'Todo dia é um recomeço': veja a rotina de médicos e pacientes na maior UTI de Covid do Brasil

Ana Lucia Azevedo
·8 minuto de leitura

RIO — Na maior UTI de Covid-19 do Brasil, a do Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari, na Zona Norte do Rio de Janeiro, se vê com nitidez a face rejuvenescida da pandemia. Muitas vezes, é a de um jovem obeso. Nem sempre. Há rostos de 20, 30, 40 anos, sem comorbidade ou motivo detectável que os tenha feito adoecer tão gravemente, numa pandemia que segue desafiando a medicina.

No hospital de referência da doença , onde chega um terço dos doentes de Covid-19 do SUS do estado, todos os pacientes são muito graves. Na última quarta-feira, 94% dos 420 leitos (225 de UTI e 195 de enfermaria) estavam ocupados. E 44,50% dos internados tinham menos de 60 anos.

Graças a um banco de dados criado em 15 de janeiro deste ano, com informações sobre todos os 8.902 pacientes de Covid-19 que o Gazolla já atendeu, o hospital é um farol da evolução da pandemia, que permite traçar um retrato da Covid-19 à medida que ela se espalha e se modifica no país.

O diretor do hospital, Roberto Rangel, diz que, a partir de março, a gravidade dos casos aumentou, o número de doentes jovens cresceu e o de idosos, caiu. Este último indicador é reflexo da vacinação; o anterior está ligado, certamente,à maior exposição e, possivelmente,à variante P1 do Sars-CoV-2.

— A ideia de que o jovem deveria se proteger para evitar que seus avós e pais adoecessem é passado. Ele deve se cuidar para salvar a si mesmo, pois seus pais e avós estarão vacinados e é ele quem vai adoecer. E, em alguns casos, até morrer — afirma Rangel.

Juventude desprotegida

A faixa dos 40 aos 59 anos é a que registra o maior aumento percentual de mortes. Era de 15,7% em janeiro e está em 30,4% em abril.

Um dos dados mostra que 5,2% das mortes são de pessoas abaixo de 39 anos. É um percentual ainda mais significativo, pois quem está nessa faixa etária têm, em tese, organismo muito mais capaz de resistir do que o de um idoso, ressalta Rangel:

— É um percentual muito alto para pessoas tão novas. A juventude não está mais salva da Covid-19.

Segundo dados da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), em março pessoas até 40 anos somaram 52% das internações em UTIs do Brasil e 58% dos que necessitaram de ventilação mecânica.

A mudança de perfil da pandemia é evidente na faixa dos 80 aos 89 anos, dos primeiros a serem vacinados. O percentual de mortes caiu de 20,7% em fevereiro para 7,5% em abril. Agora, diz Rangel, a redução começa a ser observada nas pessoas acima dos 70 anos, grupo etário vacinado na sequência.

O hospital também acompanha os casos de quem adoeceu após a primeira dose da vacina, quando ainda não há proteção para a maioria dos indivíduos.

Há também casos, mas poucos, com duas doses: a maioria, ligada a infecções logo após a aplicação da vaacina, quando o corpo ainda não desenvolveu imunidade. Também chama a atenção dos médicos doentes que perderam o prazo ou não seguiram o esquema vacinal corretamente.

— A vacina está cumprindo o seu papel, o de evitar casos graves e mortes — diz Rangel.

Mortes fulminantes

Os dados do banco de dados do Gazolla indicam que não só a faixa etária de doentes e mortos está mais jovem, mas que muitos são obesos e que os óbitos agora ocorrem com menor tempo de internação.

O relatório de mortes de um dia de abril, selecionado ao acaso por Rangel, é revelador dessa transição. São histórias como a de Maria, de 20 anos (os nomes de pacientes foram trocados para preservar a identidade), que morava no Complexo do Alemão, a menos de 15 quilômetros do hospital.

Asmática e obesa, Maria chegou ao Gazolla no dia 11 de abril, com 50% do pulmão tomado pela doença. Três dias depois foi intubada. Em outros três dias, um a um os órgãos de Maria foram sendo tomados pela Covid-19. Ela morreu no dia 17.

No mesmo dia que Maria morreu também faleceu Joana, 31 anos, obesa e hipertensa, moradora de Queimados, na Baixada Fluminense. Ela chegou em 9 de abril intubada, após dois dias internada numa UPA. Teve hepatite, disfunção renal e não resistiu.

Joaquim, de 32 anos, também morreu em 17 de abril. Como Maria e Joana, Joaquim sucumbiu à Covid-19 em poucos dias, apenas dez. Mas a similaridade termina aí.

Joaquim era magro e não sofria de qualquer doença prévia. Morava em Sepetiba, na Zona Oeste da capital, e chegou ao Gazolla, de uma UPA, com 70% do pulmão acometido. Após 24 horas, foi intubado. Nunca mais acordou. Sofreu uma hemorragia e morreu.

— O caso de Joaquim é emblemático pois mostra que adultos jovens, sem sobrepeso e doenças prévias, podem adoecer com muita severidade e morrer de Covid-19 — enfatiza Rangel.

