‘Me tira daqui, eu vou morrer, eles não sabem o que eles fazem’, escreveu paciente da Prevent Senior dias antes de morrer

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SÃO PAULO — Era 14 de março de 2021 quando Fabio Seinas, já com dificuldade de respirar e a dias de ser intubado, procurou sua esposa para, desesperado, alertar sobre a negligência que vinha sofrendo em seu tratamento contra a Covid-19 na unidade Brigadeiro da rede Prevent Senior. “Me tira daqui, eu vou morrer, eles não sabem o que eles fazem”, disse o empresário e educador físico de apenas 51 anos, que morreu duas semanas depois.

O caso foi relatado por Andrea Rotta, viúva de Fabio , à CPI da Câmara Municipal de São Paulo nesta quinta-feira, em um dos depoimentos mais marcantes da comissão até agora. A pedagoga contou em detalhes o descaso que sofreu no hospital da rede, desde as primeiras consultas até os últimos dias, quando viu o marido deitado em lençóis sujos de sangue, com o rosto inchado e machucados pelo rosto e pescoço. Todo o processo foi muito sofrido: era preciso exigir medicamentos, exames e informações, disse ela.

— Os médicos falavam como se eu soubesse todos aqueles nomes que não me saem da memória. Friamente e rapidamente davam a informação e diziam para seguir tendo fé, mas que o estado dele era muito grave — disse Andrea.

Cardiopata, com três stents no coração, pressão alta e síndrome do pânico, Fabio chegou a escrever uma mensagem de texto para a médica responsável pedindo para que os remédios controlados fossem dados. Aquilo o angustiava.

— Encontrei ele jogado à própria sorte, largado num quarto, pálido, com a saturação baixa, eu mal podia escutar sua voz — disse Andrea.

Os problemas com a operadora de saúde não pararam por aí. Segundo Andrea, o hospital havia receitado a seu marido o kit covid, mesmo sabendo que é ineficaz e possui medicamentos contraindicados para cardiopatas, que era o caso de Fabio. Neste momento, ele já tinha 25% do pulmão comprometido. Assim como outros depoentes, ela contou que levou o marido para os hospitais da rede em diversas oportunidades, mas sempre era mandada de volta para a casa. Só conseguiu a internação após insistir. Mas tudo foi muito rápido. No último dia de vida, o marido tinha sacos de gelo espalhados pelo corpo. Era uma tentativa de diminuir a febre, que já não reagia às medicações.

Andrea foi uma das familiares de vítimas da Covid-19 ouvidas pela CPI nesta quinta. O relato trazido por ela traz semelhanças ao de outros depoentes, como Tercio Felippe Mucedolia Bamonte, que disse que a rede se recusou a receber seu pai em três oportunidades, mesmo com sintomas graves.

— Qual a sensação que eu tenho? Que a Prevent tirou de nós a possibilidade de tratamento, a possibilidade de cura quando, ciente de que ele tinha Covid-19, o mandou para casa — afirmou Bamonte.

Outra fala feita aos vereadores foi de Tomás Monje, que perdeu a avó de 94 anos. Assim como outros pacientes, ela recebeu a prescrição de remédios do kit covid e foi encaminhada para o tratamento paliativo 36 horas depois de ter recebido alta do hospital da Prevent. No atestado de óbito, porém, não há menção ao coronavírus, apenas “síndrome respiratória aguda”.

A insistência para cuidados paliativos apareceu também no depoimento de Gilberto Nascimento.

— Fica evidente que era um modus operandi, era uma maneira de atuar, havia uma prática, uma sistemática e todos os relatos são praticamente iguais — disse o jornalista, que perdeu a mãe para a Covid-19.

De acordo com ele, houve falsificação no prontuário médico de sua mãe, visto que a família não autorizou a adoção de cuidados paliativos, mas uma médica ainda assim prescreveu o tratamento atestando a anuência dos entes.

Em nota, a Prevent Senior negou as acusações. “A Prevent Senior lamenta a dor sofrida pelas perdas. Reafirma que jamais tratou seus pacientes adotando procedimentos com o objetivo de reduzir custos ou liberar leitos. Trata-se de uma narrativa mentirosa, equivocada, com o objetivo de atingir a imagem da empresa. A Prevent continuará prestando atendimento de qualidade aos mais de 550 mil beneficiários e buscará na Justiça a retratação de todos os que buscam desacreditá-la”, diz o texto.

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