Titular do 'Flow Podcast', Igor 3K fala de política e da relação com o antigo parceiro Monark

Segunda-feira, três e pouco da tarde. O motorista de aplicativo comentou com o repórter que poucos minutos antes havia deixado uma passageira naquele mesmo endereço, em uma rua residencial na Vila Prudente, Zona Leste de São Paulo. De fato, o casarão de paredes verdes é conhecido pelo entra e sai de gente. Na segunda, foram recebidos o ex-juiz Sergio Moro e o ex-procurador da Lava- Jato Deltan Dallagnol, respectivamente senador e deputado federal eleitos pelo Paraná. Quarta, quem apareceu foi Fernando Haddad, candidato petista ao governo de São Paulo. Na semana passada, o ex-presidente (e candidato ao Planalto) Luiz Inácio Lula da Silva deu as caras por lá.

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Não, nenhum político mora ali. É a sede dos Estúdios Flow, onde é gravado o podcast apresentado pelo ex-professor de inglês Igor Coelho (ou Igor 3K, para os espectadores). Uma hora ou outra, quem quiser se manter relevante na política acaba batendo um papo com o carioca de 37 anos. Não à toa, os principais candidatos à Presidência da República passaram por lá nos últimos meses: Ciro Gomes, Simone Tebet, Jair Bolsonaro e Lula.

Entre uma baforada e outra de cigarro eletrônico, Igor confessa que não se surpreende com a romaria de políticos no “Flow Podcast”, projeto que começou despretensioso, tentando imitar uma boa conversa de bar, sem pauta e sem hora para acabar.

— Desde o começo, o Gian, o Monark e eu tínhamos o plano de ajudar as pessoas a formarem suas opiniões e qualificar o debate, mesmo fazendo entretenimento — afirma. — Entrevistar políticos e presidenciáveis faz sentido com essa ideia. A gente escuta os caras, mas fica esperto, porque eles não são donos da verdade.

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Gian é Gianlucca Eugenio, diretor do programa. Monark é Bruno Aiub, que apresentava o podcast ao lado de Igor, mas se desligou dos Estúdios Flow após argumentar que partidos nazistas deveriam ser permitidos por lei em um episódio com os deputados federais Tabata Amaral e Kim Kataguiri.

Criado entre os bairros do Rocha e do Jacaré, na Zona Norte do Rio, Igor cursou Letras no Centro Universitário da Cidade do Rio de Janeiro (UniverCidade) pelo Prouni e deu aulas de inglês por sete anos. Em 2014, criou um canal de games no YouTube, o “3K” (daí seu nome). Ficou conhecido na cena gamer, mas o jogo virou mesmo com o sucesso do “Flow Podcast”, que começou em 2018, quando ele, Monark e Gian ainda viviam em Curitiba.

Formato replicado

O programa migrou para São Paulo em 2019 e estourou durante a pandemia. O formato descontraído, com episódios transmitidos quase diariamente pelo YouTube, inspirou outros programas na “podosfera”. Na plataforma de vídeos, eles também lançaram o canal “Cortes do Flow”, no qual são disponibilizados trechos das entrevistas, estratégia que não demorou a ser adotada por outros podcasts, como o Podpah, e por streamers, como Casimiro.

Os Estúdios Flow são o maior hub de podcasts do país. São mais de 60 horas de conteúdo ao vivo por semana e nove programas diferentes: “Flow”, “Flow Sport Club” (também apresentado por Igor), “Venus”, “Prosa Guiada”, “Kritikê”, “Ciência Sem Fim”, “Noir”, “Avesso”, “Canal Amplifica” e “Salve Salve Família”. Ao todo, os podcasts e seus apresentadores somam mais de 45,8 milhões de seguidores nas redes sociais e 7,3 bilhões de visualizações no YouTube.

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Rafael Sbarai, professor de jornalismo, cultura digital e modelo de negócios da Faap e na Faculdade Cásper Líbero, aponta três razões para o sucesso de podcasts como o “Flow”:

— O primeiro deles é a capacidade de identificar um nicho. O segundo é quase um fenômeno sociológico: os podcasts se transformaram em conversas de bar. As pessoas se sentem confortáveis para revelar coisas sobre si que não diriam em frente às câmeras, embora os podcasts hoje tenham virado vídeos. Em terceiro lugar, os podcasts são muito eficientes em distribuir conteúdo na forma de vídeos com frases bombásticas — explica Sbarai, que acrescenta que a viralização dos “cortes” pode ser um tiro pela culatra. —Produtos controversos são rapidamente desmonetizados.

É por isso que Igor apresenta o “Flow” sozinho desde fevereiro. Monark, que era dono de metade dos Estúdios Flow, foi desligado da empresa após o que Igor chama de “o fatídico dia do Partido Nazista”. A fala de Monark em defesa da legalidade da organização partidária do nazismo foi repudiada, houve debandada de patrocinadores, e o YouTube desmonetizou os canais do Flow por “comportamento ofensivo que coloque em risco a segurança e o bem-estar da comunidade”.

— Do dia para a noite, nossa receita foi a zero — lembra Igor, que reclama que o YouTube cortou o financiamento de canais que nada tinham a ver com Monark, como o do “Flow Sport Club”.

