Torça por mim: 'a pressão me deu casca', relembra Weverton

Sou de um lugar que todos sabem que tem pouquíssima tradição no futebol. Conto nos dedos quantos atletas conseguiram sair do Acre para despontar no futebol. Sou um cara privilegiado por isso, abençoado. Sempre me ensinaram, desde criança, a pedir a Deus tudo que eu desejasse. Se queria tirar nota boa, orava a Ele. Se queria jogar e me destacar, fazia a mesma coisa. E quando seus pedidos vão se realizando, você se inspira na fé e acaba pedindo cada vez mais.

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O início da minha jornada não foi como goleiro. Eu era atacante, mas houve um dia que faltou goleiro. Isso foi Deus que decidiu por mim, tenho certeza. Decidiu um caminho que seria melhor. Troquei de posição nesse dia e fechei o gol, não sei como. Alguém me viu e disse que queriam um goleiro, que eu era grande. De início resisti, falei que agarrei por acaso. Mas fiz o teste, não custava nada. Tinha 14 anos. Não era o que eu queria, mas poderia ser uma chance. Fui bem, comecei a treinar, me desenvolver. Imagina eu, no Acre, sem estrutura, sem preparador de goleiro, não tinha ninguém para me ensinar até os 17 anos. Não sabia nada da posição. Hoje, os meninos com 13, 14 anos querem ser goleiro e já têm técnica. Eu com 17 não tinha. Não sabia cair para o lado, socar a bola, fazer uma pegada. Minha fé me ajudou.

Pai distante

Entendo que Deus, quando tem um propósito para a pessoa, dá a capacidade. Sempre tive essa convicção. Fui ensinado a pedir, até porque nunca tive pai, fui criado pelo meu avô. Criei esse amigo para mim. Alguém que podia me dar, que era muito poderoso. Pela minha vontade, eu seria atacante, e talvez estivesse no Acre até hoje. Quando fui para o gol, muitos ainda me chamavam para jogar na linha. Tinha muito embate com treinador porque treinava como goleiro de tarde no futsal e à noite ia jogar no ataque no campo. Essa minha facilidade com a bola nos pés vem desse tempo. Quando houve a mudança de o goleiro jogar mais adiantado e dar passes, eu me adaptei bem, pois já sabia fazer, não me pegou de surpresa.

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Só fui conhecer meu pai com 13 para 14 anos. Ele passou na rua e alguém falou que era meu pai. Como assim? Comecei a conviver, ele me aceitou, mas depois de um tempo ele faleceu. Minha mãe saía para trabalhar, buscava dinheiro para sustentar a gente. Eu não tinha o espelho do meu pai. Quando quis sair em busca do sonho de virar jogador de futebol, fiquei muito sozinho em alojamento. Convivi com gente que ensinava coisa boa, coisa ruim, mas tinha base, tinha fé, respeito, que era inabalável.

Meu pai não me fez falta. Fui bem criado pela minha mãe e pelo meu avô, que me deu carinho. Mas fui um filho que honrou o pai. Ele faleceu em 2006, uma pena não estar aqui para ver o que o filho se tornou. Saí de casa em 2005, e ele não viu nada do que eu vivi. Já minha mãe, que morreu em 2020, pôde acompanhar minha explosão. Quando fui campeão olímpico, ela estava no Maracanã. Esteve presente em muitas conquistas e foi o alicerce na questão espiritual, que ficou bem sólido na minha trajetória.

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Quando chega a oportunidade de jogar num grande centro, como aconteceu comigo em São Paulo, é a chance de mudar tudo. O objetivo de quem vem de longe é melhorar a vida da família, principalmente quem é do Norte e do Nordeste. Éramos pobres. Mas quando você chega e vê a realidade, bate o desespero. Não tem ninguém, é você e Deus. E muita saudade. Chorava todos os dias. Fugi do alojamento. Sabia que não ia voltar nunca mais. Fui para o metrô em Itaquera e avisei para o cara que havia me levado para São Paulo que eu ia embora. Estava com saudade da minha família. Não queria mais saber de futebol. Mas ele me convenceu e acabei ficando. O convívio com muita gente que você não conhece é difícil. Vim do Acre, não sabia me comunicar direito, minhas palavras eram diferentes, muita gíria. Eu tinha vergonha de falar porque os caras me zoavam muito. Não conseguia fazer amizade, não era boa companhia. Fui ficando de lado. Até conseguir me adaptar, foi uma jornada muito difícil.

