Toledo (PR) passou do sufoco à euforia com vacinação recorde e parceria com a Pfizer

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Toledo/PR , 18.nov.2021 - Adolescente é vacinado com a segunda dose no primeiro dia de adiantamento do ciclo completo de imunização, no ginásio Hugo Zeni, centro de Toledo/PR. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
Toledo/PR , 18.nov.2021 - Adolescente é vacinado com a segunda dose no primeiro dia de adiantamento do ciclo completo de imunização, no ginásio Hugo Zeni, centro de Toledo/PR. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

Quando a auxiliar de enfermagem Isabel Pereira da Silva finalmente teve a oportunidade de se vacinar, entre grupos prioritários de Toledo, município no interior do Paraná, não se sentia digna de receber o medicamento que traria alívio a tantos na linha de frente do combate à Covid-19

“Meu marido foi a pessoa que mais fez campanha para que todos ao nosso redor se vacinassem; mais do que eu, qualquer profissional da saúde, ele convenceu muitos a tomarem a vacina. E lá estava eu, nem um mês depois da morte dele, podendo ser vacinada. Não consegui, eu me sentia como se estivesse roubando um direito que ele não pode usufruir, então acabei me vacinando somente três meses depois”, desabafa.

Naquele momento o Paraná acompanhava o resto do país com uma média de 25% da população total com uma ou duas doses da vacina contra o coronavírus, passados pouco menos de 4 meses do início da campanha no Brasil.

Em junho deste ano, Toledo acabou passando pela maior crise do sistema púlbico de saúde desde o começo da pandemia. Com 24 pessoas sedadas sob ventilação mecânica no Pronto Atendimento Municipal (PAM), porta de entrada para pacientes de Covid-19 no município, não havia mais vagas para acolhimento. A simples chegada de um paciente a mais forçaria a escolha de quem teria sobrevida com ajuda de um respirador, e quem tentaria a sorte sem o aparelho vital para os casos mais graves da doença.

“Tínhamos 200 pacientes na região aguardando leito de UTI ou Enfermaria, e tivemos de fechar as portas para gente de outras cidades, chegando muito próximo de perder um doente por falta de um tubo, de estrutura; é um momento que você se sente muito pequeno”, conta a Secretária de Saúde da cidade, Gabriela Kucharski. “Por sorte, tivemos a liberação de leito em outro hospital, e pudemos receber mais uma pessoa, mas foi um momento angustiante”.

Toledo/PR , 18.nov.2021 - Lucas Dejany, 21 anos, dá entrada no pronto-atendimento com sintomas de Covid-19 e passa a fazer parte do estudo encomendado pela Pfizer. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
Toledo/PR , 18.nov.2021 - Lucas Dejany, 21 anos, dá entrada no pronto-atendimento com sintomas de Covid-19 e passa a fazer parte do estudo encomendado pela Pfizer. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

Naquela mesma época a sogra do prefeito da cidade, Beto Lunitti (MDB) acabou morrendo com a doença aguardando um leito de UTI. Outro da classe política toledana que sofreu com o vírus foi José Carlos Schiavinato (Progressistas-PR). Ele é o primeiro deputado federal a morrer pela doença, um mês após a mulher, Marlene Schiavinato.

“Olha, o que Toledo vivenciou nesses últimos dois anos, o que nós vimos de tantas famílias que foram, que perderam seus entes queridos, inclusive eu: Minha esposa faleceu dia 18 de janeiro e ela não teve a sorte, a felicidade de ser vacinada porque naquele momento ainda não tinha começado a vacinação”, se emociona o vereador Leoclides Bisognin, também afetado pela demora na chegada das vacinas ao país enquanto países como Israel e EUA já vacinavam seus cidadãos havia um mês com o imunizante da norte-americana Pfizer.

De acordo com as investigações da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Pandemia, conduzida até 27 de outubro, a própria Pfizer propôs em agosto do ano passado o início da imunização em dezembro de 2020, com a entrega de 1,5 milhão de doses naquele mês e mais 3 milhões ainda no primeiro trimestre deste ano.

O Ministério da Saúde brasileiro só acabou firmando acordo com o laboratório em março de 2021, quando adquiriu 100 milhões de doses —das quais 14 milhões devem ser entregues até junho, e o restante até setembro deste ano.

