Tire os preconceitos da cabeça: não procure em todo indígena uma Iracema

Alice Pataxó
·3 minuto de leitura
(CARL DE SOUZA/AFP via Getty Images)
(CARL DE SOUZA/AFP via Getty Images)

O que é ser indígena? Como se fosse fácil responder essa pergunta no Brasil. Vamos lá: hoje existem cerca de 305 etnias e pouco mais que 270 línguas indígenas no país. Em muitas oportunidades, o que temos são povos, etnias, línguas, enfim, características completamente diferentes umas das outras. Não existe um padrão. Indígenas não são todos iguais, não existe um padrão que te diga: esse é, esse não.

Mas essa é a história que o homem branco conta. Como contou desde o começo Pero Vaz de Caminha. O primeiro passo de um imaginário estereotipado que se criou e continua até hoje, 521 anos depois, na mesma terra. Dizia, a carta enviada à Portugal logo após terem encontrado o Brasil enquanto procuravam a Índia.

“Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram.”

Essa é a carta de um invasor. Invasor que estereotipou povo indígenas de maneira completamente menor do que é a realidade. Povos indígenas compreendem uma grande diversidade de rostos, culturas, vestes e línguas. O colonizador nos vestiu com um único rosto em sua história, e fez disso arma do nosso apagamento étnico, onde quem não se encaixa não pertence a um povo, como se a miscigenação e a obrigação de falar português nos tirasse a ancestralidade. Não tira.

Somos muitas cores e olhares, mas a luta ainda é uma só, pelo direito ao Território Ancestral, direito à dignidade, respeito e também o direito de ser quem somos da maneira que somos e não da maneira que o homem branco espera que sejamos.

Não existe uma medição de "mais ou menos" indígena que possa ser medida pelo uso de qualquer tecnologia de nossos tempos, pelo uso de português como língua para se fazer comunicar, como também não somos definidos assim por nossa sexualidade ou gênero. Nosso direito de existir, ir e vir que está garantido na Constituição Federal de 1988 e é exercido por nosso povo em nosso ato de sermos cidadãos.

Usufruindo de todos os direitos que nos são garantidos e, mesmo assim, continuar sendo quem somos como indivíduos de uma sociedade indígena. O plano de aculturação do Brasil não deu certo, ainda pertencemos a nossos povos e territórios, o português como primeira ou segunda língua não nos torna mais ou menos indígena. E não precisamos mostrar nada para provar nada a ninguém.

Antes mesmo da invasão ao nosso território em 1500 já existiam diversidades em nossas sociedades, e ainda assim hoje é necessário muita luta e empoderamento em enfrentar uma sociedade preconceituosa e vestida de falsas histórias sobre nossos povos para nos afirmar indígenas.

O Brasil ainda é marcado pelo preconceito aos povos que o ergueram, pelo apagamento e negação de sua história. O Brasil apaga, padroniza, sexualiza e vende nossos corpos, deixando assim um rastro de genocídio que não acabou com independência de Portugal.

E se engana quem acredita no que contou Pero Vaz de Caminha ou José de Alencar. Não somos obrigados a sermos vermelhos ou a ter o cabelo liso e o olho pequeno. Esse nunca foi e nunca será o critério para ser Indígena. Não procure Iracema em nossas faces.