Tráfico humano, prostituição, golpes: MPF receberá grupo de mulheres que denunciam guru espiritual Kat Torres

Mulheres com denúncias contra a guru espiritual Katiuscia Torres, a Kat Torres, deverão começar a ser ouvidas na sexta-feira por representantes do Ministério Público Federal (MPF), que recebeu notícia-fato contra a ex-modelo por suposto crime de tráfico humano para fins de prostituição. Entre as vítimas que estão sendo representadas pela advogada Gladys Carolina Pacheco, do grupo Searchingdesirre (procurando por Desirrê, em português), há relatos ainda de golpe financeiro, o que caracterizaria crime de estelionato. No encontro, será apresentado um extrato que pode ser de um empréstimo ou da hipoteca de um terreno nos EUA em nome de Katiuscia e do marido Zachary Menkin no valor de US$ 3,6 milhões de julho deste ano. O objetivo é reunir provas e averiguar o patrimônio de Kat para uma eventual ação futura indenizatória.

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Gladys explica que as circunstâncias que envolvem Letícia Alvarenga, de 20 anos, e Desirrê Freitas, de 26, ambas presas junto com Kat Torres no dia 2 de novembro, também serão abordadas. A advogada não só representa o grupo que foi criado para buscar as jovens, que chegaram a ser consideradas desaparecidas pelos familiares, como também uma tia de Desirrê. Ela explica que os pais da jovem são adventistas e muito humildes. Eles têm preferido se manter distantes inclusive de outros parentes.

— São pessoas extremamente religiosas. Acho que estão assustados, preferiram se manter distantes, talvez por desconhecimento também e até por um certo preconceito contra os fatos que estão em apuração envolvendo a filha — conta Gladys, explicando que os pais de Desirrê vivem no interior de Minas Gerais e tem casa também em São Paulo.

Segundo a advogada, o MP Federal terá um olhar sobretudo sobre as acusações mais graves, de tráfico humano e aliciamento para prostituição. Ela explica que, individualmente, está entrando com ações na esfera cível por crime de estelionato contra vítimas que dizem ter entregado valores a Kat Torres, que cobrava por consultas, banhos mágicos e bruxarias. A denúncia sobre atos criminais encaminhadas inicialmente para o MP Federal de Brasília foi distribuída para a Procuradoria de São Paulo.

Trio está preso nos EUA

Kat, Letícia e Desirrê foram presas no último dia 2 de novembro em Carolina do Norte e foram levadas à prisão de Cumberland, em Maine. A guru permaneceu no presídio, enquanto as outras duas garotas foram transferidas para outra cadeia na Geórgia, que recebe detentas em situação de documentação irregular no país. As circunstâncias que as levaram à prisão ainda não são confirmadas oficialmente pela polícia americana. Já há um pedido para que elas sejam extraditadas, o que pode ser concretizado nos próximos dias.

Sabe-se que havia em aberto contra Kat nos EUA um indiciamento por ameaças feitas a um ex-sogro e que ela já vinha sendo procurada pelas autoridades. Há a possibilidade, agora, de novos desdobramentos envolvendo as investigações de crimes ligados ao tráfico de pessoas, que envolvem também as autoridades brasileiras.

O GLOBO conversou, nesta quarta-feira, com Robson Cunha, advogado da modelo Yasmin Brunet. No fim do mês passado, eles foram à delegacia, em São Paulo, onde denunciaram as três mulheres por graves difamações feitas contra a modelo nas redes sociais.

— A Yasmin, apesar de todo o transtorno à imagem dela e à própria vida pessoal, que virou um caos, entende que isso tudo acabou tendo um lado muito positivo porque ela acabou servindo de porta-voz para que essa situação tivesse uma atenção maior e que, portanto, chegássemos até a prisão da Kat Torres agora, coisa que já vinha sendo buscada há meses, porque há meses pessoas (supostas vítimas) têm tentado fazer com que ela responda pelos crimes praticados, sem êxito. A partir do momento em que a Yasmin é colocada nesse turbilhão de coisas, e de forma totalmente irregular, ela extrai de tudo isso um lado positivo, que é de dar voz às pessoas a quem ela prejudicou de alguma forma.

Guru não deve ser extraditada, diz especialista

De acordo com a advogada brasileira e ativista contra o tráfico humano nos Estados Unidos, Sandra G. — que se identifica de forma abreviada por questões de segurança —, Katiuscia, por estar nos EUA em situação regular, dificilmente será extraditada. Pelo menos agora. Caso tenha nacionalidade americana, ela explica que o processo, legalmente, sequer pode acontecer.

—A Kat não pode ser extraditada ainda, por duas razões: se for cidadã americana, não pode ser extraditada de forma alguma, a não ser que renuncie a cidadania. Fora isso, nem se ela tiver matado alguém poderá ser extraditada. Caso ela tenha apenas um green card, precisa ter uma condenação criminal acima de 5 anos. Mas, até onde eu sei, ela é legal dentro dos EUA, casada com um americano, mora aqui há pelo menos 12 anos — explica. — Caso tenha só o green card, poderiam levar anos até que alguma deportação fosse autorizada. Ela precisaria ter uma condenação criminal primeiro, uma pena, e aí o caso poderia ser movido à imigração.