Tragédia em Aracruz é consequência de país dominado por ódio e armado até os dentes

Criminal experts carry the body of a victim of a shooting at a school in Aracruz, Espirito Santo State, Brazil, on November 25, 2022. - At least three people including an adolescent girl were killed and 11 others wounded when a man opened fire on two schools in southeastern Brazil. Authorities arrested the suspected shooter after a manhunt, state Governor Renato Casagrande said. (Photo by KADIJA FERNANDES / AFP) (Photo by KADIJA FERNANDES/AFP via Getty Images)
Peritos retiram corpos de vítimas de atentado em escola de Aracruz (ES). Foto: Kadija Fernandes/AFP (via Getty Images)

O Brasil ainda vibrava de alegria pelos gols do capixaba Richarlisson quando um jovem de 16 anos invadiu armado duas escolas em Aracruz (ES) na sexta-feira (25), matou quatro pessoas, entre elas uma criança, e deixou 12 feridos.

O roteiro dos atentados segue o caminho de uma tragédia conhecida e anunciada: a nazificação da sociedade brasileira.

Aos fatos.

O assassino usou na ação uma roupa com uma suástica.

Ele teve acesso às armas do pai, um tenente da Polícia Militar que havia publicado, diantes antes, uma foto do livro “Minha Luta”, de Adolf Hitler, em suas redes sociais.

“Livro péssimo. Li e odiei”, disse o militar em contato com o jornal o Estado de S.Paulo.

Podia ter dito isso antes, na postagem.

Na Enciclopédia do Holocausto, o livro é desceito como um misto de autobiografia e tratado político que promove os elementos básicos do nazismo: o antissemitismo raivoso, a visão de mundo racista e uma política externa agressiva direcionada a abocanhar o que seus seguidores consideravam um espaço vital na Europa.

Em 2021, segundo uma estimativa da antropóloga da Unicamp Adriana Dias, estudiosa de movimentos extremistas no país, ao menos 900 mil pessoas baixaram na internet conteúdos neonazistas por aqui. Isso significa que quase um milhão de pessoas tiveram acesso a ideias racistas e violentas sem qualquer filtro ou historicidade, como se consumissem uma propaganda.

A polícia capixaba investiga se o atirador, que mostrou habilidade com armas (que ele conseguia carregar e recarregar com facilidade), agiu sozinho. Difícil.

Como não tem carteira de habilitação, a polícia quer saber como ele teve acesso ao automóvel usado nas ações e se ele possuía envolvimento com grupos extremistas.

Atualmente existem mais de 500 células neonazistas no país. São grupos que se reúnem geralmente na chamada deepweb e proliferam discursos de ódio e incentivo a ações armadas contra minorias. Todas as vítimas fatais dos disparos nas escolas eram mulheres.

Um dos pontos centrais a serem respondidos pelas autoridades é sobre o papel do pai na apresentação de ideias nazistas ao assassino. A postagem com a capa do livro em suas redes pode ser uma pista.

“Meu filho cometeu algo terrível, que nunca poderia ao menos imaginar”, disse o pai.

Realmente deve ser difícil perceber quando um filho passa a usar símbolos nazistas, que qualquer leitor de “Minha Luta” poderia reconhecer, e adquire intimidade com armas de fogo. Se não deu sinal antes, o jovem deve ter disfarçado muito bem.

Recentemente, estudantes de uma escola de elite de Valinhos, no interior de São Paulo, difundiram mensagens racistas e referências a Hitler em um grupo de WhatsApp criado para protestar contra o resultado das urnas em outubro.

Pelo país, outros sinais de avanço de ideias extremistas foram registradas neste ano. É o caso de uma professora que foi demitida após fazer a saudação nazista na frente da sala de aula.

Os atentados no Espírito Santo mostram por que a difusão desse tipo de conteúdo deve acender o alerta, a começar pelas autoridades responsáveis pela segurança pública.

Nazismo não é blefe nem pode ser considerado brincadeira de criança – a História do século 20 está aí para lembrar disso.

Não deixa de ser uma ironia trágica que entre as vítimas da chacina de Aracruz esteja uma socióloga defensora do meio ambiente e que defendia as vítimas de acidentes com barragens e estudava a fundo o colapso de Mariana (MG). Potências como ela se expandiam nas salas de aula de Aracruz e foram soterradas pela brutalidade que hoje assola o país.

Tragédias desse tipo são a consequência mais nefasta de um país armado até os dentes e cercado de ódio por todos os lados.