Trabalho segue aquecido nos EUA apesar de temor de crise

WASHINGTON, ESTADOS UNIDOS (FOLHAPRESS) - Não são raras as placas de "contrata-se" nas fachadas de bares e restaurantes na capital dos Estados Unidos, e é em um desses que Getzy Hernández, 24, conta que está em seu terceiro emprego neste ano.

"O primeiro era péssimo, não éramos tratados como gente e saí logo porque não tinha motivo para aguentar isso. Rapidamente, consegui uma oportunidade em um bar, que até gostava. Mas aí soube desta vaga aqui, onde o salário era o mesmo, mas dá para ganhar mais em gorjetas, então valia mais a pena", diz a garçonete de um restaurante de comida mexicana que paga US$ 16 por hora (o salário mínimo de Washington) mais gorjetas.

O noticiário econômico dos EUA foi surpreendido durante a pandemia com a "grande renúncia", os pedidos em massa de demissão de funcionários salvaguardados por auxílios do governo. Neste ano, a moda foi o "quiet quitting", como foi batizada a corrente do TikTok (ou "trend", na gíria da rede social), em que trabalhadores relatavam como faziam o mínimo exigido por seus empregadores e não se preocupavam em procurar se destacar -cerca de metade dos americanos adotam a estratégia, segundo o instituto Gallup.

O pano de fundo de tudo isso é o aquecido mercado de trabalho americano que, mesmo com os prognósticos de recessão para 2023, tem se mostrado mês a mês resiliente com uma das menores taxas de desemprego da história do país.

A taxa de desemprego dos EUA está em 3,7%, pouco acima da mínima de 3,5% registrada em setembro, nível mais baixo em 50 anos. Desde janeiro esse índice fica abaixo de 4%. Em novembro, dado mais recente disponível, o país abriu 263 mil novas vagas, acima das previsões de 200 mil postos.

Esse mercado aquecido vem também com aumento de salários, que cresceram em média 5,1% no mesmo mês.

O que a princípio é uma boa notícia tem alarmado economistas e o Fed, banco central do país, dada a inflação de 7,1%, abaixo do pico de 9,1% de julho, mas ainda muito superior ao ideal de 2% do governo.

"Sem estabilidade de preços, a economia não funciona para ninguém. Em particular, sem estabilidade de preços, não alcançaremos um período sustentável de mercado de trabalho forte que beneficie a todos", disse Jerome Powell, presidente do Fed, em evento no fim de novembro.

Ele indicou que a resiliência do mercado de trabalho e do aumento de salários deve levar a novos aumentos das taxas de juros, em um esforço para desaquecer a economia.

Para Hoyt Bleakley, professor da Universidade de Michigan e especialista em economia do trabalho, "há uma tensão fundamental entre esses dois fatores: como as empresas podem ter uma demanda tão robusta por trabalho, mas ao mesmo tempo haver a preocupação com uma recessão?", questiona.

"A conta não fecha. Mas acredito que ainda não tenhamos alcançado a linha de chegada", afirma ele, avaliando que o mercado pode continuar aquecido.

Bleakley afirma que o mercado pode se expandir ainda mais com o chamado "reshoring", a retomada de postos de trabalho na indústria que haviam ido para o exterior, em uma tentativa de reduzir a dependência da China, hoje o maior adversário econômico dos EUA.

Uma medida importante para ocupar os postos abertos no país pode ser a contratação de imigrantes, argumenta ele. Dados do Escritório de Estatísticas de Trabalho do governo americano apontam que os EUA têm hoje 29,6 milhões de empregados nascidos fora do país, recorde histórico.

Outra maneira seria a contratação de idosos. A taxa de pessoas com 65 anos ou mais empregadas hoje é de 22,8%, única faixa etária ainda abaixo do período pré pandêmico, quando chegou a 25,2%,

Os dados totais, porém, não dão conta de todos os detalhes, e um susto veio do setor de tecnologia nos últimos meses, com notícias de demissões em massa nas bigtechs.

A Meta, dona do Facebook, demitiu 11 mil funcionários neste fim de ano, o equivalente a 13% da força de trabalho da empresa. O Twitter, após ser comprado pelo bilionáio Elon Musk, demitiu cerca de metade dos funcionários, e a Amazon tem planos para fechar 10 mil postos, segundo a imprensa especializada.

Os números impressionam pelo porte das empresas, mas são pouco representativos no universo de 153,5 milhões de empregados nos EUA.

O setor mais aquecido do mercado americano hoje é o de "lazer e hospitalidade", que abriu 88 mil vagas em novembro, 62 mil delas só em bares e restaurantes. Já o comércio é um dos mais impactados, com 30 mil vagas a menos em novembro e 62 mil a menos desde agosto.

Com tamanha oferta, a "grande renúncia" continua a todo vapor. De janeiro a outubro deste ano, 43 milhões de americanos pediram demissão em algum momento, mais até do que os 40,1 milhões no mesmo período do ano passado.

É por isso que a garçonete Getsy Hernández não hesita em deixar o emprego se encontrar outro trabalho melhor. "Não existe isso de ficar mal falada se precisarem de alguém para trabalhar. Não faz sentido eu ficar em um trabalho ruim se puder ganhar mais em outro lugar", diz.