Torcedores do Flamengo doam sangue para assistir semifinal com atestado

Ruan Lucas, de 20 anos, fez sua primeira doação

A semifinal do Mundial de Clubes entre Flamengo e Al-Hilal, marcada para as 14h30 desta terça-feira, movimentou os rubro-negros. Entre as estratégias para assistir à partida, em pleno horário comercial de um dia útil, alguns torcedores recorreram a doação de sangue. O motivo é uma lei que permite o abono de falta no trabalho em caso de doação.

— Sendo sincero, é para ver o jogo e para ajudar o próximo. A gente une o útil ao agradável — admite Ruan Lucas, de 20 anos, em sua primeira doação.

Ruan foi acompanhado pela reportagem do Extra na sala de coleta, no Hemorio. O rubro-negro foi atendido por enfermeiras torcedoras do clube e comemorou a presença de flamenguistas doando sangue ao longo do dia.

— Há uma necessidade grande de sangue no Brasil. Acaba ajudando quem precisa — diz ele, que aposta no placar de 2 a 1 para o Flamengo nesta tarde.

Ruan não foi o único. Entre a noite de segunda e a manhã desta terça-feira, rubro-negros movimentaram as redes sociais com planos de doar sangue para garantir a folga no dia da partida. O inciso IV do artigo 473 da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) garante, uma vez ao ano, o direito de ausência sem desconto salarial em caso de doação voluntária de sangue comprovada.

— Vi uma galera falando sobre isso e fui pesquisar. A CLT permite que o trabalhador justifique sua ausência do trabalho para doação de sangue uma vez a cada 12 meses — contou Luís Henrique, de 19 anos, ao Extra.

Há também os torcedores que foram por pura solidariedade. O vendedor João Pinho é um dele. Ansioso pela final, ele foi ao Hemorio com a blusa do clube para sua quarta doação. Para ele, a solidariedade deve vir acima de tudo.

— Moro em Austin, fiquei um pouco afastado mas estou aqui. Fazemos o esforço para ajudar o irmão que precisa.

Segundo o diretor-geral do Hemorio, o Dr. Luiz Amorim esclarece que a instituição não apoia doação pela busca por folgas. A previsão legislativa não é um modelo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

— Qualquer movimento que estimule a doação de sangue é bem-vindo, e a gente trabalha para ter mais doadores. Por outro lado, doar apenas para obter o dia de de repouso não é uma prática que estimulamos. Achamos que a doação tem que ser totalmente voluntária —  diz. Segundo ele, a lei é oriunda dos anos 50 e foi criada sob contexto de riscos que envolviam a doação de sangue na época, que não existem mais:

— É claro que não dá pra sair e correr igual ao Gerson depois — brinca o médico, que é rubro-negro.

No momento da entrevista, o Hemorio registrava 158 candidatos a doação, um número 20% acima da média para o horário (por volta de meio-dia), mas não é possível creditar os aumento aos torcedores. Amorim chegou a brincar com fotos falsas espalhadas em redes sociais do que seriam o Hemorio.

— Vemos com muitos bons olhos que as pessoas nos procurem, vemos com bons olhos os rubro-negros, mas não gostaríamos que viessem doar apenas para ter esse dia. A gente espera e confia que as pessoas que estão vindo nesse dia venham porque realmente querem doar sangue — pede ele.