Toledo/PR , 20.nov.2021 - Vista geral da cidade de Toledo, no oeste paranaense, e que recebe o estudo inédito em países desenvolvidos para monitoramento viral e de saúde para Covid-19 de toda a população por até 2 anos. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
Toledo/PR , 20.nov.2021 - Vista geral da cidade de Toledo, no oeste paranaense, e que recebe o estudo inédito em países desenvolvidos para monitoramento viral e de saúde para Covid-19 de toda a população por até 2 anos. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

Neste meio tempo a Prefeitura da cidade já disputava, com outros municípios, a participação em um estudo encomendado pela Pfizer que partia da vacinação completa de adultos. Pleito que acabou confirmado entre julho e agosto. Desde então, Toledo passou do desespero à euforia, conseguindo vacinar quase todos os aptos dentro dos cerca de 140.000 habitantes em tempo recorde.

Entre 26 e 31 de Agosto a cidade recebeu, por meio do Ministério da Saúde e do Plano Nacional de Imunização, um adiantamento nas doses de imunizantes, o que permitiu vacinar 95% dos adolescentes até 18 anos, e chegar em novembro com 100% dos maiores de 18 anos com primeira dose ou dose única - dado que alcança 75% com duas doses. 

Como comparação, São Paulo, Estado mais adiantado na campanha de vacinação, alcançou somente nesta terça-feira este índice entre os adultos. A capital paulista, no entanto, de agosto para novembro conseguiu alcançar e até superar os paranaenses. Atualmente, de acordo com dados da Prefeitura, 100% dos adultos estão totalmente imunizados, e 43% dos adolescentes.

Toledo/PR , 17.nov.2021 - José Sobral, médico, atende um paciente idoso com pneumonia bacteriana. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
Toledo/PR , 17.nov.2021 - José Sobral, médico, atende um paciente idoso com pneumonia bacteriana. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

“O que a gente percebeu, e foi muito nítido, é que com a vacinação dos adolescentes a nossa média móvel de novos casos, que era de 90, caiu para 10. Se a gente tivesse vacinado de modo mais célere a nossa população, talvez aquela onda que tivemos em junho, que representou uma sobrecarga muito importante do sistema de saúde, talvez tivesse sido amenizada”, comenta a secretária.

Monitoramento de variantes

Na última sexta-feira (20), Lucas Dejany, de 21 anos, deu entrada no pronto-atendimento com sintomas de Covid-19. Após ser diagnosticado como suspeito pela médica e ter solicitado o exame PCR para definição da contaminação, foi entrevistado por profissionais contratados pelo hospital gaúcho Moinho de Ventos para acompanhamento do estudo. 

A porta de entrada do trabalho, que é coordenada por pesquisadores do hospital de Porto Alegre — o único referência junto ao Ministério da Saúde localizado fora de São Paulo — são as consultas na rede pública toledana.

Toledo/PR , 19.nov.2021 - Adolescente é vacinada com a segunda dose no ginásio Hugo Zeni, centro de Toledo/PR. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
Toledo/PR , 19.nov.2021 - Adolescente é vacinada com a segunda dose no ginásio Hugo Zeni, centro de Toledo/PR. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

O médico intensivista Regis Goulart, um dos dois coordenadores da pesquisa, explica que a meta é observar sem interferência 1.500 casos de infectados em um contexto de vida real para poder compreender três grandes questões: Qual a eficácia das vacinas em um contexto de vida-real; Se estão surgindo novas variantes do Sars-CoV-2; e quais as sequelas que pessoas que tiveram a doença — intituladas atualmente como ‘Long-Covid’ são identificadas.

Com a descoberta de uma nova variante observada na África do Sul nesta semana, as duas primeiras questões ganham relevância. Considerando que mais da metade das vacinas aplicadas em Toledo são de outros fabricantes, e que todas elas foram testadas utilizando a variante Alpha do Sars-CoV-2, os pesquisadores buscam agora saber como as vacinas usadas reagem à variante Delta, predominante no Brasil.

Já as possíveis novas variantes que surjam em Toledo ao longo do próximo um ano e meio serão identificadas por pesquisadores da UFPR (Universidade Federal do Paraná), responsável pelo sequenciamento genético de todas as amostras positivas dos exames de PCR coletado na cidade e cujo portador concorde em participar do trabalho.

e como eles reagem aos imunizantes, o que será feito com o sequenciamento genético em tempo quase real de cada caso confirmado.

