Três dias após prisão de cirurgião, 11 mulheres procuraram polícia para denunciá-lo

Três dias após a prisão do cirurgião plástico equatoriano Bolívar Guerrero Silva, de 63 anos, na segunda-feira (18), onze antigas pacientes do especialista procuraram a Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) de Duque de Caxias para fazer boletim de ocorrência contra o médico. As mulheres alegam que, além de não terem o resultado esperado com as cirurgias, sofreram complicações e problemas de saúde e mostram desespero por terem ficado "deformadas" com os procedimentos. As operações eram feitas no Hospital Santa Branca, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Conheça alguns dos casos registrados:

Na manhã da terça-feira (19), uma vendedora, de 24 anos, foi a distrital para registrar um boletim de ocorrência contra o especialista. Ela lembrou que pagou R$ 8,1 mil para colocar silicone. Ela diz que está com as mamas deformadas e com problemas emocionais.

— No dia 14 de janeiro de 2021, coloquei próteses nas mamas. A cirurgia ficou horrível. No dia 2 de agosto, fiz o reparo. Na primeira cirurgia, fui tratada como princesa. Ele foi à sala falar comigo, uma outra mulher que se fazia de médica falou também e tal. Paguei tudo direitinho. Na segunda cirurgia, fui tratada como lixo por todos da equipe técnica. Eles chegaram a dizer que eu estava ali porque eu estava gostando, que eu não tinha cuidado do meu peito direito e por isso ele cedeu. Quando eu saí do centro cirúrgico, vi que meu peito estava todo deformado e um em cima e outro embaixo — contou a vendedora, de 24, antes de prestar depoimento na Deam.

Médico equatoriano preso
Médico equatoriano preso

Ela disse que, após a cirurgia, descobriu que uma das integrantes da equipe de saúde não é médica:

— Questionei a médica, que disse que meu peito não estava assim. Depois eu descobri que ela não era médica. Ele participou dos dois procedimentos. Eu tratei tudo com ela. Eu procurei pra fazer com ele e ela. Mas na Santa Branca apenas ela me atendeu. Todos os documentos estão no nome dele. Eu paguei na primeira cirurgia R$ 8,1 mil e na segunda R$ 3,1mil pelo reparo.

A vítima disse que conheceu a clínica de Bolívar através de uma prima, que teria feito três procedimentos com o cirurgião.

— E o conheci através da minha prima, que fez três cirurgias com ele e que também ficaram imperfeitas. (Mesmo assim), fui fazer o meu peito. Era um sonho. Agora, eu que tenho 24 anos, não uso mais roupa decotada, porque marca o meus seios, que ficam um em cima e outro embaixo. Dá pra ver o defeito. Juntei esse dinheiro para esse sonho, e hoje vivo um pesadelo. E eu queria melhorar autoestima — diz a mulher.

Também terça-feira, a dona de casa Ana Claudia Pedrosa Gonçalves Rodrigues, de 49 anos, procurou a especializada para registrar um boletim de ocorrência contra o médico. Ela conta que fez cirurgia uma cirurgia de abdominoplastia com o médico há dois anos. Ana lembra que, a partir do procedimento, que não foi bem sucessivo, ficou com síndrome do pânico e, por medo, não quis voltar.

— Após a cirurgia, tive duas paradas cardíacas e a operação necrosou. Eu cheguei na UPA quase morta. Lá, fiquei no CTI, praticamente morta. A minha barriga ficou com sequela. Ele não me operou. Ele estava lá só para auxiliar. Eu fui fazer abdominoplastia e a mama. Só a minha barriga teve problemas. O meu umbigo está torto — diz Ana Claudia, que completou: — Hoje, eu tenho vários problemas de saúde, como ansiedade. Vi na TV (a prisão do médico) e vim aqui porque ele não pode sair impune. Por um milagre estou viva, mas muitas outras mulheres podem ter morrido por conta disso. Eu cheguei a ter alta médica, mas tive uma infecção. Voltei três dias depois e fui internada. Depois de quatro dias no CTI, o meu marido me levou para a UPA Suruí, em Magé.

