Três pequenos bailarinos de projetos sociais da Cidade de Deus e do Alemão são aprovados em seletiva do Bolshoi

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RIO - São saltos para construir sonhos. Essa é a perspectiva aberta para crianças de duas comunidades do Rio aprovadas, com bolsa integral, na escola de balé do conceituado Teatro Bolshoi, em Joinville, Santa Catarina. Ana Luisa Oliveira, de 11 anos, e Pedro Victor Periald, de 8, ambos da Cidade de Deus, além de Jenyffer Laura Azevedo, de 10 (cria do Complexo do Alemão), passaram por seleção que começou com cerca de mil meninos e meninas de todo o país. No próximo mês de março, os três embarcam para uma jornada de oito anos de formação na única filial da instituição fora da Rússia.

Viver em uma cidade diferente e seguir uma rotina de disciplina em busca da excelência são algumas das tarefas no caminho dos pequenos. Com os olhos brilhando, Ana Luisa não tem dúvida sobre como vai encará-las:

— É muita diversão para nossa cabeça!

É a resposta típica de uma menina que, como Pedro, brinca de dançar desde o início da infância. Estudar balé para valer, ela começou faz oito meses. Ele, há quatro. Os dois ingressaram no curso do Instituto Arteiros, que atua com arte e educação na Cidade de Deus, numa parceria com o Instituto Movidos, sob apoio da empresa russa Rosatom, em aulas já influenciadas pela metodologia do Bolshoi. Na disputa por uma das 40 vagas da escola em 2022, Ana Luisa e Pedro tiveram capacidade física, postura, articulações e frequências cardíaca e respiratória testadas. Foram considerados aptos a dar os primeiros passos para se tornarem bailarinos profissionais.

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— Minha inspiração é o Jonathan Batista — conta Pedro, que se espelha no bailarino criado na Cidade de Deus, hoje solista no Pacific Northwest Ballet, nos Estados Unidos.

Professora dos dois talentos mirins, a bailarina Priscila Diniz afirma que, além de uma conquista pessoal de Ana Luisa e Pedro, a ida deles para o Bolshoi tem significado coletivo:

— Faz com que mais crianças acreditem. Sonhos, somados ao trabalho duro, promovem transformações.

Realidades Distintas

No caso dos dois pupilos da Cidade de Deus, ambos são oriundos de famílias que chegaram ali com os programas habitacionais que são o embrião da comunidade. A atendente de farmácia Fernanda Oliveira, mãe de Ana Luisa, e a diretora adjunta de colégio Dinie Periald, mãe de Pedro, nasceram e foram criadas na CDD. Viram de perto os efeitos da violência no cotidiano local, mas também o impacto positivo de iniciativas sociais.

Embora sempre tenham vivido tão perto e sejam da mesma idade (34 anos), elas só se conheceram este mês, em Joinville, onde dividiram quarto quando seus filhos foram à cidade para a última etapa da seletiva. Fernanda está decidida a se mudar para o Sul para acompanhar de perto a trajetória de Ana Luisa. E Dinie, que é funcionária pública no Rio, vai confiar à nova amiga os cuidados com o filho.

— A bolsa garante às crianças moradia, lazer e viagem de férias ao Rio, mas estou disposta a deixar tudo para seguir o sonho da minha filha — diz Fernanda.

Na nova realidade, Ana Luisa sabe que sentirá saudades dos coleguinhas de escola, da professora de História Iane e das “guloseimas” que precisará evitar como bailarina. Tanto ela quanto Pedro, na primeira visita a Joinville, já perceberam o que os espera.

— Lá, a rua é muito silenciosa. Vou sentir falta do barulho e das músicas daqui. Tem sertanejo, piseiro e muitos ritmos — diz Ana Luisa, que no futuro quer levar a mãe para a Disney e se vê montando uma academia de dança na CDD.

Pedro, prestes a completar 9 anos, deixa escapar sua percepção sobre problemas do Rio:

— Aqui tem mais morador de rua. E sujeira também — diz o menino.

Terceira carioquinha aprovada, Jenyffer se junta a outros bailarinos do projeto ViDançar, do Complexo do Alemão, já selecionados em anos anteriores para o Bolshoi no Brasil.

— Foi emocionante ver a reação das crianças e das mães quando saiu o resultado. A mãe da Ana Luisa até caiu. A menina me abraçou e perguntou: “quer dizer que não vamos mais ouvir tiros?” — relata Sylvana Albuquerque, coordenadora da seleção da Escola Bolshoi.

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