Tiro para o alto? Três anos depois, palavra "impeachment" volta a assombrar o governo

Deputado e pastor Marco Feliciano quer o impeachment de Mourão

Foi Olavo de Carvalho quem assoprou no ouvido e disse: vai lá, pede o impeachment do general Mourão.

E assim, como quem ouve a voz da (má?) consciência, o deputado Marco Feliciano (Pode-SP), vice-líder do governo no Congresso, pediu formalmente a saída do vice-presidente da República por “deslealdade”.

O pedido foi protocolado na Câmara dos Deputados exatos três anos após o impeachment de Dilma Rousseff, um vórtice que parece ter engolido tudo o que havia de bom e ruim em Brasília, de golpistas a golpeados, e fez cair no baixo clero a faixa presidencial.

Bolsonaro assumiu prometendo combater o comunismo, o coitadismo, o petismo e outros ismos, mas não encontrou na esquerda sinal de reação.

Como diria um diretor de cinema arrependido do próprio herói, o inimigo agora é outro.

O diabo, ao que parece, veste farda.

Desde a posse, Mourão se tornou uma espécie de fiador do bom senso em um governo ancorado num tripé formado por militares, religiosos e olavistas – esta última maldosamente chamada de ala psiquiátrica da administração.

Pois uma hora essas turmas iriam se estranhar.

E não apenas nos bastidores. Nas palavras de Olavo de Carvalho, Mourão é um idiota com “mentalidade golpista” e Bolsonaro está cercado de traidores.

Para Steve Bannon, ex-estrategista-chefe de Donald Trump e articulador de uma onda de líderes de direita pelo mundo, Brasil inclusive, Mourão se tornou uma voz dissidente e isso é perigoso.

O pecado de Mourão foi ter se encontrado com João Doria, em São Paulo, durante uma viagem do presidente, além de ter manifestado opiniões divergentes do chefe sobre aborto, a eficácia da posse de armas no combate à criminalidade, o lado do nazismo no espectro ideológico, a mudança da embaixada brasileira para Jerusalém e a importância de uma parceria comercial estratégica com os árabes e chineses, com quem já se reuniu.

Segundo revelou a jornalista Mônica Bergamo em sua coluna na Folha de S.Paulo, foi durante um encontro nos EUA que Feliciano ouviu do guru bolsonarista: “faça o que for possível para blindar o presidente. Ele não está conseguindo governar”.

Dito e feito. Para o deputado, o pedido de impeachment de Mourão não é um tiro para matar, mas um tiro para o alto.

Não se sabe qual a opinião do presidente, que já manifestou seu apreço a Olavo de Carvalho, sobre a iniciativa.

Mas a alegoria sobre tiros em um momento de escalada paranoica de um governo que não deslancha pode ser tudo, menos uma brincadeira entre adultos.

Antes de questionar se é para levar a sério ou se é para rir, é bom recordar o que era piada e o que era surrealismo antes de se tornar realidade no Brasil atual.

Vale lembrar que tudo isso acontece no momento em que o Congresso imprime derrotas e irrita o governo, enquanto militantes bolsonaristas praticamente querem passar o trator no prédio do STF.

Para esfumaçar ainda mais o clima, uma portaria assinada pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro, autorizou o uso da Força Nacional de Segurança Pública, pelo período de 33 dias, na Esplanada dos Ministérios.

A determinação atende a um pedido do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), chefiado pelo ministro Augusto Heleno, que atribuiu a necessidade de militarizar a vizinhança às manifestações programadas para ocorrer na capital nas próximas semanas.

Entre essas manifestações está uma passeata no Dia do Índio.

Entre tantos disparates, botinas, ameaças e menções a tiro ao alto, não seria paranoia, entre tanta paranoia, imaginar que a razão para o temor é outra. A não ser que o governo tema realmente sofrer uma revolução entre arcos e flechas.