Tia Má desabafa sobre militância nos bastidores da Globo: "É uma angústia"

Tia Má interpreta Carol em
Tia Má interpreta Carol em "Rensga Hits" (Foto: Gleik Suelbe/Globo)

O elenco de "Rensga Hits", nova série do Globoplay, está muito feliz com a repercussão do trabalho. Nos próximos dias, inclusive, a equipe vai comemorar o resultado da primeira temporada com uma festa no Rio de Janeiro. Tia Má, intérprete de Carol, já pode "respirar aliviada". Antes da estreia, ela revelou à imprensa que o fato de ser uma mulher preta consciente fez com que o processo de gravação e espera para o lançamento do seriado fosse mais angustiante que o esperado.

"Fiz terapia antes da estreia e a minha psicóloga perguntou se eu estava feliz. A minha resposta foi 'antes de estar feliz, estou preocupada'. Porque as pessoas cobram da gente muito mais. Se tiver qualquer deslize na série vão cobrar muito mais de mim do que vão cobrar de Rafa (Kalimann), Alice (Wegmann), Deborah (Secco). É muito bom falar disso abertamente porque elas sabem disso", afirma a artista.

Tia Má é um nome forte nas redes sociais. Os textos sensíveis e certeiros, sobretudo envolvendo as questões raciais, já são até esperados pelo público e têm um grande alcance. Ser uma referência para tantas mulheres pretas, no entanto, aumenta a sua responsabilidade.

"Acho que nunca vou conseguir ser uma boa atriz por completo porque a militância vai estar sempre presente. Tenho que falar 'acho que isso não está bom', 'acho que isso não está legal'. Enquanto isso, qualquer outra atriz só chega lá com o texto na ponta da língua. E eu pensando 'acho que essa dança reforça a hipersexualização da mulher negra, se eu falar isso pode soar ofensivo'. É uma angústia ser mulher preta consciente em qualquer trabalho. Isso tem um peso e é cruel porque tira a leveza, o sorriso da cara", desabafa.

Posicionamento por trás das câmeras

Mesmo sabendo que não teria controle sobre tudo em "Rensga Hits", Tia Má conta que ficou apreensiva e fez o possível para aliviar suas dores e as dores que outras mulheres poderiam sentir assistindo ao seriado. Ela lembra de ter pedido, por exemplo, para refazer uma cena com Alice Wegmann após concluir que uma de suas falas era problemática.

"A cena é uma bobagem. A Carol está falando com a Raíssa (Alice Wegmann) e eu falo 'oh, nega'. Aí pedi para fazer de novo porque não posso chamar Raíssa, uma mulher branca, de negra. Isso poderia ter outra conotação", diz ela, que também sentiu o peso quando sua personagem defendeu Raíssa em uma treta com Tamires, interpretada por Jeniffer Dias.

"O correto seria a Carol defender Raissa, mas se ela fosse outra mulher, tivesse outra cara... Porque a Carol se sente representada pela Tamires, se enxerga na Tamires. Tive que levar muito dos meus estudos, da minha consciência, para o set. Isso é um peso muito grande. Tira a minha tranquilidade", completa.

Feliz com os episódios que já estão no ar - os próximos chegam na plataforma na quinta-feira (11) - Tia Má diz que o trabalho só foi possível pela união e consciência do elenco. "Ainda bem que a gente teve a sorte de ter um elenco muito legal. Todo mundo é muito amigo, cúmplice, consciente. As mulheres brancas daqui têm consciência dos seus privilégios e sabiam que tinham que colocar seus privilégios a favor da coletividade. Isso é uma obrigação, mas nem todas reconhecem que têm", destaca.