Trabalhar por conta própria exige planejamento de gastos. É preciso ajustar orçamento para manter contas em dia

A vida de quem tinha carteira assinada e, de repente, se viu obrigado a trabalhar por conta própria exige disciplina. Sem direitos trabalhistas assegurados, salário fixo e benefícios, aquele que não tiver uma boa organização financeira poderá enfrentar apertos, se não souber ajustar seus gastos mensais aos ganhos da nova atividade. Ser o próprio patrão exige planejamento. Para ajudar os leitores nesta situação, o EXTRA ouviu dicas de especialistas sobre como adequar o orçamento à realidade atual, sem se endividar. Confira.

Segundo um levantamento feito pela LCA Consultores, com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no primeiro trimestre deste ano, o Brasil totalizou 36,3 milhões de pessoas trabalhando com carteira assinada, número que vem diminuindo ano após ano. Em 2014, no mesmo período, havia 39,1 milhões empregados com registro formal. A pesquisa não inclui servidores públicos.

Em contrapartida, o número de pessoas que trabalham por conta própria aumentou 6,3 milhões em oito anos. O designer Renato Pereira, de 33 anos, é um exemplo.

— No meu trabalho mais recente, eu tinha vale-transporte, auxílio-alimentação, plano de saúde no qual podia incluir minha família, auxílio-remédio, 13° salário e férias remuneradas — lembra.

Em 2020, Pereira, que tem uma filha de 9 anos, passou a trabalhar em uma empresa como PJ (pessoa jurídica), ou seja, é prestador de serviço. Segundo ele, às vezes, as contas do mês não fecham, e é preciso conciliar a atividade com trabalhos menores para complementar a renda.

— Está tudo mais caro, inclusive os serviços de saúde. Então, para fechar o mês folgado, preciso pegar trabalhos como freelancer. Além disso, tenho assumido o mínimo de contas, tentando não parcelar coisas e me organizando financeiramente — afirma.

Controle sobre as despesas é a melhor saída

Embora para muita gente perder o salário fixo e os benefícios seja um problema, para outros trabalhadores, o segredo é só manter a organização financeira. Assim, a diferença na renda final torna-se quase imperceptível:

— Não sinto dificuldades — diz a head de Impacto Socioambiental Camilla Carvalho, de 25 anos.

Ela mora com o irmão e já trabalhou com carteira assinada, mas há dois meses se viu na situação de trabalhadora informal. Para ela, não há grandes diferenças, mas o que faz fechar as contas do mês é o controle financeiro.

— Por exemplo, se eu saio muito num fim de semana, evito sair no outro. Como eu moro com meu irmão, fica mais fácil dividir as contas, porque vi que morar sozinha é mais complicado em relação aos gastos. Então, quando recebo, já separo o dinheiro das contas principais, e o restante eu vou controlando. Deve ser por isso que não sinto tanto o impacto da mudança — afirma ela.

Para auxiliar os trabalhadores informais, especialistas indicaram dez dicas para não haver confusão nas finanças. Veja a seguir.

COMO SE ORGANIZAR

Anote suas obrigações

Ao ser contratado como PJ, é importante que o trabalhador perceba que além do custo de abertura de uma empresa, haverá o custo de manutenção da mesma, o que pode envolver: pagamento dos impostos, da guia de INSS e até de contador. Podem existir cobranças eventuais da prefeitura, como a de fiscalização de estabelecimento, bem como obrigações com entidades de classe, a depender da categoria da empresa.

Entenda sua renda

Como não tem vínculo empregatício com o contratante, é importante colocar na ponta do lápis que tipos de benefícios está deixando de usufruir, tais como plano de saúde, vale-refeição/alimentação, vale-transporte, férias remuneradas, 13º salário e Fundo de Garantia. Ao ser contratado como PJ, negocie um valor de remuneração em que possa organizar uma estrutura semelhante, com a diferença que será sua responsabilidade a gestão dos recursos. Sem isso, a remuneração líquida de um prestador de serviços acaba sendo percebida como superior a de celetistas, mas a pessoa está perdendo.

Negocie o contrato

Por se tratar de um contrato entre duas partes, deveria existir espaço para declarar as condições da prestação de serviços. Deixe registrado no contrato quando ocorrerão os reajustes anuais (por exemplo atrelados à correção da inflação) e pagamentos de bônus, se houver remuneração vinculada a metas de trabalho.

Contribua para o INSS

Além da função de aposentadoria no futuro, contribuir para o INSS representa também um seguro para este profissional em situações de incapacidade temporária ou permanente ou proteção de dependentes caso venha a faltar, por exemplo.

Mantenha contas separadas

É muito comum entre quem trabalha como PJ misturar despesas empresariais e pessoais. Organizar contas separadamente simplifica o entendimento de quanto custa a estrutura empresarial e qual o custo de vida familiar. Assim como a empresa tem uma reserva, a família preciso construir uma também.

Identifique despesas

Conhecer suas despesas a fundo é importante para a família. É necessário registrar todos os gastos. Ao fazer isso, a família identifica as principais despesas e aprende a identificar gastos desnecessários. Isso é fundamental para gerenciar o orçamento.

Estabeleça limites

É importante a utilização do teto de gastos familiar porque a limitação traz previsibilidade de despesas. Isso ajuda no planejamento financeiro, tendo em vista que o profissional PJ tem receitas variáveis. Não há um valor exato para esses gastos, porque cada família tem a sua realidade. Mas a divisão clássica seria: 50% em gastos essenciais e de subsistência (aluguel, alimentação, educação, saúde etc); 30% para qualidade de vida e desejos pessoais (viagens e lazer); e 20% para investimentos/reserva de emergência.

Corte gastos

Se perceber que as despesas estão acima do limite saudável, a partir da planilha de despesas, verifique o grau de prioridade de cada gasto. Quanto menor a prioridade, mais fácil será cortar supérfluos.

Renegocie dívidas

Se tinha dívidas no momento em que virou PJ, o trabalhador deve buscar negociações com os credores com propostas que sejam compatíveis com a nova capacidade de pagamento. Deixe-os a par da situação financeira. E é essencial conhecer os motivos que causaram a situação para montar estratégias que evitem novos endividamentos.

Planeje férias

No momento da sua contratação, é importante negociar de que forma acontecerão as férias. Os valores a serem usufruídos nas férias devem estar em investimentos conservadores.

Enfileire sonhos

Para os projetos que terão prazos maiores, acima de um ano, deve-se escolher investimentos com a possibilidade de retorno maiores, acompanhando a inflação, por exemplo, para não perder o poder de compra. Recomenda-se que os recursos tenham sempre um propósito, como para investir no negócio, uma viagem, a faculdade dos filhos, trocar de carro, um imóvel maior, e principalmente, para a longevidade.

Invista na carreira

Sendo uma pessoa jurídica, o trabalhador é um empreendedor e precisa mais do que nunca manter sua marca bem avaliada no mercado. Conheça seus clientes e procure informações sobre como pode ajudá-los. Busque conhecimento, estude, participe de cursos e orientação profissional. Isso será seu maior trunfo para o sucesso.

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