Tráfico avança sobre favelas da Zona Oeste do Rio e mira Rio das Pedras, berço da milícia na cidade

A maior facção do Rio tem se articulado para tomar favelas em Jacarepaguá e no Itanhangá que sempre estiveram sob o controle da milícia. Dominada por paramilitares há mais de 30 anos, a Gardênia Azul já teria perdido espaço para traficantes da Cidade de Deus. A Polícia Civil investiga a informação de venda de drogas na localidade. Numa outra ponta, bandidos da Rocinha teriam avançado pela mata e conseguido chegar à Muzema no fim de semana. Mas a maior batalha deve ser para dominar Rio das Pedras, motivo de cobiça por ser o berço da milícia na cidade. A Polícia Militar reforçou a segurança na região e nas comunidades de onde estariam partindo os invasores, para assegurar “o direito de livre circulação”.

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Nas redes sociais, moradores da Gardênia Azul relatam que traficantes impuseram o toque de recolher. Além disso, circulam fotos de drogas com a inscrição da facção do tráfico na embalagem. Ao GLOBO, uma mulher que vive na comunidade disse que, nos últimos dias, os invasores têm avisado que não serão mais feitas cobranças de taxas, prática comum entre os paramilitares. A Polícia Civil investiga as informações, mas não houve qualquer apreensão de entorpecentes na favela. Policiais dos batalhões de Operações Policiais Especiais (Bope) e do Choque estiveram ontem na Cidade de Deus, onde manifestantes interditaram com barreiras em chamas a Estrada Miguel Salazar Mendes de Morais, uma das principais da região.

— Os moradores (da Gardênia) estão apavorados. Não sabemos bem quem é quem. Se é miliciano, traficante. O clima é de total tensão — relata a moradora da Gardênia, que prefere não se identificar.

Aliança com expulsos

Uma das hipóteses investigadas pela polícia é de que a quadrilha da Cidade de Deus tenha se juntado a milicianos que foram expulsos da Gardênia no fim do ano passado. No lugar, assumiram paramilitares de Curicica, também na Zona Oeste, que continuam dominando a comunidade. Os milicianos expulsos teriam buscado ajuda do tráfico após terem perdido o apoio de Luiz Antônio da Silva Braga, o Zinho, um dos principais chefes dos paramilitares no Rio.

— Que há uma intenção do Comando Vermelho de tomar, não há dúvidas. Mas ainda estamos levantando os dados para saber o que está ocorrendo de fato. Há muitas informações em redes sociais. Tráfico e milícia trabalham muito com contrainformação, principalmente os milicianos. É uma tática atual das organizações — disse o delegado titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), André Neves, que investiga a movimentação das quadrilhas.

Se de um lado a quadrilha da Cidade de Deus avança sobre a Gardênia, do outro os bandidos da Rocinha, que são da mesma facção, miram a Muzema e a vizinha Rio das Pedras, no Itanhangá. Informações de inteligência da polícia apontam que os invasores montaram uma base no meio do caminho, no Morro do Banco. No domingo e na segunda-feira, houve intenso tiroteio na Muzema, onde há um ano o governo estadual implantou o programa Cidade Integrada com a promessa de mais segurança e serviços públicos.

Diante de ameaças, o policiamento foi reforçado ontem em Rio das Pedras, que sempre esteve sob o domínio dos paramilitares. No sábado, Rodrigo Dias, um dos chefes da milícia da comunidade, foi morto em confronto com PMs no Anil, também em Jacarepaguá.

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Há, ainda, suspeitas de que a ordem para tomar a Gardênia Azul, assim como as comunidades da Muzema e Rio das Pedras, no Itanhangá, que também estão em guerra, partiram dos chefes da principal facção do tráfico no Rio, Edgar Alves de Andrade, o Doca; e Wilton Carlos Rabello Quintanilha, o Abelha.

O antropólogo Robson Rodrigues, coronel da reserva da PM, pontua que os traficantes enfrentarão grande resistência da população, uma vez que a atuação dos milicianos é histórica nessas regiões:

— A milícia se criou com base nessa relação com os moradores. Os traficantes vão ter que dispender um grande esforço para se estabelecer, caso isso se confirme.

Guerra desde 2021 na Praça Seca

A vasta região de Jacarepaguá tem favelas tanto dominadas pelo tráfico — como Covanca e Tirol —, quanto pela milícia — como Curicica e Renascer —, com inúmeras disputas de território. A Tirol, por exemplo, foi tomada por traficantes há cerca de um ano. Sem falar na guerra que se, desde 2021, se arrasta na Praça Seca e arredores.

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O sociólogo Daniel Hirata, coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni) da Universidade Federal Fluminense (UFF), alerta que essas invasões podem levar a outras guerras:

— Quando um grupo específico aparece como vulnerável, fica mais fragilizado até mesmo em relação a outros que nem estão envolvidos naquela disputa. Cria uma espiral de conflitos. Como consequência, há retomadas, processos de vingança. Infelizmente, quem sofre são os moradores.

Desde o último dia 19, o Disque-Denúncia recebeu 11 denúncias sobre a Gardênia, Muzema e Rio das Pedras. Nos dias 20, feriado, e 22, domingo, o serviço não funcionou.

Procurado, o governo do estado informou que o patrulhamento foi reforçado na Cidade de Deus e Gardênia Azul, e pontuou que na Muzema, as equipes do batalhão do Recreio, do Comando de Polícia Ambiental (CPAm) e também do Comando de Operações Especiais (COE) fazem o patrulhamento na Região.

"Em um ano, 228 criminosos foram presos pelas polícias militar e civil e dois adolescentes foram apreendidos. Também foram arrecadados 14 armas de fogo, 1.429 unidades de cocaína, 322 de maconha e 102 pedras de crack. Foram recuperados ainda 14 veículos roubados no período. No último dia 10 foi inaugurada uma cabine blindada na Muzema, em atendimento a demanda do Conselho Comunitário do Cidade Integrada. Também no período de um ano, o trabalho investigativo da Polícia Civil representou junto à Justiça pelo bloqueio de contas, valores e bens das organizações criminosas da região do Itanhangá cerca de R$ 98 milhões", diz, ainda, a nota.