Tragédia no Brasil com a covid-19 se espalha para países vizinhos

Lucía LACURCIA con las oficinas de AFP en la región
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A grave situação da pandemia no Brasil, com recordes de mortes e o sistema de saúde em seu limite, espalhou-se para o restante da América do Sul, colocando em xeque até o Uruguai, considerado até agora um exemplo de contenção do coronavírus.

"Infelizmente, a terrível situação do Brasil também afeta os países vizinhos", declarou a diretora da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Carissa Etienne. É "crucial" reforçar as medidas, advertiu na terça-feira (23).

A agência destacou o aumento de casos de covid-19 nos estados venezuelanos de Bolívar e Amazonas, bem como no departamento de Pando, na Bolívia, e em Loreto, no Peru, todos vizinhos do Brasil.

A circulação massiva da cepa brasileira, ou P.1, uma mutação do SARS-CoV-2 muito mais virulenta, está no centro dessa nova onda.

Após ser detectada em Manaus no final de 2020, muitos países suspenderam as ligações aéreas e terrestres para viajantes do Brasil, na tentativa de impedir sua propagação.

Mas, três meses depois, a variante já foi identificada em 15 países e territórios das Américas.

- "Emergência de saúde pública ativa" -

O panorama é crítico no Brasil.

A flexibilização das restrições ordenadas pelos governos estaduais, especialmente durante o Natal e o carnaval, levou a uma "emergência de saúde pública ativa", disse Etienne.

Na terça-feira, o país bateu novo recorde ao registrar 3.251 mortes em 24 horas. Um dia depois, ultrapassou a marca de 300.000 vítimas fatais, enquanto 12,2 milhões de seus 210 milhões de habitantes já foram infectados.

A pressão levou o presidente Jair Bolsonaro, cético em relação ao vírus e obstinado opositor do confinamento, a formar na quarta-feira um comitê de crise "para decidir o rumo do combate" à pandemia.

A decisão chega no momento em que 23 dos 26 estados e o Distrito Federal relatam 85% de ocupação das Unidades de Terapia Intensiva, e as denúncias de escassez de oxigênio e outros insumos médicos se multiplicam.

Manaus registrou em fevereiro uma média semanal de 110 mortes diárias, quase o triplo da primeira onda.

"Não foi só o sistema de saúde que entrou em colapso. Também faltavam insumos e oxigênio. Foi algo dramático, desesperador", disse Adele Benzaken, médica da cidade de 2,2 milhões de habitantes.

"Você não tem ideia de como é ver parentes correndo para conseguir um cilindro de oxigênio. Havia brigas nos lugares onde se vendia", contou à AFP.

- Cepa brasileira -

Quase 24 milhões das 600 milhões de pessoas que vivem na América Latina e no Caribe contraíram a covid, e 753.000 morreram, de acordo com um balanço da AFP.

Vários países, incluindo Uruguai, Venezuela e Peru, atribuíram oficialmente a forte escalada de infecções à ferocidade da cepa P.1.

O ministro da Saúde do Peru, Óscar Ugarte, disse na quarta-feira (24) que um estudo baseado em "uma amostragem em toda Lima" mostrou que 40% das infecções são causadas por ela.

Com 2.800 quilômetros de fronteira com o Brasil, o Peru identificou essa cepa pela primeira vez em janeiro, na região amazônica de Loreto.

Quanto ao Uruguai, até recentemente elogiado por conter a epidemia sem recorrer à quarentena, agora enfrenta "uma situação complexa" que pressiona seu sistema de saúde, admitiu seu presidente, Luis Lacalle Pou.

Os novos casos de covid atingiram esta semana uma alta diária de 2.682, e a taxa de positividade ficou em 17,89% na quarta-feira, um dos maiores picos desde março de 2020.

Apesar do avanço explosivo e do clamor dos sindicatos médicos, Lacalle resiste em confinar a população "por uma questão de princípio", limitando-se a reduzir algumas horas de expediente, suspendendo a frequência presencial escolar e shows e fechando escritórios públicos.

- Confinamento total -

As campanhas de imunização, que avançam em velocidades diferentes na região, ainda não trouxeram alívio.

O Chile vive a experiência agridoce de liderar a vacinação - junto com Israel - e, ao mesmo tempo, sofrer uma retomada brutal da epidemia, que atingiu um novo máximo quando ultrapassou 7.000 infecções diárias.

"São fenômenos que ocorrem em vias totalmente diferentes", explica o presidente da Sociedade Chilena de Medicina Intensiva, Darwin Acuña.

O impacto da vacina para a população de maior risco "ainda não se viu, porque a população de risco acaba de receber a segunda dose", disse o médico à AFP, que acredita que apenas em abril "se verá um efeito real", por exemplo, na ocupação dos leitos de terapia intensiva.

Com quase um milhão de infectados e mais de 22 mil mortos, o país decretou confinamento obrigatório, a partir desta quinta-feira, para 70% de sua população. No fim de semana, quando um toque de recolher se aplica, a medida vai atingir 90% dos chilenos.

Na Venezuela, em função do aumento de casos, uma "quarentena radical" está em vigor desde segunda-feira e deve durar duas semanas, após meses de flexibilização.

Ainda assim, seus números oficiais continuam baixos, em termos comparativos. Com 30 milhões de habitantes, tem 152 mil infecções e 1.511 mortes, números questionados por diversos observadores.

Também com números inéditos e sem leitos disponíveis para casos graves em hospitais públicos e privados, o Paraguai decretou o fechamento total, exceto para atividades essenciais, a partir de sábado e por uma semana, anunciou na quarta-feira o presidente Mario Abdo. Sua gestão da pandemia gerou protestos, exigindo sua renúncia.

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