Governo construirá mesquitas "modelo" contra extremismo em Bangladesh

Azad Majumder.

Daca, 10 abr (EFE).- Com mais de 500 mesquitas "modelo" e a popularidade dos imames, encarregados de realizar os cultos muçulmanos, o governo de Bangladesh pretende doutrinar a população para lutar contra o extremismo e outros flagelos, como o casamento infantil.

Entre 2013 e 2016, Bangladesh sofreu uma onda de ataques islamitas com assassinatos de membros de minorias religiosas e bloggers laicos, que terminou em 1º de julho do ano passado com um atentado em um restaurante de Daca no qual morreram 22 reféns, a maioria deles estrangeiros.

A ação levou o governo a reconhecer o extremismo como um problema, que agora quer enfrentar com 560 mesquitas, um projeto de mais de US$ 1 bilhão, para chegar diariamente a mais de meio milhão de fiéis em um país com 90% de muçulmanos.

"Conter a insurgência é, certamente, um dos objetivos do projeto para que ninguém possa interpretar mal o islã. Queremos transferir o islã adequadamente às pessoas", explicou à Agência Efe o secretário adjunto da Fundação Islâmica de Bangladesh e diretor da iniciativa, Abdul Hamid Jamaddar.

O povo ouve os imames e, por isso, o Executivo vai utilizá-los para transferir mensagens não só contra o extremismo, mas também contra outros problemas.

"Os imames são um grupo poderoso em nosso país, quando alguém vai à mesquita para rezar escuta cuidadosamente as palavras dos imames", destacou Jamaddar.

"Se os imames falam, por exemplo, contra o casamento infantil, o dote e o registro de nascimentos, as pessoas escutam. Queremos passar estas mensagens ao povo através deles", acrescentou.

Durante seus sermões diários, estes líderes religiosos oferecerão um "modelo" a seguir, disse à Efe o secretário do Ministério de Assuntos Religiosos, Anisur Rahman, ao apontar que as mesquitas serão construídas em 475 subdistritos, 64 distritos, 16 zonas costeiras e cinco cidades.

Nelas, 528.150 homens e mulheres poderão rezar diariamente, estimou.

Os trabalhos de construção das primeiras nove mesquitas foram inaugurados recentemente pela primeira-ministra de Bangladesh, Sheikh Hasina, e o governo espera que o projeto, com um custo de US$ 1,06 bilhão, esteja completo em 2020.

Segundo Jamaddar, está nos planos inclusive transformar algumas delas em centros culturais islâmicos, com bibliotecas, salas de conferências e até em locais de treinamento para a peregrinação à Meca.

No entanto, alguns duvidam do alcance da iniciativa em um país com 160 milhões de habitantes.

O decano do departamento de Ciências Políticas e Sociologia na Universidade Norte-Sul de Daca, Abdur Rob Khan, destacou como positivo o governo passar a ter "controle" sobre os imames e a opção de treiná-los.

"Mas o importante é que temos 300 mil mesquitas em todo o país, a questão é: quantas pessoas serão alcançadas com 560 rabinos?", perguntou Khan.

O grupo islamita Hefazat-e-Islam foi além ao qualificar a iniciativa de "política", tendo em vista as eleições presidenciais que acontecerão neste ano no país.

"É um passo político, um projeto eleitoral, uma vez que o governo está tentando provar que é respeitoso com a religião", afirmou o porta-voz do grupo, Azizul Islam.

O Hefazat-e-Islami não é contra a construção das mesquitas. O que o preocupa é seu uso com fins propagandísticos.

"Não temos nenhum problema com o governo construir as mesquitas, mas se as utilizar com fins políticos ou as controlar para fazer atividades do partido, então sim", concluiu Islam. EFE