Traficantes afirmam nos EUA que financiaram campanha de presidente de Honduras

Por Laura BONILLA
Um estudante pede a renúncia do presidente hondurenho Juan Orlando Hernandez em Tegucigalpa, em 7 de outubro de 2019

Dois ex-traficantes de drogas hondurenhos presos nos Estados Unidos revelaram numa corte de Nova York como financiaram as campanhas do ex-presidente Porfirio Lobo (2010-2014) e do atual presidente Juan Orlando Hernández em 2009, 2013 e 2017.

Alexander Ardón, conhecido "Chande", um ex-chefe do tráfico e ex-prefeito da cidade de El Paraíso, perto da fronteira com a Guatemala, contou nesta terça-feira (8) que a pedido de Juan Orlando Hernández (JOH) financiou a campanha para sua questionada reeleição em 2017 com mais de meio milhão de dólares.

Ardón coopera com a promotoria do distrito sul de Nova York no julgamento por narcotráfico de Juan Antonio "Tony" Hernández, irmão do presidente hondurenho.

O ex-deputado Tony Hernandez, de 41 anos, foi preso em um aeroporto de Miami há cerca de um ano e é acusado de traficar toneladas de cocaína para os Estados Unidos entre 2004 e 2014, operando "com total impunidade" devido a seus laços com o poder. Se for condenado, pode ser sentenciado à prisão perpétua.

No depoimento desta terça, Ardón afirmou que, numa reunião com os irmãos Hernández, seis meses antes das eleições de novembro de 2017, Juan Orlando Hernández disse-lhe "para financiar a campanha do Partido Nacional, porque o desempenho do PN nas pesquisas nos departamentos de Copán e Lempira era muito baixo".

Em troca, o político prometeu "a proteção do narcotráfico", tanto dos carregamentos como de extradição aos Estados Unidos, acrescentou.

O traficante declarou no tribunal que entregou para os irmãos 500 mil dólares para a campanha em Lempira e 65 mil para serem usados em Copán e que a origem desse dinheiro era da venda de cocaína.

As eleições de 2017, cuja transparência foi questionada, foram vencidas por JOH, do Partido Nacional (PN), sobre o popular apresentador de televisão Salvador Nasralla, candidato de uma aliança opositora.

O tribunal eleitoral declarou JOH vencedor quase um mês após as eleições, em meio a protestos. Embora a Constituição proíba a reeleição, o presidente buscou e obteve uma interpretação do Judiciário controlada pelo partido no poder.

Juan Orlando Hernández, um aliado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação à segurança e migração, se apresenta como um líder na luta contra o narcotráfico e gangues violentas que semeiam terror nas áreas pobres de Honduras.

Outra testemunha que coopera com a promotoria é Víctor Hugo Díaz Morales, conhecido como "El Rojo", um ex-traficante hondurenho que afirmou que em 2009 contribuiu com 100 mil dólares para a campanha presidencial de Lobo e a reeleição do deputado de JOH.

Ambas as testemunhas esperam reduzir suas sentenças por colaboração no julgamento.