No entanto, os obesos são maioria entre os doentes. Possivelmente, porque a obesidade causa inflamação, o que amplifica o impacto da Covid-19.

Na UTI 5, a atenção dos médicos está voltada para um paciente de 37 anos e 350 quilos, que chegara na véspera. Ele não estava intubado, mas seu caso preocupava pela dificuldade de manipular paciente tão pesado e, ao mesmo tempo, frágil.

Mais grave do que ele naquele momento estava uma mulher de 41 anos, de peso normal e nenhuma comorbidade. Era a mesma situação de um rapaz de 30 anos, no leito contíguo ao do paciente com obesidade mórbida.

— Temos observado uma piora súbita, em geral do sétimo para o nono dia, de alguns pacientes que agravam sem comorbidade. Não há uma só causa para tantos casos graves em jovens — frisa o coordenador da UTI 5, Bruno Tessitore.

Entre as muitas preocupações dos médicos está a ocorrência maior nas últimas semanas de uma condição chamada hipoxemia silenciosa. O paciente não percebe a falta de ar, mesmo que a saturação de oxigênio despenque e a pessoa esteja à beira da morte. Tampouco a detectam os monitores hospitalares e, menos ainda, os oxímetros comuns.

Ela só é identificável pelo exame de gasometria, feito duas vezes por dia na UTI do Gazolla.

— Aqui tudo é intenso o tempo todo — sintetiza Roberto Rangel.

Batalhas silenciosas

A intensidade na Covid-19 se manifesta, por exemplo, na média de 46 internações por dia. Houve dias em março que chegaram 65 ambulâncias diariamente ao hospital. Todas com pacientes tão graves, que sutis alterações no fluxo de oxigênio podem ser letais, explica Rivelino Trindade, diretor assistencial médico. O tempo passado na ambulância com o respirador portátil pode levar à morte.

Muitos dos pacientes conscientes nas UTIs do hospital estampam na face a angústia de uma doença que tira o ar, a força e a voz de suas vítimas. É o caso de Silvio Duarte, de 36 anos, internado há menos de uma hora no hospital. Levado direto para a UTI, obeso, ele tentava sorrir, mas era impossível esconder a expressão de medo.

Em outra sala de UTI do Gazolla, Jony Max, de 50 anos, se esforçava para celebrar o aniversário da filha adolescente com a ajuda de enfermeiros e de uma videochamada.

A alguns leitos de distância de Max, Ângela da Silva, de 51 anos, se emocionava e chorava com a primeira videochamada da família, possível com a ajuda da psicóloga Paola Dantas.

Mas os pacientes intubados, que somavam 108 na semana que passou, estão imersos na solidão da Covid-19, sedados, alheios ao mundo enquanto seu corpo trava uma batalha silenciosa contra o vírus e a inflamação.

É o caso de um rapaz de 30 anos, corpo magro e inconsciente. Ou de um homem de 52 anos, que desenvolveu distúrbios neurológicos. É à beira do leito dele que a equipe médica faz um dos “rounds”, ou juntas diárias, nos quais discutem cada caso — se um paciente deve ou não sair do tubo, se precisa de traqueostomia.

Nos “rounds”, os médicos tiram dúvidas, discutem incertezas, estabelecem prioridades. É a rotina para o combate de uma doença que tem a instabilidade como marca, como sublinha Rivelino Trindade:

— A Covid-19 é uma doença em que o estado dos pacientes muda rapidamente. Todo dia é um recomeço.

Redução de mortalidade

Apesar do aumento do número de internações, o Hospital Municipal Ronaldo Gazolla tem conseguido reduzir a taxa de mortalidade desde janeiro. Ela caiu de 50% em julho de 2020 para 37,36% em março. Abril ainda não acabou, mas o índice deve permanecer no mesmo patamar, diz o diretor, Roberto Rangel. O percentual é puxado pela UTI, na enfermaria, gira em torno de 1%.

Também diminuiu o tempo de internação dos pacientes até a alta. Em julho de 2020, o tempo médio era de 30 dias. Em abril de 2021 despencou para 6 dias. A redução é atribuída pelo diretor Roberto Rangel ao maior número de profissionais de saúde alocados no hospital desde janeiro, assim como ao aprendizado sobre como tratar os pacientes.

A pneumologista e cientista da Fiocruz Margareth Dalcolmo diz que exemplos como o do Gazolla evidenciam a diferença que faz a injeção e boa gestão de recursos.

— Nem tudo ali é novo, mas é bem usado, mostra como o SUS pode oferecer um serviço de qualidade — afirma Dalcolmo, que planeja colaborar na realização de um estudo sobre o banco de dados do hospital.

O Gazolla tem um médico para cada oito pacientes de UTI, enquanto que o recomendável é a proporção de um para dez. Mas lá é uma necessidade para pacientes muito graves, conectados a várias máquinas e que precisam de acompanhamento 24 horas por dia.

Centro de referência para a Covid-19, o Gazolla também não sofreu com a falta de medicamentos registrada em muitas unidades de saúde, públicas e privadas, em todo o país. Mas, com a taxa de ocupação chegando quase a 100%, também está no limite de atendimento.