Tim Bernardes, o indie que conquistou a MPB: 'Me sinto meio como um outsider’

O pai, o cantor e compositor Maurício Pereira (que saiu em carreira solo depois do fim da dupla Os Mulheres Negras), é quem conta: Tim Bernardes nasceu em 18 de junho de 1991 (um dia depois do show de despedida dos Mulheres), partilhando, portanto, o aniversário com Paul McCartney e Maria Bethânia (“o que explica muita coisa”, acredita ele). E a primeira palavra que o menino falou não foi “papai” ou “mamãe”. Foi “muca” (“música”).

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— Eu tive que ensinar o Martim a usar o CD player muito cedo, porque ele tentava enfiar bolacha [LP de vinil] no aparelho — recorda o pai, que vê com muita satisfação o filho de 30 anos não só ter suas músicas gravadas por Bethânia e Gal Costa, e fazer parcerias com Jards Macalé e Erasmo Carlos, mas lançar o seu segundo álbum solo, “Mil coisas invisíveis” (que chega hoje ao streaming).

Em abril, quando Bethânia fez o show “Fevereiros” em São Paulo, Tim foi ao camarim da cantora. E se emocionou quando ela perguntou se estava cantando direitinho o “Prudência” (música dele, gravada por ela no álbum “Noturno”, do ano passado).

— O Tim é uma coisa, né? Caetano [Veloso] falou: “Tim? Quando ouvi ‘Prudência’, sem saber, achei que fosse uma dessas canções lindas do cancioneiro nacional que você escolhe.” Adoro o Tim Bernardes — elogiou Bethânia ao GLOBO na entrevista de “Noturno”.

Gal, que gravou “Realmente lindo” (no disco “A pele do futuro”, de 2018), também não poupa elogios:

— Tim Bernardes é um dos compositores que mais me empolgam nessa geração.

Unidos por Jamelão

Já Jards Macalé lembra de ter encontrado Tim em São Paulo e de, no papo, os dois terem descoberto que tinham o mesmo disco de cabeceira: o de Jamelão interpretando as canções de Lupicínio Rodrigues com a Orquestra Tabajara.

— Propus ao Tim que compuséssemos uma canção lupicínica. Ele disse que tinha uma letra com esse clima, mas que não tinha gostado da música que tinha feito para ela, e perguntou se poderíamos fazê-la juntos. Fiz a primeira parte e a segunda fizemos juntos (mais ele do que eu). Nasceu uma linda canção! — conta Macalé sobre a gênese de “Buraco da Consolação”, que virou faixa de seu álbum “Besta fera” (2019).

Tim Bernardes conta que Jamelão e Lupicínio eram um tipo de música de que sempre gostou, por tudo que ouviu em casa, apesar de ter vindo do indie contemporâneo e do rock’n’roll.

— Eu me sinto meio como um outsider que está com um pé nas duas coisas, segui de alguma forma a filosofia tropicalista. Tem gente que fez esse caminho, como a Rita Lee, Tim Maia, Jorge Ben, Roberto e Erasmo e Raul Seixas, que vieram do rock e chegaram à MPB. Eu entro por essa porta, mas de um jeito indie — explica ele, que há poucos meses pegou uma melodia inédita de Erasmo Carlos e, numa parceria à distância, fez “Praga”, gravada por Alaíde Costa. — Escrevi uma letra muito direta ao ponto, dramática de cabaré, quase tarantinesca, e a música, que era meio iê-iê-iê, virou um samba-canção.

Diferentemente de seus dois álbuns anteriores (o solo “Recomeçar”, de 2017, e o com o grupo O Terno, “ ”, de 2019), Tim Bernardes acredita ter conseguido fazer, com “Mil coisas invisíveis” bem mais “um disco de música popular do que uma tese”.

— Quando comecei a juntar as canções que tinha em 2020, reparei nelas um elemento meio misterioso, para além do conhecido, um clima mais astral. E eu quis ressaltar isso no título do álbum de uma maneira mais ou menos coloquial — recorda-se ele, que tirou o “Mil coisas diferentes” de um dos versos de “Meus 26 anos”, uma das canções do disco nascidas quase que em fluxo de consciência. — Tinha um tempo que eu estava tentando capturar no ar essa canção-metralhadora e que eu queria usar num formato de cena, com diálogo. Escrevi no fluxo, depois dei umas arredondadas, vendo como eu cantava aquele monte de palavras.

Nesse álbum de 15 canções (que sai em vinil duplo e que ele lança com shows no Brasil depois de voltar dos EUA, onde dia 23 começa uma turnê com o grupo de indie-folk Fleet Foxes), Tim Bernardes ainda esbarrou num tipo de canção bem popular: “Velha amiga” é assumidamente um tributo à obra de Roberto e Erasmo Carlos.

— A letra de “Detalhes” me impactou muito quando conheci, na adolescência. Roberto e o Erasmo têm essa filosofia que quero seguir como letrista: as músicas têm muita profundidade, são diretas ao ponto — analisa Tim. — Mesmo quando eu estou sendo muito existencial no disco, tenho essa intenção que eles têm de mirar no coração da pessoa.

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