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Em nota, o YouTube afirma que “a monetização é um privilégio oferecido aos criadores de conteúdo aprovados a participar do Programa de Parcerias” de acordo com as regras da plataforma. “Caso o parceiro não as cumpra, o YouTube pode suspender a monetização desse parceiro e de quaisquer canais atrelados a ele.”

Um mês após a suspensão, os Estúdios Flow solicitaram a remonetização dos canais. Após 30 dias de análise, o YouTube concordou. Passado mais um mês, o dinheiro voltou a cair na conta.

Nesse meio tempo, eles apertaram os cintos. Igor cortou os salários da diretoria (incluindo o dele) e suspendeu um aumento recém-aprovado para os 120 funcionários. Apesar do tombo, os Estúdios Flow devem fechar o semestre com R$ 6 milhões de receita. No entanto, os salários continuarão rebaixados. Agora, o objetivo é fazer caixa.

Igor é casado, tem duas filhas e mora perto do estúdio onde trabalha. Se está rico?

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— Minha empresa é milionária, mas pessoalmente nunca foi a ideia ficar rico. Mas acho que eu não vou escapar de ficar rico. E isso é bom porque vai me ajudar a viabilizar vários projetos.

Atualmente, ele é dono de 95% da empresa. Comprou os 45% da participação de Monark (os outros 5% foram adquiridos por Gianlucca). E diz que foi “assustador” tocar o podcast sem o antigo parceiro, de quem continua próximo.

— Monark é meu amigo para a vida. Se você passar duas horas com ele vai ver que as ideias dele não são hediondas. O problema é como elas vêm para o mundo. Desde 2018, converso com ele sobre isso, mas ele acha que ser obrigado a fazer um discurso politicamente correto fere a liberdade de expressão — diz Igor.

Ele chama de “censura” a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que suspendeu o lançamento do documentário “Quem mandou matar Jair Bolsonaro?”, da produtora Brasil Paralelo, e critica plataformas por cercearem ideias divergentes. O público, diz Igor, reclama bastante que o episódio com o Bolsonaro não aparece na buscas do YouTube, mesmo digitando “Bolsonaro Flow” ou “Flow Bolsonaro”. O YouTube afirma que isso não se deve a nenhuma tentativa de restrição de conteúdo, mas à própria dinâmica dos algorítimos.

Antes mesmo do “fatídico dia do Partido Nazista”, parte da esquerda já torcia o nariz para o “Flow”. Igor 3K lembra que, nos primórdios do programa, eles entrevistaram personagens da cena anarcocapitalista de Curitiba, não por afinidade ideológica, mas porque “queríamos conversar com todo mundo”. Já em São Paulo receberam vários políticos de direita, como Eduardo Bolsonaro e o próprio Kataguiri. Igor diz que não é um “liberalzinho” e afirma seu apoio a pautas ligadas à esquerda, como a legalização da maconha e do aborto.

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Até hoje, não é fácil convencer nomes progressistas — em especial, do Partido dos Trabalhadores — a participarem do podcast. Ao contrário da direita, sugere Igor, a esquerda ainda não se deu conta de que a comunicação com as classes populares passa por plataformas como o “Flow”. A equipe do podcast prefere não revelar nomes de pessoas que foram convidadas e disseram não. Motivo? “Não expor”.

As tentativas para levar Lula ao programa se estenderam por mais de dois anos. Igor não ficou de todo satisfeito com o resultado. A produção do podcast e a campanha do petista combinaram que a entrevista duraria entre duas horas e duas horas e meia. No entanto, no dia da gravação, assim que a conversa passou de uma hora a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, começou a bater com o dedo no punho para indicar que já era hora de encerrar o papo.

A conversa durou 1h37. A assessoria do PT diz que a entrevista precisou ser “abreviada” porque o candidato tinha um compromisso de campanha logo em seguida, em local distante do estúdio.

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Igor diz que não teve tempo para questionar Lula sobre o apoio do PT a regimes autoritários, como os de Cuba e Venezuela, e sobre a corrupção na Petrobras. O episódio alcançou mais de um milhão de espectadores simultâneos e superou o recorde anterior, estabelecido por Bolsonaro em agosto: 550 mil. O presidente passou 5h21 no “Flow”.

— Lula perdeu uma puta oportunidade de expor suas ideias. O PT não entendeu que eu não estou aqui para foder ninguém. Sou como o padeiro, o pedreiro, um cara qualquer que quer saber as propostas dos candidatos a presidente. Boa parte da galera que ouve o “Flow” é como eu: está descrente e não quer votar em ninguém — diz Igor.

Lula até tentou ganhar o voto do apresentador e pediu que ele ajudasse a combater a abstenção no segundo turno. Igor concordou com essa última parte: “Peço pras pessoas fazerem diferente de mim e irem votar”. Desde 2012, ele se limita a justificar seu não comparecimento às urnas. Também não pretende votar no próximo domingo. Nem sequer transferiu seu título de eleitor para São Paulo:

— Eu não acredito em nenhum desses caras. Já vi político traçando estratégia para difamar o adversário aqui no estúdio, sem nenhum pudor. Imagina o que eles não fazem fechados no gabinete!