Também na terça, a desempregada Vanessa Miranda, 41, que fez uma mastectomia em 2013 com Bolívar, também esteve na Deam. Ele diz que ficou deformada após a cirurgia. A mulher conta que tentou registrar o caso em 2014, mas que por estar abalada emocionalmente, não deu prosseguimento ao caso. Em 2019, ela entrou na Justiça pedindo uma reparação pelos danos.

— Eu paguei por uma mastectomia, mas ele não fez. Após a cirurgia, senti muitas dores e não conseguia ficar deitada. Eu voltei nele e falei sobre a inflamação e que algo estava errado. Ele foi grosso, rude, e disse que era coisa da minha cabeça. Ele arrancou um dos pontos, que acabou necrosando e ficou um buraco. Fui para casa e a situação piorou. Voltei nele novamente, pedindo um remédio para dor, ele disse que não era necessário. Foi assim por anos. Ainda hoje eu sinto dores — destaca Vanessa.

A desempregada diz que até procurei outros médicos para fazerem a reparação, mas que nenhum profissional ninguém quis refazê-la:

— Eu fui lá em busca de preço. Eu não tinha condições de pagar um médico renomado e lá o preço era bom. Paguei R$ 7.800. Depois de dez anos, preciso trocar a prótese e não sei como será. Agora, eu quero os meus direitos. Quero que a justiça seja feita para que mulheres como eu não sofram mais.

 

Na manhã da quarta-feira (20), mais uma mulher, que diz que operou com Bolívar, apareceu na Deam de Caxias para registrar boletim de ocorrência contra o cirurgião. A operação aconteceu em 2020 e a cabeleireira disse que pagou R$ 21 mil pelo conhecido “X-tudão”: quando são feitos seios, glúteos e abdominoplastia.

— Conheci o Bolívar pelas redes sociais. Ele é muito conhecido né. Eu fiz mama, barriga e bumbum. Eu disse que estava uma porcaria depois. Deu uma bolha e ele abriu seis meses depois. A gente faz uma operação para a autoestima. Eu não quis mais voltar lá porque ele acabou com o meu sonho. Ele não dá atenção suficiente. Não foi barato — conta a cabeleireira, de 40 anos, que mora em Madureira, que não quis se identificar.

— Ele tem que pagar. Nós mulheres temos sonhos e pessoas destróem. Não foi de graça. Eu paguei. No começo ele te trata com carinho e depois ele destrata. Eu tinha um sonho de ter um corpo legal. Meu corpo está deformado. Meu peito está deformado. Eu não tenho coragem de andar com biquíni. Não tenho coragem de ir à praia — conta a mulher que se diz vítima.

Ela diz que a operação aconteceu em 10 de outubro de 2020. E seis meses depois ela começou a sentir e ver problemas. Só agora, após a repercussão do caso da vendedora Daiane, que ela resolveu denunciá-lo.

— Eu paguei R$ 1.000,00 na primeira parcela, que é em um carnê. Mas decidi juntar um dinheiro e paguei R$ 18.500,00 à vista. No dia da cirurgia eu paguei mais R$ 2.500,00 da anestesia — conta.

 

Outra ex-paciente que esteve na Deam de Caxias, nesta quarta-feira, é uma cabeleireira de 42 anos que disse ter conhecido Bolívar através da internet. Ela conta que fez uma abdominoplastia e decidiu fazer a mama. Teve “uma infecção generalizada e quase morreu”.

— Eu havia feito abdominoplastia, e saiu perfeita. Como eu tinha que trocar uma prótese (nos seios), eu pedi a ele pra colocar uma de 400 mililitros. Mas ele colocou uma de 450 mililitros. Quando eu saí (da cirurgia), voltei com um peito maior que o outro. Ele usou algo errado. Eu infeccionei toda. Eu fiz isso há um ano e dois meses. Eu procurei vários médicos e ninguém quis atender porque eu corria risco de vida. Eu tive que procurar uma médica reparadora — conta a cabeleireira, que não quis se identificar.

A vítima disse que para a cirurgia de correção teve que gastar R$ 18 mil. Além do que havia pago a Bolívar, uma quantia no valor de R$ 11 mil.

