Tico Santa Cruz fala de posicionamento, drogas e sexualidade: 'Se um dia desejar viver outra experiência, não teria problema'

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Vocalista do Detonautas Roque Clube, Tico Santa Cruz não hesita em colocar o dedo na ferida quando acha necessário. Neste mês, a banda lançou a música “Roqueiro reaça”, inspirada, segundo o artista, por uma troca de farpas entre o guitarrista Digão, do Raimundos, e Pe Lu, ex-Restart, relacionada a posicionamentos políticos, na qual Tico também se envolveu. A canção faz parte do projeto de lançar singles com crônicas sobre o Brasil atual, com títulos como “Micheque” e “Kit gay”. Aqui nesta entrevista, o cantor fala sobre o trabalho e também de temas como investimento em maconha no exterior; “sexualidade fluida”, expressão postada por ele e que ganhou muita repercussão recentemente; posicionamento artístico; e polêmicas na web. Ele conta, por exemplo, que ainda não perdeu nenhum processo na Justiça por conflitos que travou nas redes sociais: “Tô invicto”.

Como o projeto de vocês de lançar músicas sobre temas sociais e políticos como crônicas foi desenhado?

A partir de agosto de 2020, com “Carta ao futuro”. Eu a compus, não tinha ninguém para mostrar no dia, postei no Facebook. Teve muita repercussão. Entendi que tinha uma demanda de músicas que abordassem esses temas e que este espaço estava vazio dentro do rock. Ela nos tirou da média de lançamentos, que era de 50 ou 60 mil, e bateu 600 mil reproduções no YouTube logo de cara. “Roqueiro reaça” foi meio de sopetão. Já tinha tentado fazer algo neste sentido e nunca tinha conseguido. Mas aí rolou uma treta entre personagens do rock, e ela acabou vindo inspirada nesse momento.

Então tem a ver com esse conflito?

Este tema já circulava no nosso universo, por conta de outros artistas que não estão nesta polêmica em si, mas que sustentaram posturas bastante autoritárias, como o Roger (Ultraje a Rigor) e o Lobão, que se arrependeu. Já falávamos que eles eram roqueiros reaças.

Quando a cobrança por um posicionamento de um artista é válida?

É curioso, eu me posiciono desde o início da minha carreira. Isso incomodava as pessoas. Hoje, há o movimento inverso. Quem tá consumindo quer saber o que você pensa sobre temas que ela considera importante. Acontece com marcas e empresas também. Artistas vão precisar sair da blindagem e do conforto em que viveram por muito tempo e fazer um pequeno estudo para falar de gênero, raça e outras coisas básicas. Gostaria muito de reunir grandes artistas de vários estilos e ouvir cada um sobre alguns tópicos. Não acho que o artista é obrigado a se posicionar. Mas, se for falar, tem que ter minimamente um embasamento.

Você comentou o caso do vídeo da Juliana Paes, que teve muita repercussão. A Anitta já foi muito cobrada para ter um posicionamento também, em 2018, em especial. Como classifica esses casos?

Em relação à Juliana, não quis fazer uma crítica. Quis pontuar aspectos que não condiziam com a realidade. Não para atacar. A Anitta é um ótimo exemplo de alguém que tem uma voz pública gigantesca e que foi estudar, procurou pessoas publicamente. Hoje acho que ela tem uma representatividade não só na música, mas sobre temas importantes. É o que um artista do tamanho dela tem que fazer.

Há quem diga que você briga na internet. Você concorda? Quando vale a pena comprar uma briga?

Brigar é ir para um campo que não é o do diálogo. Tenho minhas posições embasadas. Diferentemente de quando me agridem. Já fui mais reativo. Hoje, não me considero mais, a não ser que seja uma fake news relevante e que possa me prejudicar. Procuro o diálogo. Agora, se for briga mesmo, aí vai para a Justiça. Já tive que processar um monte de gente que me caluniou. Quem tiver certo ganha. Eu ganhei todas. Tô invicto.

Você fez um post recentemente sobre sexualidade fluida. Como foi isso?

Começou com uma fake news. Milícias digitais disseram que eu teria assumido ter gênero fluido, tinha uma personagem e era andrógino. Começou a repercutir, e falei para não se preocuparem, porque sou muito bem resolvido com questões de sexualidade. Não me atinge. Fiz stories dizendo isso. Para mim, sexualidade fluida era o oposto de reprimida. Então uma amiga, Helena Vieira, que é trans, me perguntou se eu sabia o que era. Ela disse que quem assume isso está dizendo que hoje é hétero, mas depois pode ser homossexual ou bissexual. Sendo isso, assumo sem problemas. Se algum dia me separasse (ele é casado com Luciana Rocha desde 2015, mas os dois estão juntos há mais de 20 anos e são pais de Lucas, de 19, e Bárbara, de 12) e quisesse viver outra experiência, tivesse esse desejo, não teria problema.

Você disse que investe em maconha fora do país. Como decidiu fazer isso?

Nos EUA, há um avanço muito grande neste debate. Com o Biden e o Congresso americano sendo majoritariamente democrata, há uma tendência forte de ela (maconha) ser legalizada integralmente. Existe um fundo que investe em empresas que trabalham pelo mundo com canabis. Como tenho absoluta certeza de que em um futuro breve esse debate vai avançar, acho um bom investimento. Seria mais legal investir em uma empresa brasileira, mas o Brasil é atrasado e não entendeu que financeiramente pode ser positivo.

Você pretende se candidatar a algum cargo político?

Em 2018, recebi vários convites. Mas entendi que não tenho nem habilidade nem maturidade e que nem é o momento. Minha vida artística é prioridade total. Não vou me envolver em um cargo que demanda atenção exclusiva. Não vejo essa perspectiva para os próximos dez anos. Se em algum momento da minha história, eu achar que posso colaborar de forma integral, aí preciso pensar. Capacidade eu sei que tenho.

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