Tradição de reivindicação feminina na Argentina pesou para aprovação do aborto, diz ativista

SYLVIA COLOMBO
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***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 26.10.2020 - Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 26.10.2020 - Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Codiretora do portal de notícias feminista Latfem e integrante do coletivo Ni Una Menos (nem uma a menos), María Florencia Alcaraz, 35, teve uma quarta-feira (30) agitada.

Depois da madrugada sem dormir, acompanhando a votação no Senado que culminou com a aprovação da legalização do aborto no país, ela passou o dia atendendo veículos de comunicação estrangeiros, curiosos para entender por que a Argentina conseguiu algo tão raro na América Latina.

Com 38 votos a favor, 29 contra e 1 abstenção, o país superou travas morais, religiosas e históricas para chancelar uma legislação na qual as mulheres têm o direito de decidir sobre seu corpo e sua saúde.

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Pergunta - Em que momento a luta feminista ganhou mais força na Argentina para se transformar em algo tão grande quanto o que vimos na última madrugada?

Maria Florencia Alcaraz - Há mais de duas décadas as feministas argentinas lutam pela legalização do aborto. Mas houve uma mudança em 2015, com a criação do Ni Una Menos e uma transformação geracional provocada por quem foi entrando no debate. Hoje, há uma nova geração nas ruas que traz um olhar renovado a essa reivindicação, que começou a ver o assunto de modo mais crítico e amplo, como direito humano e feminino, com a necessidade de desconstruir estigmas e de enfrentar o patriarcado.

Por que você acredita que a Argentina ofereceu o contexto ideal para ser o primeiro país grande da América Latina a legalizar o aborto?

MFA - É uma conjunção de fatores, mas o fato de termos uma tradição de reivindicação feminina pesa muito. O exemplo das Mães da Praça de Maio [que buscam os filhos desaparecidos durante a ditadura dos anos 1970] e o das Avós da Praça de Maio [que buscam os bebês desaparecidos] é latente para toda essa geração que foi às ruas. No peronismo também há uma tradição da participação da mulher na política que vem de décadas.

Imagino que o ambiente criado na redemocratização, com os julgamentos de crimes contra a humanidade, ainda nos anos 1980, também tenha ajudado nesse processo. Sem dúvida. Essas lutas pelos direitos humanos e esse debate instalado na sociedade é um legado da redemocratização para a geração de hoje. É raro em outros países da região ver um poder de mobilização parecido ao da Argentina. A ideia de tantas marchas, de fazer vigília durante uma votação, é algo que imprime uma pressão sobre os legisladores, e eles sabem disso. Desde os anos 1980 há uma genealogia da conquista de direitos. Primeiro os julgamentos aos crimes da ditadura, depois a luta por outros direitos, como o matrimônio igualitário, o aborto, tudo isso segue uma mesma linha de atuação.

Mas, ao mesmo tempo que há essa tradição, a Argentina também é um país católico, no qual a Igreja tem influência sobre os políticos, apesar de ser um país laico. Como é esse diálogo?

MFA - Sabemos que houve muita pressão de alguns setores da igreja a legisladores, por parte de padres ligados aos bairros mais pobres e também de bispos. Mas a religião não é só isso. Existem grupos ligados à igreja que entendem a necessidade da lei, como o Católicas pelo Direito de Decidir. E nós também sabemos que a maioria das mulheres que aborta é católica, então não se trata de dividir em bandos diferentes. E sim de tentar mostrar o problema como um tema humano, e não religioso. Nós, do ponto de vista da informação, buscamos informar sobre as nuances e as dissidências, para mostrar que o quadro é mais complexo. E que o direito de realizar o aborto não tem a ver com religião, é um tema de saúde pública.

Como nasceu o Latfem e como trabalham?

MFA - Nosso público é basicamente composto de mulheres jovens, com menos de 40 anos, que buscam informações e a promoção de discussões sobre seus direitos. Trabalhamos com laboratórios para jornalistas da Argentina e de outros países sobre como abordar o tema do feminismo, do aborto, sem cair na armadilha de pregar apenas a convertidos. Buscamos atingir um público mais amplo, que possa desconstruir má informação e ideias fechadas sobre o tema. Isso porque, depois de um tempo trabalhando, percebemos que falar apenas de direitos humanos para as pessoas que têm dogmas sobre o aborto, sobre os direitos da mulher, não funciona.

E qual foi a estratégia?

MFA - Descobrimos que era preciso apontar para erros que continuam sendo repetidos e mudar isso. Como, por exemplo, parar de chamar tantos homens para opinar sobre direitos das mulheres. Outra, mais difícil, foi desconstruir o estigma negativo do que é o aborto e do que são os direitos da mulher. E também não cair nas provocações do machismo e do patriarcado, que está cheio de lugares-comuns baseados numa educação pobre e no preconceito. Não conseguimos fazer tudo. Por exemplo, não gosto desse modo como a mídia tratou o que ocorreu nesta madrugada, como se fosse uma partida de futebol, os "verdes" [pró-aborto] contra os "celestes" [antiaborto].

Essa lógica da disputa não esclarece a situação da mulher na sociedade hoje e sequer reflete as coisas como são, pois há católicos que defendem o aborto e há esquerdistas que são contra. É um tema muito complexo para separar em dois bandos. Por isso, em nosso trabalho, tentamos desconstruir esses mitos, esses pacotes, mostrando que há uma heterogeneidade de pensamentos. E há uma realidade crítica na situação das mulheres que perdem a vida devido à proibição.