O que acontece quando a arena política vira arquibancada? É o que aconteceu na Câmara de BH


Torcida do Galo pressiona vereadores para ver arena do time sair do papel (Reprodução/YouTube/Jornal O Tempo)

“Evento esportivo não é lugar de manifestação política”, escreveu o apresentador Tiago Leifert em uma famosa coluna publicada na revista GQ em 2018.

Para ele, o fã de esporte tinha direito a uma ou duas horas de respiro na semana, e a combinação entre ação política e entretenimento equivalia a abrir uma garrafa de vinho e ela gritar “Fora Temer”. Seria uma inconveniência para o conceito de diversão.

Desejar um mundo onde os dois jogos não entrem no mesmo campo é direito de qualquer um, mas na prática a teoria é outra. A história, dos jogos, da indústria do entretenimento ou dos eventos políticos, é recheada de exemplos em que a mistura não só é possível como inevitável. Para o bem e para o mal.

A repercussão da coluna na época levou diversos leitores a postarem, no Twitter, exemplos desse amálgama: o desfile das delegações das Coreias do Sul e do Norte, brigadas há quase 70 anos, nos Jogos de Inverno de Pyeongchang; a atuação de Sócrates, ídolo do Corinthians, nas Diretas Já; um protesto da Gaviões da Fiel contra desvios na merenda em São Paulo; o punho erguido por Tommie Smith e John Carlos no pódio das Olimpíadas de 1968 em defesa dos direitos civis da população negra dos EUA; e por aí vai.

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Mais recentemente, na campanha presidencial de 2018, jogadores de futebol não só manifestaram apoio como se tornaram verdadeiros cabos eleitorais de Jair Bolsonaro, celebrando gols com arminhas imaginárias e gravando mensagens em homenagem ao “mito”, que comemorou o título brasileiro de seu time, o Palmeiras, em um tapete vermelho estendido por dirigentes e patrocinadores no meio do gramado.

Mais do que possível, a mistura tende a criar pontes entre um campo e outro. E, claro, rende voto.

Ídolos de suas torcidas, muitos ex-atletas enveredaram para a política ao fim da carreira. Dupla de ataque do tetra, Bebeto e Romário se transformaram em campeões de votos em seus estados, um como deputado, outro como senador.

Entre os dirigentes, o maior exemplo de cartola-político foi Eurico Miranda, ex-presidente do Vasco que transformou seu mandato de deputado em um pilar da defesa vascaína. O auge da equipe, com direito a título da Libertadores, em 1998, coincidiu com sua passagem pela Câmara.

Do futebol a política empresta os atores ou a inspiração e, mais que tudo, a linguagem. Fla x Flu é sinônimo de polarização em tempos de intransigências.

E, na era das redes sociais, fãs deste ou daquele político ou corrente política se comportam como verdadeiros torcedores de arquibancada: faça o que fizer, o apoio incondicional ao time de coração vem sempre em primeiro lugar. Críticas equivalem a jogar contra o próprio time – digo, país.

A confusão de afetos gera dois tipos de resultados. Um é a alienação dos que, impossibilitados de entrar em campo, se limitam a torcer. E a quem torce cabe apenas rezar para que a bola trisque a trave; ele não se manifesta, não propõe, não constrói, como agente ativo, proximidades ou estratégias de políticas públicas junto aos seus representantes.

Outro fenômeno é quando acontece o oposto, e a arena política se transforma em arquibancada. Foi isso o que aconteceu na Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte na última quarta-feira, quando torcedores do Atlético-MG acompanharam, com hino, gritos e palavras de ordem, a votação de um projeto de lei bom para o clube e duvidoso para a cidade, governada pelo ex-presidente do Galo Alexandre Kalil (PSD).

O Projeto de Lei 817/2019, proposto pelo prefeito atleticano, prevê a “desafetação de áreas públicas para fins de reparcelamento do solo”. O palavrão permite acelerar as etapas de licenciamento ambiental da Arena MRV, o sonhado estádio que o Atlético-MG quer construir na zona oeste da capital.

Desde que foi eleito, a rivalidade entre os clubes é tema constante das manifestações públicas de Kalil nas redes. No ano passado, quando o Cruzeiro foi campeão da Copa do Brasil, ele usou sua conta oficial no Twitter para “decretar” que mandaria prender “cruzeirense fdp que buzinar na porta da Prefeitura comete desacato a autoridade”.

Gracinhas à parte, o caso do estádio atleticano é delicado porque envolve uma série de condicionantes ao clube para poder erguer o empreendimento em área de proteção ambiental. Como fazer o poder público cumpri-las quando a autoridade máxima tem claramente um lado na torcida?

O fato é que a manifestação, na tribuna da Câmara, botou pressão sobre os vereadores, principalmente cruzeirenses, que ouviam na Casa gritos de provocação conhecidos das arquibancadas, do tipo “Maria, eu sei que você treme”. (“Maria” é a forma homofóbica dos torcedores alvinegros se referirem aos rivais azul celestes).

A mobilização funcionou, e o projeto de lei foi aprovado por unanimidade, com 28 votos favoráveis, em 1º turno. Se aprovado em nova votação, a expectativa é que em 2022, ano de eleição, o Galo finalmente tenha seu sonhado estádio.

Já imaginou se as torcidas se unissem para legislar em outras causas se não a própria?