Tom moderado e promessas de Bolsonaro em cúpula não convencem ambientalistas

Lisandra Paraguassu
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Presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia em Brasília

Por Lisandra Paraguassu

BRASÍLIA (Reuters) - O tom mais moderado e as promessas feitas pelo presidente Jair Bolsonaro em seu discurso na Cúpula do Dia da Terra, nesta quinta-feira, não foram capazes de convencer ambientalistas e parlamentares de que o governo tem agora mais interesse e melhores intenções em relação à preservação da Amazônia.

Aos ouvintes do presidente, o que chamou a atenção foi o fato de que Bolsonaro contou, como conquistas do Brasil no combate a mudanças climáticas, feitos de governos anteriores e que não se mantiveram em seu governo.

"O Brasil sai da cúpula dos líderes como entrou: desacreditado. Bolsonaro passou metade de sua fala pedindo ao mundo dinheiro por conquistas ambientais anteriores, que seu governo tenta destruir desde o dia da posse", criticou Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

Em sua fala, o presidente destacou a meta de zerar o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030 e a antecipação da meta de neutralidade climática em 10 anos, para 2050. Destacou que o Brasil manteve intacto 84% da Amazônia --o número real é um pouco menor de 80% e, ainda assim, é considerado superestimado por ONGs ambientais-- e que o país evitou a emissão de 7,8 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera.

Esses números, no entanto, contabilizam apenas até 2015. De lá para cá, o número anual de desmatamento praticamente dobrou. Em 2015, foram desmatados, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), 6,2 mil km². No período de agosto de 2019 a julho de 2020, o desmatamento chegou a 11.088 km², maior número em 12 anos. Em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, o desmatamento chegou a 9,8 mil km², um recorde de 10 anos.

"Mais uma vez, Bolsonaro escolheu mentir para o mundo todo. Na Cúpula do Clima, o presidente faz um discurso completamente descolado da realidade: conta vantagem com avanços e conquistas ambientais passados, enquanto, no seu governo, recordes de desmatamento são batidos", escreveu o deputado Alessandro Molon (PSB-RJ), líder da oposição na Câmara, em sua conta no Twitter.

Molon vai propor na próxima reunião do Colégio de Líderes da Casa que seja pautada a urgência do projeto que decreta Emergência Climática no Brasil, estabelece meta de neutralização das emissões de gases de efeito estufa no Brasil até 2050 e prevê a criação de políticas para a transição sustentável.

"Bolsonaro mais uma vez vai à comunidade internacional para anunciar que está trabalhando pela preservação do meio ambiente, enquanto suas ações indicam o contrário. Vamos fazer um teste. Vamos ver se o governo apoia o PL que apresentei no ano passado", disse.

As metas apresentadas pelo presidente também foram alvo de críticas. A antecipação da meta de neutralidade climática para 2050 apenas coloca o Brasil na mesma linha de outros países do G20. Já as metas intermediárias --redução de emissões de 37% até 2025 e 43% até 2030, com base nos dados de 2005-- não foi atualizada, o que, de acordo com especialistas, permite emissões maiores do que o projeto em 2015, quando a meta foi apresentada no Acordo de Paris, ainda no governo de Dilma Rousseff.

A própria meta de zerar o desmatamento ilegal até 2030, colocada por Bolsonaro em carta ao presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e repetida no discurso desta quinta, não é novidade. Havia sido apresentada por Dilma em Paris, mas sumiu das posições do governo Bolsonaro até a semana passada.

"Foi vergonhoso o presidente passar quase metade de sua fala pedindo ao mundo dinheiro por conquistas ambientais anteriores, que seu governo tenta há dois anos destruir. Enquanto os demais países apresentam metas ousadas, o governo mira o retrovisor na Cúpula do Clima", afirmou a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva.

(Reportagem adicional de Maria Carolina Marcello)