Três mortos e toque de recolher em três regiões após graves distúrbios no Chile

Manifestantes em Vaparaíso, Chile, em 19 de outubro de 2019

Três pessoas morreram na madrugada de domingo nos mais graves distúrbios registrados em décadas no Chile, com dezenas de estabelecimentos comerciais saqueados e incendiados, cenário que levou o governo a decretar toque de recolher em três regiões e a mobilizar 9.500 agentes das forças de segurança.

A capital Santiago, Valparaíso (centro) e Concepción (sul) estão sob esquema de segurança, com grande presença militar e policial, depois que o presidente Sebastián Piñera decretou um toque de recolher nas três regiões durante a madrugada de domingo, o que não impediu os atos de violência. As autoridades não informaram se a medida prosseguirá por mais dias.

Três pessoas morreram em um incêndio registrado durante o saque a um supermercado da rede Líder - controlado pelo grupo americano Walmart - na zona sul de Santiago. Os bombeiros controlaram as chamas após duas horas.

A prefeita de Santiago, Karla Rubilar, afirmou que duas pessoas morreram queimadas e a terceira vítima faleceu no hospital.

Dezenas de supermercados, concessionárias de carro e postos de gasolina foram saqueados ou incendiados. Protestos esporádicos foram registrados em vários bairros de Santiago.

"Estamos vivendo elevadíssimos níveis de delinquência e saques", afirmou Alberto Espina, ministro da Defesa.

No aeroporto da capital chilena, centenas de pessoas ficaram retidas - muitas dormiram no chão - com o cancelamento ou adiamento de voos.

O governo também mobilizou militares nas regiões de O'Higgins e Coquimbo, igualmente afetadas pela violência.

Os protestos começaram na sexta-feira após o aumento da tarifa do metrô de Santiago, utilizado diariamente por quase três milhões de pessoas, de 800 a 830 pesos.

Vários incidentes violentos nas estações do metrô levaram o governo a decretar estado de emergência e a mobilizar militares nas ruas pela primeira vez desde o retorno da democracia ao Chile, após o fim da ditadura de Augusto Pinochet, em 1990.

Depois que as manifestações atingiram vários pontos de Santiago, com saques, confrontos com policiais e militares e estações de metrôs incendiadas, Piñera recuou e suspendeu o aumento da tarifa no sábado.

O presidente se reunirá com seus ministros neste domingo para abordar a situação.

Piñera também convocou uma mesa de diálogo "ampla e transversal" para atender as demandas sociais, que até o momento não apresentam um líder ou uma lista precisa de reivindicações.

Aos gritos de "basta de abusos" e com o lema que dominou as redes sociais "ChileAcordou", o país enfrenta críticas a um modelo econômico em que o acesso à saúde e à educação é praticamente privado, com elevada desigualdade social, valores de pensões reduzidos e alta do preço dos serviços básicos. A força dos protestos abalou o governo de Piñera, que poucos dias antes havia afirmado que o Chile era uma espécie de "oásis" na região.

- Militares nas ruas -

O governo mobilizou quase 8.000 militares para controlar a situação e pretendia convocar outros 1.500, informou o ministro Espina.

Além da paralisação do metrô, o serviço de ônibus foi suspenso temporariamente depois que cinco veículos foram queimados no centro de Santiago, o que deixou os sete milhões de habitantes da cidade praticamente sem transporte público.

Piñera reconheceu que há "boas razões" para protestar, mas pediu manifestações pacíficas e afirmou que "ninguém tem o direito de agir com a brutal violência criminal", em referência aos danos provocados ao metrô de Santiago, que teve 78 estações afetadas por vandalismo.

O governo suspendeu as aulas em vários bairros de Santiago na segunda-feira.