Tráfico e milícia ‘sequestram’ antenas de telefonia; torres de celular instaladas em 105 comunidades têm o acesso impedido

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Um negócio irregular, explorado por milicianos e traficantes, se alastrou e já atinge a Região Metropolitana do Rio e parte da Costa Verde e da Região dos Lagos. Dados do Painel Telebrasil 2021, realizado entre 14 e 28 de setembro pela Associação Brasileira de Telecomunicações e organizado pela Conexis Brasil Digital (sindicato de operadoras do setor), revelam que quadrilhas de paramilitares e de traficantes “sequestraram” a infraestrutura de empresas de telefonia, internet e TV a cabo instaladas em 105 comunidades do estado.

Segundo investigações, os criminosos chegam a exigir das empresas o pagamento de taxas semanais que variam entre R$ 5 mil e R$ 50 mil, para permitir a entrada em seus domínios e a devolução do que foi retido ilegalmente.

O problema atinge comunidades de 14 bairros das zonas Norte e Oeste do Rio, e de localidades de Nova Iguaçu, Belford Roxo, Duque de Caxias, Itaguaí, Niterói, São Gonçalo e Itaboraí, na Região Metropolitana, Cabo Frio e Búzios, na Região dos Lagos, e Angra dos Reis, na Costa Verde.

Na capital, segundo a Conexis Brasil Digital, Campo Grande, Jacarepaguá e Barra, na Zona Oeste, e Méier, Tijuca, Vila Isabel, Ramos e Inhaúma, na Zona Norte, são alguns bairros onde há favelas com limitação para entrada das operadoras.

Nos territórios controlados pelas quadrilhas, os bandidos impediram o acesso de funcionários encarregados do serviço de manutenção e se apoderaram de equipamentos como cabeamento, caixas de passagem, roteadores, estações e 26 antenas de telefonia e de internet e TV a cabo.

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No caso das exigências de pagamento feitas pelos bandidos, a taxa ilegal não foi paga, e as operadoras registraram o caso na Polícia Civil. Os bandidos furtaram alguns equipamentos, que foram vendidos para ferros-velhos, e desligaram algumas antenas. Já outra parte da infraestrutura foi entregue pelos criminosos a empresas clandestinas, que concordaram em pagar a milicianos e traficantes para ter direito de explorar o monopólio da venda de internet e TV a cabo dentro das comunidades.

Trabalho de inteligência

A Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados abriu inquérito para concentrar as investigações sobre o “sequestro” de equipamentos. Segundo o delegado Pedro Brasil, a polícia tenta identificar e indiciar todos os envolvidos no crime, incluindo os responsáveis por empresas clandestinas.

— O tráfico vende o monopólio para empresas clandestinas. Já a milícia costuma abrir empresas para explorar o serviço usando um laranja como responsável. Todos responderão por crimes de extorsão, interferência ou perturbação de sinal telefônico ou teleférico, dano e organização criminosa. Qualquer informação pode ser repassada para o Disque-Denúncia (2253-1177) — diz Brasil.

Moradores ficam sem conexão

Morador de uma localidade que fica entre Engenho da Rainha e Inhaúma, um funcionário público que não quis ser identificado sentiu o efeito do negócio ilícito explorado por traficantes e milicianos. Assinante de uma operadora legalizada, ele utiliza o computador para ajudar na conclusão do curso de pós-graduação. Em maio, ao tentar ligar o micro, estava sem conexão.

Ele ligou para a empresa e foi informado que traficantes haviam cortado alguns cabos. Pouco tempo depois, ao fazer nova ligação para cobrar o restabelecimento do serviço, o morador recebeu a notícia de que o acesso dos técnicos da operadora à localidade havia sido impedido por criminosos.

— Isso foi no início de maio. No mesmo dia, uma empresa ligada ao tráfico entregou panfletos por aqui oferecendo o novo serviço. Desde então, a internet e a TV a cabo da minha operadora nunca mais voltaram. O morador fica refém desta situação. É muito difícil — reclama ele.

Conforme dados apresentados no Painel Telebrasil, entre 2019 (ano em que a prática foi detectada) e 1º de setembro de 2021, aumentou 320% a incidência da prática criminosa no Rio. De 25 comunidades com impedimento de acesso, em agosto de 2019, subiu para 105 em setembro deste ano.

Em nota, o sindicato que reúne operadoras do setor afirmou que, em março, 158 mil clientes tiveram os serviços interrompidos ou prejudicados por conta da ação de paramilitares ou traficantes. No mesmo documento, a Conexis Brasil diz defender com as autoridades de segurança pública o endurecimento na repressão deste tipo de crime.

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