— Eu andava torta. A prótese rompeu, e eu tive que colocar pano para andar. Quando eu fiz uma biópsia, o resultado deu infecção crônica generalizada. Só estou viva por Deus. Quando eu procurei o médico, ele não me atendeu. Fui atendida por outra pessoa. Eu paguei R$ 11 mil para ele, fora os remédios. Agora, em menos de um ano tive que fazer uma nova cirurgia para reparar. Eu não saía mais de casa. Entrei em depressão. Eu perguntava a Deus porque estava acontecendo isso comigo. Agora só quero que ele pague pelo que fez.

No começo da tarde desta quarta, mais uma mulher — que diz ter sido vítima do médico — esteve na Deam. Chorando, ele lembra do procedimento de mastétomia e de abdominoplastia feita por Bolívar. Por conta do primeiro erro, ela teve que fazer três cirurgias reparadoras e está indo para a quarta.

— Eu conheci ele através de uma amiga, que fez e foi super bem. Eu vim da Rainha das Plásticas. Para fazer abdominoplastia, a mastectómica e a lipoaspiração ele comprou R$ 16.300,00. Como tudo aconteceu durante a Covid, eu não quis operar. Em 2021, no início, fui e ele cobrou mais R$ 4.000,00 por eu não ter feito na data marcada. Tudo deu R$ 19.300,00. Logo depois, fui tirar o dreno e ele fez uma outra cirurgia R$ 4.000,00 para fazer o reparo da lipo e da abdominoplastia. Fiz isso em janeiro e em agosto voltei para fazer um segundo reparo. Paguei mais R$ 4.000,00. Nesse processo, notei que o peito direto estava maior que o direito. Por conta disso, eu já estava pagando para a terceira cirurgia reparadora para dezembro — lembra a aposentada de 54 anos.

Chorando e com vergonha, ela diz que era seu sonho fazer a cirurgia.

— A minha prima ligou e me contou o que estava acontecendo. Eu não vim antes porque eu estava envergonhada. Olha a situação do meu corpo. Estou deformada. Era um sonho. Um sonho. Toda mulher é vaidosa, que ficar com um corpo bonito. Hoje eu estou mutilada. Estou com o psicológico abalado. É muito ruim. As pessoas debocham da gente — afirma.

Após registrar um boletim de ocorrência na Deam de Caxias, a especializada solicitou um exame de corpo de delito na mulher.

Na tarde desta quarta, a autônoma Gedalia Barreto Frazão, 57, autônoma, também foi uma das mulheres que registrou um boletim de ocorrência contra o médico. Ela diz que fez mama e abdominoplastia. Hoje, ela afirma que está “com defeito”.

— Eu achei ele pela internet, com aquela propaganda danada. Dizia que fazia isso, fazia aquilo. E o meu sonho era fazer a barriga porque eu tinha três cesarianas. A primeira coisa que fiz foi a abdominoplastia. Não ficou legal, ficou torta. Ai, ele disse que isso acontecia. Com 30 dias depois eu tinha que voltar. Quando eu voltei, ele falou que era para eu fazer as mamas. Fiz. Novamente a cirurgia corretora da abdominoplastia não ficou boa. Após eu receber alta médica, eu liguei e falei que o meu seio estava escuro. Liguei, liguei e nada. Em seguida o meu peio afundou. Isso aconteceu em 2018. Eu tentava a cirurgia reparadora com ele e cobravam R$ 7.000,00. Eu não tinha condições, porque havia pago R$ 8.500,00 do peito, R$ 6.500,00 da barriga e mais R$ 7.000,00 para reparação? Eu fiquei com defeito. Eu já havia pego dinheiro com a minha irmã para pagar — conta.

Por fim, Gedalia lembra do sacrifício que fez para aumentar a autoestima.

— A gente que é pobre, juntamos dinheiro com muito sacrifício para fazer o sonho. A gente tem o peito caído, quer endurece-lo para ficar melhor. A barriga está caída, você quer consertar. Eu só procurei agora após as mulheres procurarem aqui. Ele não dá documento e a gente não tem o que provar. Com essas mulheres vindo, eu tomei coragem e vim. Mas, eu tenho fotos e tenho como provar que fiz a cirurgia lá no Hospital Santa Branca — destaca.

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