça Nordeste.

- Muito diferente (a equipe feminina do Sport deste ano com relação a 2018). Todas as meninas eram profissionais, com só o futebol como objetivo. Tanto que hoje treinamos só um período, na parte da manhã, e no ano passado eram dois, junto com academia e toda a preparação. Tínhamos o CT liberado, mas por conta da logística ficamos na Ilha (do Retiro). Até o início do ano estava sendo no CT, mas muita gente trabalha e ir para lá seria mais dificultoso (fica a 25,2 km do estádio, seguindo o trajeto mais curto). O horário de chegada lá, a volta…

De acordo com a jogadora, o clube desde o início foi bem claro quanto ao que seria disponibilizado em estrutura para o grupo.

- Você só pode dar algo que tem. O clube está se esforçando. Estamos tendo suporte, dentro das limitações. Fazem o que pode, o que foi prometido desde o começo. Logo quando nos chamaram, foi tudo bem claro quanto ao que iriam nos oferecer, e como seria.

Thayslane Gomes Ferreira cursa fisioterapia no turno da noite. Treina pela manhã no Sport e, assim que sai do clube, vai para o futsal, na universidade. O trajeto entre os pontos é feito numa bicicleta própria. Natural de Afogados da Ingazeira, cidade pernambucana a 370 km do Recife, Thays tem, nas quadras, calendário de jogos até dezembro. Nos gramados, só resta a disputa do estadual (com fim estipulado para o dia 08 de setembro, caso cheguem à final). “Esse ano não vai ter a Copa Nordeste. Terminou o Pernambucano, já estamos liberadas.”

E as expectativas do grupo são boas.

- Estamos fazendo bons jogos, as equipes têm níveis semelhantes. Estamos no ritmo desde o Campeonato Brasileiro, treinando com mais recursos que alguns times. Esperamos conseguir sair como campeãs.

Aos 14 anos, Thays foi convocada para a Seleção Pernambucana Sub-15 de Futsal, para jogar a Taça Brasil. Saiu do interior e ficou por Recife por conta dos campeonatos. Ganhou bolsa numa universidade e continuou competindo nas quadras. Começou a jogar futebol de campo há pouco tempo, só em 2018, pelo Ipojuca. Hoje, costuma acordar por volta das 6h. Os treinos no Sport começam às 8h30. Larga e parte para o treino seguinte, no futsal, que vai das 11h até cerca de 12h30/13h. Os trajetos são curtos, durando entre 10 e 15 minutos. “Ajuda na forma física”, acrescenta, referindo-se ao uso constante da bicicleta para se locomover.

Embora seja uma rotina visivelmente desgastante, Thays se nega a usar tal adjetivo.

- O amor pelo futebol é algo que acho que já nasce com você, desde pequena, quando se tem um sonho. Aí vamos tentando melhorar todo o dia. Para mim é muito gratificante. Eu não acho que é esforço sair, acordar cedo. É prazer. É por amor. Não vejo como desgastante, é algo que amo. É o que mais gosto de fazer e não troco por nada.

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