Ganhando casca

Mas contei com ajuda. Nos momentos complicados, aparecia alguém que me levava para casa e me dava o suporte. Do nada, surgia a tia que cuidava do alojamento e me levava para passar o Natal com ela e o filho. Eu não tinha amigos. Mas havia essa tia da limpeza, algum diretor que me levava para passear... Isso foi me trazendo tranquilidade até conseguir me adaptar.

O pior momento foi a hora de sair da base para o profissional. Quando eu era terceiro goleiro no Corinthians e achava que teria a oportunidade de jogar, pois já havia subido da Série B, acabaram optando pelo Rafael Santos, e não por mim. Foi como se me falassem que eu não servia. Então, saí e fui jogar no Oeste. O que eu fiz? Será que vou descer a ladeira? Estava com 21 anos à época. Mas tive bom desempenho no Oeste, e o mesmo se repetiu depois no América-RN, no Botafogo-SP e na Portuguesa. Por mim, teria ficado no Corinthians, mas talvez lá não acontecesse nada do que rolou depois na minha vida.

O trabalho num clube menor é um aprendizado. Viagens, gramados ruins, tudo isso te prepara. No campo do Oeste, a rede era grudada no alambrado. Aquela pressão toda me deu casca. Tudo isso foi importante para hoje ter tranquilidade e não sentir pressão. Ainda mais no clube em que eu jogo, o Palmeiras. Todo esse processo foi muito importante na minha formação.

Quanto mais você atua em jogo de alto estresse, aumenta sua experiência. Na Olimpíada já foi uma alegria grande. Cheguei ao hotel em Brasília, onde jogaríamos, e travei. E agora? Havia a euforia da convocação. Estava no Athletico num dia e no outro na seleção brasileira. Virei o goleiro de mais de 200 milhões de pessoas, com o país inteiro me vendo. Aquilo me trouxe pressão. Jogando em casa uma Olimpíada, se errasse, seria uma vergonha. Mas pensava que, se havia chegado até ali, nada era de graça.

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No primeiro jogo, não conseguia controlar minhas pernas. Tremia. Eu falava “calma, calma”. Fui ganhando confiança até a final contra a Alemanha, aquela mesma do 7 a 1. Mas desta vez a história foi diferente. Depois de passar por um Brasil e Alemanha decisivo, estou pronto para qualquer desafio. Disputei decisão de Libertadores, de Mundial de Clubes, e posso dizer que estou preparado. As pessoas esperam muito mais de mim, elas têm que me olhar e sentir segurança. No campo, quem olha para trás sabe que tem segurança, a última chance é com o Weverton.

Com o passar dos anos, o atleta ganha maturidade. Posso dizer que estou no meu melhor momento. Em tudo. Fisicamente, mentalmente. Pronto para qualquer desafio. O tempo me trouxe amadurecimento e experiência para encarar qualquer decisão. A época de Oeste e América-RN me fortaleceu para estar pronto agora para a Copa do Mundo. Tudo me capacitou. Todo esse processo foi importante, curar todos os medos, estar com a cabeça boa.

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Sou um cara que não tenho problema com ninguém na minha vida. Não guardo mágoa nem ressentimento. Só quero paz e saúde. E o sonho da Copa. Só quem vai a um Mundial pode explicar essa sensação. Vestir a camisa, representar o país, ouvir tocar o hino. Não serei o Weverton do Palmeiras, mas da seleção brasileira. O cara que vai buscar o hexa. Isso é Copa do Mundo, mexe com o sentimento, não tem clubismo, só tem o amor por ver a seleção campeã. Fazer parte disso é um sonho.

* Em depoimento ao repórter Diogo Dantas