'Tivemos tempos muito dolorosos, em que pessoas não conseguiram se despedir como deveriam', diz dom Orani em celebração no Dia de Finados

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RIO — Uma faixa de 20 metros com a frase "Nascemos para a vida eterna" subiu aos céus no início da manhã desta terça-feira para marcar o Dia de Finados, no Cemitério da Penitência, na Zona Portuária do Rio. A mensagem foi escolhida pelo arcebispo do Rio, cardeal dom Orani Tempesta, em homenagem aos mortos. Este ano, parentes e amigos puderam, ainda com restrições, visitar os cemitérios e crematórios no Rio, o que não foi possível ano passado em razão da pandemia de Covid-19.

Com máscara, álcool em gel e distanciamento social, 50 pessoas que reservaram seu lugar assistiram à primeira missa do dia, às 8h, celebrada pelo arcebispo do Rio. A capacidade máxima do espaço, que é de 300 pessoas, foi restrita por causa das medidas de proteção contra a Covid-19.

— Estamos vivendo um momento especial, de uma certa esperança, com a vacinação avançando e os familiares conseguindo vir visitar seus entes queridos. Nós tivemos tempos muito difíceis e dolorosos, em que pessoas não conseguiram se despedir como deveriam. Então o dia de hoje é para tirar um minuto, rezar e pedir por eles. E ainda refletir sobre a eternidade, um olhar para a vida, que dura para sempre e não acaba aqui no túmulo. Por isso também a frase que foi escolhida para a faixa — diz dom Orani.

Além das missas, às 10h e 17h, celebradas pelo padre Pedro Paulo, o cemitério preparou dois espaços de carinho e reflexão para os familiares. O primeiro, a Estação Saudade, ficará aberto até 18h30, com mensagens do escritor Allan Dias Castro que refletem sobre a perda e a vida dos que aqui permaneceram. Além das frases, que poderão também ser ouvidas no espaço, os visitantes podem fixar fitas brancas com a palavra "Saudade".

No segundo espaço, o Zen, a proposta é refletir sobre a vida com a meditação guiada pela psicoterapeuta Elisângela Rosa Lima. Na sala com capacidade para 15 pessoas, são exibidos quatro vídeos da monja Coen e do escritor Allan Dias Castro. Um mural ficará exposto até o final do ano com a foto de amigos e familiares que se foram e estão sepultados no cemitério.

A técnica de informática Kátia Oliveira, de 51 anos, veio para a visitar o túmulo de sua mãe, que morreu há três anos de infarto. Para ela, qualquer iniciativa que ajude a pessoa próxima a lidar melhor com a perda é valido:

— Acho que o espaço precisa ser aberto para todos, de todos os tipos e crenças. É isso que as iniciativas aqui propõem. Em um tempo tão difícil para quem perdeu alguém próximo e não pôde sequer se despedir, espaços como esses ajudam a pessoa a lidar melhor com o momento e fazem toda a diferença.

A assistente de Recursos Humanos Jéssica Sales, de 29 anos, foi se despedir da tia que morreu na segunda-feira, de causas naturais. Ela pendurou uma fita escrita "Saudade" e ela lembra da tia com gratidão:

— Ela se foi, mas parte de mim está com ela. E esse espaço serve para lembrar, agradecer, se despedir e lembrar com carinho dela. É um alento.

A empresária Vera Neia, 54 anos, perdeu sua mãe de Covid-19 em maio de 2020. A última vez que a viu foi antes de entrar no hospital, um mês e 12 dias antes de sua morte.

— É um momento difícil, triste, mas que não pode ser só de lamentações. Conseguir vir aqui um ano depois de tudo o que aconteceu é também um momento de alegria, para lembrar de tudo o que ela foi e continua representando para mim.

O superintendente do Cemitério, Alberto Brenner Jr, disse que pensou nos espaços interativos de memória e reflexão para ajudar o processo de luto:

— A gente pensou em criar estações justamente para auxiliar neste momento difícil de perda da pandemia. Esses espaços servem para os visitantes refletir e, talvez, olhar de uma forma diferente o momento delicado em que vivemos.

Ele estima receber nesta terça-feira quase cinco vezes mais visitantes que no ano anterior, já que a pandemia impediu a ida das pessoas aos cemitérios.

A assistente social Márcia Torres e o psicólogo Paulo Vitor, coordenadores da campanha A Vida Não Para, projeto de apoio às pessoas enlutadas que acontece gratuita e semanalmente no Cemitério da Penitência, comandam uma revoada de balões pela manhã. Após a missa das 17h, o projeto Iluminando Memórias acende mil velas no cemitério-parque. O Cemitério ficará aberto até 19h.

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