Torneiras secas ou água com gosto e cheiro ruins ainda são problemas nas casas de moradores do Rio

Rafael Nascimento de Souza
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Nas torneiras do Rio, o problema pode se alternar entre a seca ou a água com cheiro e cor alterados, com geosmina. Moradores de diferentes pontos da capital e do estado contam os problemas no abastecimento pela Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio (Cedae). A companhia tem afirmado que os problemas “são pontuais”. Desde o começo do ano, no entanto, as reclamações continuam.

Na Ilha do Governador, dezenas de moradores reclamam da sujeira vinda na água da Cedae. No último fim de semana, imóveis da Ribeira ficaram sem abastecimento. A companhia informou sobre a manobra de barragens da captação, interrompendo as atividades da ETA Guandu, na noite de sabado até a manhã de domingo. A ação foi para evitar o aumento do número de algas e, consequentemente, reduzir a possibilidade de ocorrência de geosmina no local. Após a empresa religar o fornecimento, quem vive na região conta que a coloração está escura e o gosto é “de barro”.

O militar Marcelo Fernandes Teodoro, de 49 anos, mora na Ribeira há cinco anos. Ele conta que a água da companhia está imprópria para consumo há meses, desde o início da crise da geosmina.

— A água está vindo suja desde o início do problema (com a geosmina) e piorou neste começo de ano. Tivemos dificuldades em setembro e agora, novamente. A água entra suja (na caixa d’água) e piora quando há falta de abastecimento e a água volta. Quando ela chega, vem com extrema sujeira, com gosto de terra e uma cor amarronzada — diz.

Segundo ele, em 2020 a família comprou um filtro industrial (de purificação) e colocou no hidrômetro da casa. Hoje, o consumo é somente após o tratamento.

— A água é filtrada antes de cair na caixa d’água e tomamos sem essa sujeirada. O fabricante do filtro pede pra fazer uma lavagem uma vez por mês. Mas, por conta da sujeira, tenho que fazer a limpeza semanalmente para que eu não perca a qualidade da água pelo filtro. Eu paguei R$ 1.800,00 e a retrolavagem é de R$ 250.

No bairro do Cocotá, moradores e comerciantes lembraram que a qualidade da água está tão ruim que muitos estão com diarréia. A chefe de cozinha Adriana Paula de Mello, de 50 anos, comanda um restaurante no bairro. Na última semana ela precisou ser medicada após passar mal com o consumo. Ela conta ainda que ferve a água para para usar nos alimentos que prepara.

— A água está muito ruim: o gosto e o cheiro. Na semana passada eu e minha filha tivemos diarréia — lembra Adriana, que completa:

— Eu estou gastando dois fardos de 1,5 (de água mineral) por semana. Para fazer a comida estou fervendo a água da Cedae. O suco não pode ser feito com a água da torneira porque ele fica com gosto — diz.

Mãe de dois filhos, de 3 anos e de 4 anos, a fisioterapeuta Valeska Lopes Diniz, de 40 anos, conta que compra três galões de 20 litros por semana. Além de gastar cerca de R$ 350 por mês com a conta de água, ela afirma desembolsar mais R$ 150 para água mineral.

— A minha preocupação é com eles. São pequenos e a situação é mais difícil. Desde janeiro a água vem com um cheiro muito forte. É impossível você dar para as crianças uma coisa desse tipo — conta.

Já no outro extremo da cidade, em Barra de Guaratiba, na Zona Oeste, a situação não é diferente. Mais de 10 mil pessoas estão com escassez de água. Há pelo menos três meses não cai uma gota de água nas caixas d’água.

A empresária Telma Nogueira dos Santos, de 62 anos, lembra que muitos moradores dependem da ajuda de vizinhos para conseguir beber água.

— Essa situação de falta d’água é péssima. Estamos sem água há muito tempo. Nós da parte alta (Caminho Chico Buarque de Holanda) raramente recebemos água. É triste ver mães, filhos e netos sem poder tomar banho. Pessoas doentes que não podem tomar banho. Pessoas que não têm condições de comprar água para beber tendo que pedir a vizinho. Essa é a situação daqui. Moro aqui há 12 anos e há 12 anos pego água precariamente — lembra Telma, que ainda critica a qualidade. — A água não vem e quando vem, está suja.

Na Zona Norte do Rio, o problema se repete em bairros como Cavalcante, Cascadura, Rocha Miranda, Madureira e Oswaldo Cruz. Desde o último final de semana há a divisão entre moradores que estão sem água e os que têm o fornecimento com água alterada.

Gerente de uma padaria em Cavalcante, André Luís Gomes de Lima, de 53 anos, diz que a situação é tão crítica que os funcionários do estabelecimento só estão fazendo pães, bolos, salgados, sucos e café com água mineral. Por dia, só na produção dessas bebidas o estabelecimento gasta mais de 30 litros de água mineral.

Na manhã desta segunda-feira, dia 8, André Luís mostrou a cor amarelada da água.

— Olha isso. É essa a água que estamos recebendo. Estamos gastando muito dinheiro com conta de água da Cedae e também com a compra de água mineral. É um absurdo. Todos os alimentos que estamos fazendo aqui são com água mineral. É impossível fazer algo com água da Cedae.