A auxiliar de produção Rosa Ghalli, de 45 anos, passou 105 dias em uma UTI após ser infectada por coronavírus na mesma semana em que finalmente poderia se vacinar. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
A auxiliar de produção Rosa Ghalli, de 45 anos, passou 105 dias em uma UTI após ser infectada por coronavírus na mesma semana em que finalmente poderia se vacinar. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

“Até agora no Brasil fizemos este sequenciamento por amostras; pela primeira vez, até onde tenho conhecimento, poderemos monitorar e checar cada um dos vírus coletados dos pacientes daqui; é uma observação única e muito importante”, explica a diretora do campus da UFPR na cidade, pediatra Cristina Rodrigues.

Co-coordenador do estudo, Regis Goulart defende a preocupação com a Covid de longa duração, já apontada pela OMS como de grande preocupação. “O Brasil já teve mais de 20 milhões de pessoas infectadas com Covid-19, segundo os dados mais atuais, então se levarmos em consideração que a long-covid afeta cerca de 20% dos infectados, a gente estima aí em torno de 4 milhões pessoas sofrendo com os sintomas prolongados da Covid”, explica.

“Talvez isso possa trazer pro mundo um grande exemplo de como adesão a campanha de vacinação em massa pode trazer benefícios e impactos positivos para os nossos sistemas de saúde, mostrando até o custo efetivo disso e a redução da prevenção da Covid-19 com vacinas face seu combate após infecções de alto custo”.

Sobrevivente

A principal comparação que Goulart faz é entre o alto investimento feito para a compra das vacinas contra o gasto com internações em enfermaria e UTI. “Além da dor do paciente e familiares, estamos nos comunicando também com os gestores públicos que querem esses cálculos”, defende.

A diária de uma UTI de Covid-19 no SUS custa em média R$ 2.200. Na comparação da diária em UTI com uma dose da vacina da AstraZeneca, por exemplo, que custa R$ 15,85, os gastos para tratar o paciente são 1.970 vezes maior do que o imunizante.

Toledo/PR , 19.nov.2021 - Vereador e presidente da câmara de vereadores de Toledo/PR, Leoclides Bisognin perdeu a esposa em janeiro, antes de poderem ser vacinados. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
Toledo/PR , 19.nov.2021 - Vereador e presidente da câmara de vereadores de Toledo/PR, Leoclides Bisognin perdeu a esposa em janeiro, antes de poderem ser vacinados. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

O custo de uma internação de 105 dias gira em torno de R$ 230.000. “Dei muito prejuízo para o meu plano de saúde”, se diverte Rosa Ghalli apesar da dor e limitação nos movimentos, após ficar entre a vida e a morte durante mais de três meses, entre maio e setembro, no município vizinho de Marechal Cândido Rondon.

Quando Rosa adoeceu, a vacinação havia recém alcançado sua faixa etária, e ela não conseguiu sequer tomar a primeira dose. “Me arrependo muito de não ter ido um pouco mais cedo, porque acho que não teria passado pelo que passei, não teria feito tanta gente chorar por mim, porque muitas vezes os médicos não deram esperança à minha família, certo. É muito triste ouvir os áudios que os médicos enviaram”, conta emocionada a auxiliar de produção de 45 anos.

Ghalli deixou a UTI na cidade vizinha de Rondon no dia 8 de Setembro; dois meses depois, ainda sem conseguir caminhar plenamente, ela foi autorizada a se vacinar. “Foi um alívio tão grande… Eu tenho muito medo dessa doença, e tem gente que não a leva a sério. Só quem passou por algo como o que passei sabe como é”, diz.

Pouco após a imunização da sobrevivente, a Prefeitura iniciou um mutirão para a aplicação da segunda dose naqueles adolescentes que em agosto haviam recebido a primeira delas. Em menos de uma semana foram alcançados 50% da população entre 12 e 17 anos, ou 5.671 jovens e adolescentes até o dia 24 de Novembro. A expectativa das autoridades é alcançar os 100% com a segunda dose até o Natal.

Toledo/PR , 17.nov.2021 - Vanda Aparecida da Rosa cuida de sua mãe Zilda Aparecida Antunes, uma das duas únicas pacientes na enfermagem do Pronto Atendimento Municipal responsável pelo acolhimento de pacientes com Covid-19 ou suspeitos da doença. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
Toledo/PR , 17.nov.2021 - Vanda Aparecida da Rosa cuida de sua mãe Zilda Aparecida Antunes, uma das duas únicas pacientes na enfermagem do Pronto Atendimento Municipal responsável pelo acolhimento de pacientes com Covid-19 ou suspeitos da doença. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
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