'Tive uma educação preconceituosa e machista', diz Murilo Benício

Pedro Willmersdorf
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Murilo Benício anda reflexivo. Pode ser efeito da pandemia, mas também bate forte o simbolismo dos 50 anos que se avizinham, logo ali, em julho. Hoje, o ator pratica o exercício de entender o que ele se tornou como profissional, amigo, pai."

Isolado em sua casa no Jardim Botânico, no Rio, ao lado dos filhos Pietro, de 15, e Antonio, de 24, ele conta à Canal Extra o que acredita tê-lo trazido até aqui.

— Foi o desejo de acertar e achar que faço diferença para alguém — pontua Benício: — E o que me mantém de pé é crer que ainda posso dar alguma coisa às pessoas, servir de modelo para os meus filhos.

Acertos, aliás, não faltam em sua ficha corrida de quase 20 novelas. Um deles volta ao ar amanhã, com a estreia de “Ti ti ti” na faixa do “Vale a pena ver novo”. Exibida originalmente entre 2010 e 2011, a novela de Maria Adelaide Amaral fez muito sucesso ao oferecer um remake do folhetim homônimo de Cassiano Gabus Mendes, de 1985, com pinceladas de “Plumas e paetês” (1980), do mesmo autor.

Na trama repaginada, Benício deu vida ao estilista Ariclenes/Victor Valentim e arrancou gargalhadas do público graças à rivalidade com André/Jacques Leclair, papel de Alexandre Borges. Na história original, os personagens foram vividos por Luis Gustavo e Reginaldo Faria, respectivamente.

— Eu tinha 14 anos quando a novela foi exibida. Chegava da rua todo suado, depois de jogar futebol, e sentava no chão da sala para assistir junto com a minha mãe — relembra o ator: —É uma lembrança muito íntima e afetuosa.

Do set de gravações, ele guarda no coração a convivência divertida com o parceiro de cena, Alexandre Borges, a quem define como “um cara que torce pelos outros”. E também ressalta a saudade do diretor e amigo Jorge Fernando, morto em 2019.

— Foi meu terceiro trabalho com o Jorginho. O humor dele sempre foi muito marcante, por mais que hoje, talvez, muitos encarem como politicamente incorreto. Ele sempre fez e falou as coisas com tanta leveza, que nunca ninguém se sentiu insultado.

"“Ti ti ti” volta aos holofotes com uma média de 30 pontos de audiência no currículo. Atingir esse desempenho, agora num horário vespertino, será muito mais difícil. Por outro lado, nada impede que a novela consiga arrancar novamente do telespectador as mesmas risadas de uma década atrás."

"Benício acredita que seu Victor Valentim retorna num momento bastante oportuno, marcado pela tristeza da pandemia."

— Vivemos uma falta de amparo tremenda. Já que, literalmente, não dá para "fugir, que “Ti ti ti” pelo menos sirva como um refúgio espiritual — diz.

Mas para quem quiser curtir Murilo Benício em uma performance, digamos, bem mais densa, basta sintonizar na TV à noite para conferir a reta final de “Amor de mãe”, novela de Manuela Dias, cujo último capítulo vai ao ar no próximo dia 9.

O ator conta que a pausa de cinco meses entre a interrupção das gravações, em março de 2020, e sua retomada, em agosto, acabou servindo para uma retomada de fôlego.

— Novela é uma coisa que começa e parece que não tem fim. Sempre chega aquele momento de exaustão. No caso de “Amor de mãe”, paramos justamente quando eu estava começando a me sentir cansado — confessa: — Se o motivo para a interrupção não tivesse sido a pandemia, eu diria que o ritmo de trabalho foi incrível.

Em meio a testes PCR e protocolos mil, o ator voltou à pele do empresário Raul, que vivencia um arco de redenção nos capítulos finais. Com direito, inclusive, a sacrifícios pessoais em nome do filho Sandro (Humberto Carrão).

Porém, é inegável que o conjunto da obra de Raul deixa exposto um histórico machista em seu caminho pela trama. Benício não passa pano para seu personagem, mas também não compactua com um tipo de crucificação que esbarre no tão falado cancelamento.

O ator utiliza como paralelo a situação de Rodolffo, do “BBB 21”. O cantor foi emparedado por Gilberto após tecer comentários de teor homofóbico envolvendo Fiuk. Em sua defesa, o sertanejo argumentou que teve uma criação chucra, na fazenda, e que estava disposto a ser corrigido.

— Tive uma educação machista e preconceituosa e acho que muitos da minha idade estariam mentindo se dissessem que não tiveram também. Só que o importante é acordar todo dia e tentar se desfazer disso tudo — analisa: —Sinto que, muitas vezes, falta amor. E muita gente acaba não tendo a chance de aprender.

Ele recorda de quando, ainda jovem, frequentava a CAL (Casa das Artes de Laranjeiras) e levava broncas sempre que falava alguma besteira. Atualmente, graças ao convívio com os filhos, o ator diz que continua aprendendo. E muito.

— Meus filhos têm uma educação diferente da minha. Mantive todo amor que recebi, e o resto reciclei. Eles é que me ensinam dentro de casa. Tenho muito mais a ouvir do que a dizer. Essa é a grande virada, a busca pelo respeito em sociedade deve começar debaixo do nosso próprio teto.

Pela primeira vez morando junto com os dois filhos ao mesmo tempo, Benício se apega ao privilégio de estabelecer um cotidiano seguro com eles, enquanto a Covid avança pelo Brasil. E também não esconde a decepção ao aceitar que o país fracassou de modo retumbante no combate à doença.

— Não há alguém no comando que passe mensagens informativas, algo que precisávamos desde que isso tudo começou — critica: — Infelizmente, as pessoas não têm vergonha de serem ignorantes.

Diante de um cenário tão nebuloso, fica difícil traçar planos. Pelo menos uma prioridade o niteroiense mantém no topo da lista: finalizar o filme “Pérola”, dirigido por ele e rodado em 2018. É uma adaptação da peça de Mauro Rasi (1949-2003).

A expectativa era ver o longa nos cinemas em maio, mas a situação sanitária nacional já o fez recalcular a rota. Agora, sem dúvida, a meta principal é a sobrevivência.

— Não dá para pensar sequer no mês que vem, quando não sabemos o que nos espera amanhã — conclui Benício: — Mas não sou pessimista. Acredito que a pressão da comunidade internacional só tende a aumentar e a situação vai melhorar. É preciso ter esperança. Quando se perde a esperança, tudo acaba.