Torça por mim: 'Ninguém pede licença para vencer, mas é possível ter princípios', reflete Tite

* Em depoimento a Bruno Marinho, Diogo Dantas e Renan Damasceno

Primeiro, eu não tenho a pretensão de pedir a torcida de ninguém. Eu quero que as pessoas sigam seu coração. Eu não gosto de personalizar, porque, quando eu penso no Adenor, eu penso no primeiro trabalho que ele teve, lá no Garibaldi, e em quem deu essa oportunidade. Eu sou resultado de tudo que vivi. Falar apenas do Adenor é muito ostentoso.

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Minha família tem sido fundamental nesta jornada. Eles sempre participaram decisivamente das minhas escolhas. Vou dar um exemplo: teve uma época na minha carreira que eu me concentrava em estar com os atletas e não me dava o direito de conversar muito com os dirigentes. E aí teve uma vez que eu fui demitido e minha esposa disse assim: “ou você muda seu jeito de ser e cria a oportunidade de estar com o dirigente, de mostrar que você foi atleta, que se formou professor, e de explicar a ele o que está fazendo com o time, ou você vai seguir sendo demitido a cada três meses e nós seguiremos levando os filhos assim, de um lugar para outro.”

Outro caso foi quando eu recebi proposta do Internacional. Eu não ia aceitar. Eu fui ameaçado, chamado de traidor, disseram que sabiam onde estava minha família. E o Matheus (hoje auxiliar do técnico) veio falar comigo: “pai, você lutou a vida inteira para estar no mercado dos grandes clubes, passa de carro em frente ao Internacional quando vai nos levar para o colégio e sempre elogia a estrutura, fala sobre como é um grande clube. E quando você recebe a proposta, não vai aceitar?”. Fui argumentar, e ele me cortou: “Você vai e todos nós estaremos com a camisa do Internacional na tua primeira partida”.

Esperando

Teve uma vez que eu passei nove meses desempregado. Não estava chegando nada e depois veio uma proposta de um time que estava brigando para não cair, depois a segunda, a terceira. Na quarta, eu disse: “eu vou”. Aí minha filha chegou e disse para que eu não fizesse aquilo. “Você construiu toda uma carreira para não ter de pegar trabalho no meio. Sei que sua autoestima está baixa, mas espere. Se tiver de esperar a virada do ano, espere. Você não diz que é treinador, que constrói equipes?”. Eu sempre tive esse núcleo familiar muito forte. Tenho certeza, só cheguei aqui graças a eles.

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Mas eu não gosto de contar essas histórias do meu começo para sensibilizar, para me colocar como herói. Eu quero criar conexões. Mostrar que também sou fruto do meio, das pessoas que me ajudaram, das pessoas que eu ajudei. Talvez esse seja o maior mérito da minha caminhada, mostrar que trabalho em equipe também pode ter sucesso.

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Eu tenho a base como educador, como professor de educação física. E acredito que a liderança é baseada nas relações pessoais, no ganho de confiança do outro. Eu fui educado assim, cresci num grupo de amigos, nunca teve “você tem de fazer isso, você tem de fazer aquilo”. Sempre fui estimulado a refletir sobre as coisas. É uma liderança transformacional e não ditatorial. Siga o seu caminho, faça as suas escolhas.

Princípios

Acredito que o esporte pode melhorar muito mais o mundo, como elemento educador. Eu fico sempre dando o exemplo de um lance que aconteceu na Copa do Mundo, que eu gostaria que fosse explorado. Mas ele nunca é tanto quanto eu gostaria. Contra o México, estávamos vencendo por 1 a 0 e tivemos um lateral. Eu tinha visto que havia sido para o México porque tinha batido na perna do nosso jogador. Eu então comecei a gritar “É para o México, é para o México”. Um jogador nosso, que foi cobrar o lateral e sabia que a bola tinha batido no nosso time, veio falar comigo, “mas professor, como você fica falando isso, o jogo está uma fumaça do caramba”. Eu respondi “Eu quero ganhar jogando futebol”.

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Quando conversei com o pessoal da seleção japonesa, no último amistoso, eles vieram e disseram que estavam impressionados, que queríamos vencer, competir, mas sem fazer artimanhas. Essa é uma mensagem que eu gostaria de passar para as pessoas, além de que o esporte é uma ferramenta de educação. Não quero aqui ser puritano. Ninguém pede licença para vencer no futebol. Mas é possível ter princípios.