Thomas Ender, o paisagista que apresentou o Brasil à Imperatriz Leopoldina

O pintor austríaco Thomas Ender desembarcou no Rio em julho de 1817. Tinha 23 anos e fora contratado pelo imperador Francisco I, da Áustria, para retratar a terra onde viveria sua filha Leopoldina. A arquiduquesa, futura imperatriz do Brasil, chegaria dali a quatro meses para finalmente unir-se ao então príncipe D. Pedro, com quem já havia se casado em Viena, por procuração.

Como costuma acontecer no primeiro contato dos europeus com os trópicos, Ender ficou estupefato ao chegar ao Rio, “onde se abriu todo um mundo novo”, segundo ele mesmo.

Com talento especial para o paisagismo, o artista de origem muito humilde, filho de um comerciante de velharias e órfão de mãe, destacou-se ainda criança nos círculos artísticos vienenses, cursando Belas Artes graças a bolsas de estudo (e defendendo sua grana como músico, sendo considerado excelente violinista).

No Rio, e em uma curta viagem a São Paulo, Ender cumpriu a tarefa com dedicação. Quando voltou para Viena, apenas 11 meses depois da chegada, ele havia preparado sete óleos, 989 aquarelas e desenhos e 24 gravuras. Era um volume colossal de imagens — e olha que ele tinha ficado quatro meses doente, justamente por trabalhar demais sob o calor carioca. Quase morreu.

Minúcias

O recém-lançado “Ender e o Brasil”, de Julio Bandeira, traz todo este material e a história detalhada sobre essa obra tão peculiar, mesmo no contexto dos chamados artistas viajantes, como Debret (1768-1848) e Rugendas (1802-1858), que fizeram seu nome desbravando a paisagem natural e cultural do novo continente no século XIX.

“Ender e o Brasil” contém seis quilos de registros históricos raros, equiparáveis, em quantidade, aos feitos por Debret — o francês que ficou 15 anos circulando Brasil adentro, ou seja, muito mais tempo que o austríaco, e produziu cerca de 1.800 trabalhos.

— As aquarelas de Ender têm uma luz muito bonita, que resplandece, conseguindo capturar minúcias que escaparam a outros pintores da época — diz Bandeira, historiador da arte e também responsável pela organização da obra completa de Debret no Brasil. — Ender queria os detalhes, era extremamente realista, não inventava nada, enquanto Rugendas era um romântico, que trabalhava com a paixão e reinventava o que via. E Debret tinha a formação neoclássica, suas figuras parecem estátuas, sendo quase desproporcionais.

O foco principal de Ender era a paisagem, com especial atenção ao entorno da Baía de Guanabara, e a arquitetura. Os personagens eram elementos secundários. Mas quase como um “fotojornalista social” da época, fez questão de registrar a grande população de escravizados com quem cruzava pelas ruas.

Em seu ensaio, Bandeira comenta que os registros de Ender nos permitem “uma arqueologia visual da paisagem, para reencontrar a cidade que lentamente sumiu na poeira dos aterros e desmontes”.

Além da própria beleza do trabalho de Ender, o mérito do livro é reunir a obra de um artista quase desconhecido por aqui, sobretudo quando comparado aos outros dos seus contemporâneos.

— Como Debret e Rugendas publicaram seus livros ainda em vida, eles se tornaram muito conhecidos. Com Ender, foi diferente. Ele foi esquecido porque não publicou nada naquela época — explica Bandeira.

Mesmo que a obra do austríaco tenha acabado escondida, o artista manteve seu trabalho e foi reconhecido em sua época.

— Quando chegou ao Brasil, Ender era um rapaz extremamente talentoso que já havia recebido prêmios. Na volta para a Áustria, se torna um dos pintores-fotógrafos mais importantes de sua época. Depois de retratar o Brasil, a natureza, os povos, monumentos, a arquitetura, ele faz uma série de outras viagens para países como Rússia, Hungria e Polônia, e produz muito mais material paisagístico. — reforça Sheila Hue, professora da Uerj — É uma obra encantadora.