Três americanos brancos são declarados culpados do homicídio de corredor negro

·5 min de leitura

Três homens brancos do estado da Geórgia foram declarados culpados nesta quarta-feira (24) do homicídio do corredor negro Ahmaud Arbery, uma tragédia que alimentou as grandes manifestações antirracistas de 2020 nos Estados Unidos.

Travis McMichael, que atirou em Arbery; seu pai, Gregory, e seu vizinho, William "Roddie" Bryan, que participou da perseguição, foram considerados culpados do homicídio depois de um julgamento de um mês na localidade de Brunswick, na Geórgia.

Os doze integrantes do júri popular, entre os quais havia apenas um negro, deliberaram durante mais de 11 horas para chegar a este veredito unânime.

Agora, Travis McMichael, de 35 anos, o oficial de polícia aposentado Gregory McMichael, de 65, e Bryan, de 52, podem ser condenados à prisão perpétua pelo assassinato de Arbery.

Uma multidão que se reuniu do lado de fora do tribunal em Brunswick explodiu em comemoração após o pronunciamento do veredito ao final deste julgamento de alto perfil, que durou um mês.

"Digam seu nome: Ahmaud Arbery. Digam seu nome: Ahmaud Arbery", entoaram em coro os presentes. Já na sala de audiência, um membro da família gritou de alegria quando Travis McMichael foi condenado.

Após o veredicto, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, elogiou a condenação dos três, mas enfatizou que ainda há "muito trabalho" a fazer para garantir justiça racial no país.

"Embora os veredictos de culpa reflitam que nosso sistema judicial está fazendo seu trabalho, isto por si só não é suficiente. Devemos, ao contrário, voltar a nos comprometer a construir um futuro de unidade e força compartilhada, onde ninguém tema a violência pela cor da sua pele", declarou em nota.

O reverendo Al Sharpton, que assistiu ao julgamento juntamente com Jesse Jackson, outro renomado ativista pelos direitos civis, também comemorou as condenações.

"Isto tem que se espalhar por todo o mundo, que um júri de 11 brancos e um negro, no sul profundo [dos EUA], se posicionou na sala do tribunal e disse: vidas negras importam sim", afirmou Sharpton diante da corte em Brunswick.

Apenas um negro estava entre os 12 jurados que examinaram o caso, embora 25% dos 85.000 residentes do condado de Glynn, onde ocorreu o julgamento, sejam negros.

- "Nunca pensei que este dia chegaria" -

"O espírito de Ahmaud derrotou o grupo de linchadores", disse Ben Crump, advogado do pai de Arbery, Marcus, que comemorou a leitura do veredicto e o juiz que presidia o tribunal pediu que deixasse a sala.

"Nunca pensei que este dia chegaria", disse a mãe de Arbery, Wanda Cooper-Jones. "Mas Deus é bom. Obrigada aos que marcharam, aos que rezaram".

Um vídeo com imagens do incidente, no qual Arbery estava desarmado, veio a público quase três meses depois do assassinato, chocando os Estados Unidos e transformando Arbery em um ícone do movimento antirracista "Black Lives Matter" ("Vidas negras importam", em tradução do inglês).

O caso ajudou a inflamar os protestos de 2020 nos Estados Unidos contra a injustiça racial provocados pelo assassinato de George Floyd - um homem negro de 46 anos - por um policial branco em Minnesota.

Após a difusão das imagens do assassinato, os três homens foram presos e se declararam inocentes.

Eles afirmaram que confundiram o corredor com um ladrão e citaram uma lei estadual da Geórgia que autoriza os cidadãos comuns a realizarem prisões. Também alegaram legítima defesa, acusando Arbery de ter reagido de forma agressiva.

No entanto, a promotoria afirmou que não havia justificativa para tentar deter Arbery e que os acusados jamais deram voz de prisão enquanto a vítima praticava corrida pelo bairro de Satilla Shores, na localidade costeira de Bunswick, em um domingo pela tarde.

A promotora Linda Dunikoski disse que os McMichael, que estavam armados com uma escopeta e uma pistola, e Bryan não viram Arbery cometer nenhum crime naquele dia, mas, mesmo assim, "decidiram confrontá-lo".

O jovem "estava tentando escapar desses estranhos que gritavam ameaçando matá-lo", disse Dunikoski. "E, em seguida, o mataram", acrescentou.

- Julgamento por crimes de ódio -

Durante o julgamento, os jurados assistiram a um vídeo dos McMichael perseguindo Arbery em sua caminhonete, enquanto Bryan fazia o mesmo em seu próprio veículo e filmava a cena em seu celular.

Em um determinado momento, Arbery tenta correr em torno da parte dianteira da caminhonete dos McMichael, que tinha acabado de parar.

Travis McMichael, que havia saído do veículo, abre fogo com uma escopeta calibre 12. Depois, é possível ver Arbery ferido entrando em luta corporal com McMichael, antes de ser assassinado por outro disparo.

Kevin Gough, advogado de Bryan, pediu várias vezes ao juiz que declarasse o julgamento nulo, alegando que a presença de Sharpton e Jackson na sala influenciava o júri. O juiz Timothy Walmsley desmentiu as moções e disse que qualquer um poderia assistir.

Os veredictos de culpabilidade no julgamento na Geórgia chegam poucos dias depois da absolvição de Kyle Rittenhouse em outro caso de grande repercussão nos Estados Unidos.

Rittenhouse, de 18 anos, matou a tiros dois homens e feriu outro durante os protestos e distúrbios contra a violência policial em Wisconsin no ano passado, que aconteceram depois que um homem negro foi alvejado pela polícia.

O adolescente alegou legítima defesa e foi absolvido de todas as acusações na sexta-feira (19). Rittenhouse e as três vítimas eram todos brancos.

Travis e Gregory McMichaels, e William Bryan, também são acusados em nível federal por crime de ódio, um caso que será levado a julgamento no ano que vem.

cl-ad/lm/rpr/mvv

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos