Três manifestantes morrem em novos protestos no Iraque

Manifestante com bandeira iraquiana em manifestação em 20 de janeiro de 2020 em Bassora, sul do Iraque

Três manifestantes foram mortos e dezenas ficaram feridos em Bagdá, em novos confrontos com as forças de segurança, perto de expirar o prazo dado ao governo para das respostas às reivindicações do movimento de protesto.

Além disso, três foguetes atingiram na noite desta segunda-feira (20) a Zona Verde de Bagdá, perto da embaixada dos Estados Unidos sem deixar vítimas, informaram à AFP fontes dos serviços de segurança.

Desde o final de outubro, dezenas de foguetes foram lançados contra soldados e diplomatas americanos no Iraque, especialmente na Zona Verde de Bagdá. Ataques que nunca foram reivindicados, embora os Estados Unidos tenham atribuído vários deles a facções pró-Irã.

Este movimento, que exige desde o começo de outubro uma renovação do sistema político, ficou eclipsado nas últimas semanas pelas fortes tensões entre Irã e Estados Unidos, os dois principais provedores de Bagdá.

Para evitar que as mobilizações perdessem força, os manifestantes enviaram um ultimato ao governo na semana passada para responder às suas demandas, entre elas, um pedido de eleições antecipadas.

Desde domingo, na véspera do prazo, jovens manifestantes em Bagdá e no sul do Iraque começaram a bloquear estradas e pontes com pneus em chamas.

Nesta segunda-feira, eles retomara sua ação na capital: jovens usando capacete e máscaras de gás ergueram barricadas de metal na tentativa de repelir a polícia.

Segundo serviços médicos, três manifestantes foram mortos durante, disseram os protestos: dois por balas e um terceiro por estilhaço de bomba de gás lacrimogêneo que perfurou seu pescoço.

- Tropas dos EUA -

Centenas de manifestantes, alguns acenando a bandeira do Iraque, se reuniram na praça Tayaran, perto da praça Tahrir, o coração dos protestos em Bagdá. Confrontos com as forças de segurança, que usavam cartuchos de gás lacrimogêneo e munição real para dispersá-los, eclodiram.

Além da antecipação das eleições, os manifestantes pedem uma reforma da lei eleitoral, a nomeação de um primeiro ministro independente e o fim da corrupção, que engoliu o equivalente a duas vezes o PIB do Iraque em 16 anos.

Eles também demandam o fim do sistema político de distribuição de cargos baseada em etnias e confissões.

"A procrastinação demonstrada pelo governo e pela classe política por mais de três meses nos leva a tomar medidas adicionais", disse à AFP Mohammad Faeq, manifestante de 28 anos. "A escalada continuará até o cumprimento de nossos pedidos".

Desde outubro, cerca de 460 pessoas perderam a vida em atos violentos ligados à repressão de manifestações e 25 mil ficaram feridas, segundo uma contagem da AFP compilada a partir de fontes médicas e de segurança.

- "Raiva e desconfiança" -

Nesta segunda-feira, a representante da ONU no Iraque, Jeanine Hennis-Plasschaert, disse que a falta de resposta às demandas dos manifestantes contribuiria para alimentar "raiva e desconfiança".

"Todas as medidas tomadas até agora para responder às preocupações da população continuarão sendo irrisórias se não forem aplicadas", disse Hennis-Plasschaert.

Os manifestantes também temem que outras manifestações, como a organizada na sexta-feira pelo líder xiita Moqtada Sadr para exigir a saída das tropas americanas, possam relegar a segundo plano os protestos.

Esse movimento surgiu pela primeira vez em outubro devido à corrupção, à baixa qualidade dos serviços públicos, mas depois se estendeu à exigência de renovação total da estrutura de poder.

Os manifestantes, que rejeitam qualquer influência estrangeira, alcançaram uma vitória em dezembro com a renúncia do primeiro-ministro Adel Abdel Mahdi. Mas ele continua a administrar o país, já que os partidos políticos até agora não conseguiram chegar a um consenso sobre seu sucessor.