Três mil carregamentos de madeira da Amazônia deixaram o país sem autorização, dizem técnicos do Ibama

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RIO —Cerca de 3 mil cargas de madeira da Amazônia foram exportadas do Pará para diversas nações sem autorização do Ibama, segundo depoimento de dois técnicos da autarquia, confirmados por um terceiro, à Polícia Federal (PF). A corporação desencadeou na semana passada a Operação Akuanduba, que investiga a exportação ilegal de madeira.

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, a exportação das 3 mil cargas teria ocorrido antes de um despacho, assinado em fevereiro de 2020 pelo presidente do Ibama, Eduardo Bim, que dispensava a necessidade de autorização para exportação de madeira — a partir de então, a única exigência foi portar um documento para transporte do material dentro do país.

O despacho foi suspenso pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na semana passada. Bim e outros oito servidores do instituto e do Ministério do Meio Ambiente foram afastados do cargo. O ministro Ricardo Salles também é investigado.

Os técnicos afirmaram à PF que Bim foi informado, através de uma nota técnica, sobre o despacho ilegal de madeira. O presidente do Ibama, no entanto, “se limitou a olhar e riscar alguns trechos balançando negativamente a cabeça”, segundo a transcrição feita pela corporação dos depoimentos.

De acordo com a Folha, um dos servidores responsáveis pela nota foi exonerado cerca de um mês depois. Em seu depoimento, ele afirma que “em todos esses anos, nunca ocorreu de a presidência do Ibama não acatar os fundamentos e conclusões de nota técnica”.

O despacho em fevereiro de 2020 ocorreu após associações de madeireiras reivindicarem flexibilização das regras para exportação do material, que estava sendo apreendido nos EUA em 2019. Em agosto de 2020, Bim entrou em contato com autoridades americanas e afirmou que seu despacho tinha efeito retroativo —portanto, as cargas deveriam ser liberadas.

Os depoentes afirmaram que a pressão pela suspensão de autorizações veio “de cima”, o que, segundo a PF, poderia ser um sinal do “possível envolvimento do ministro Ricardo Salles”.

O cerco ao ministro também envolve investigações da PF sobre movimentações financeiras consideradas atípicas que ocorreram no escritório de advocacia que Salles mantém em sociedade com sua mãe. As movimentações teriam ocorrido nos últimos dois anos, quando ele já havia assumido a pasta de Meio Ambiente.

O Serviço de Pesca e Vida Silvestre dos EUA perguntou à PF na semana passada como deve proceder para devolver os carregamentos apreendidos nos portos de Nova Orleans e Seattle. O governo americano, segundo a Embaixada do país, solicitará o compartilhamento das investigações realizadas pela PF. Esse pedido seria o primeiro passo para que os EUA abram sua própria investigação contra Salles e outros alvos da Operação Akuanduba.

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