Tranquilidade: conheça as cidades do Rio que não registraram homicídios em 2020

Marcos Nunes
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Satisfeito: Luiz Carlos Paulo na porta da farmácia onde trabalha, em Duas Barras, a 200km do município do Rio. Despreocupado, costuma deixar a mobilete na calçada e dormir de janela aberta
Satisfeito: Luiz Carlos Paulo na porta da farmácia onde trabalha, em Duas Barras, a 200km do município do Rio. Despreocupado, costuma deixar a mobilete na calçada e dormir de janela aberta

Em nove cidades do Estado do Rio, caminhar pelas ruas ainda é sinônimo de tranquilidade. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) revelam que, enquanto os outros 83 municípios fluminenses registravam 2.650 homicídios entre janeiro e setembro deste ano, Cantagalo, Rio das Flores, Duas Barras, São Fidélis, Cambuci, Rio Claro, São José do Vale do Rio Preto, São Sebastião do Alto e Engenheiro Paulo de Frontin, todos com menos de 39 mil habitantes, não tiveram assassinatos. E a sensação de segurança não passa apenas pela ausência de mortes violentas. Nesses pequenos “paraísos”, o índice de roubos no mesmo período foi baixo ou simplesmente zero.

Rio das Flores, por exemplo, não viu assalto algum. Já São José do Vale do Rio Preto registrou um. Nessas duas e nas outras sete ilhas de tranquilidade do estado, não são apenas moradores simples que se beneficiam de uma segurança longe de ser sentida na capital (que teve 723 assassinatos de janeiro a setembro). Martinho da Vila e Lenny Kravitz também já desfrutam, há algum tempo, da paz e do verde do bucólico interior fluminense. Nascido em Duas Barras, que fica a 200 quilômetros do Rio, o sambista tem uma casa na cidade e costuma passar temporadas por lá. Por sua vez, o roqueiro americano é dono de uma fazenda no município. Ele descreveu a propriedade, para uma revista americana, como um lugar calmo, onde se sente perto de Deus.

Duas Barras não teve assassinatos e registrou dois roubos em nove meses. Furtos, foram 27, a maioria na zona rural. Um dos últimos ocorreu em 10 de setembro, quando dois porcos desapareceram de um sítio. O caso está sendo investigado pela delegacia da cidade, a 152ª DP. Entre os moradores da área urbana, são mantidos hábitos inimagináveis para boa parte da Região Metropolitana do Rio, como estacionar carros e não trancá-los ou deixar um capacete em cima de uma motocicleta na hora de ir ao comércio.

— Aqui, ninguém mexe em nada. Sou taxista e sempre deixo meu carro parado com as portas abertas. Nunca fui assaltado. Não troco minha casa em Duas Barras por nenhum apartamento na Barra da Tijuca ou em Ipanema. Conheço o Rio e sei como é cidade grande — diz Claudejane Souza Narcizo, conhecido por todos como Claudinho.

Para a dona de casa Eliane Araújo, mãe de uma menina de 5 anos e de uma jovem de 18, Duas Barras é a cidade ideal para quem tem filhos.

— Deixo minha filha pequena brincar na praça tranquilamente. Não há perigo. Veja só, agora mesmo saí de casa e deixei a porta aberta. Os vizinhos nem precisam tomar conta, não há problema. Aqui é bom demais. Tenho pavor do Rio, a violência lá é muito grande — afirma Eliane.

Mesma opinião tem o comerciante Luiz Carlos Paulo, que diz gostar de dormir com as janelas abertas:

—É bom demais. E posso andar sozinho na rua a qualquer hora. Vou para o trabalho de mobilete, e nunca ninguém encostou nela.

Para a PM e a Polícia Civil, o segredo para a sensação de segurança maior e os baixos índices de criminalidade nas nove cidades citadas nesta reportagem passa por uma série de fatores. Entre eles estão uma proximidade maior entre seus agentes e a população, o uso de patrulhas para evitar crimes passionais, um monitoramento constante para impedir a chegada de atividades ligadas ao tráfico de drogas e a utilização de redes sociais para recebimento de denúncias anônimas.

Em Duas Barras, por exemplo, boa parte das informações recebidas por policiais são passadas por ferramentas virtuais. O delegado Diogo Schettini, da 152ªDP, espalhou outdoors pela cidade para divulgar o número de WhatsApp da unidade e um e-mail para denúncias.

—Tivemos o apoio de comerciantes e da prefeitura. Garantimos o anonimato e tudo funciona ininterruptamente, com um celular que fica com as equipes de plantão. Quando chega uma informação, a gente vai apurar na mesma hora — diz Schettini, acrescentando que há uma boa integração com a PM, a Polícia Rodoviária Federal e a Guarda Municipal.

Em Rio das Flores, município que faz divisa com cidades da Zona da Mata de Minas Gerais, o delegado Rodolfo Atala, da 92ªDP, também investiu em monitoramento para evitar a presença de traficantes. O trabalho é feito a partir de informações colhidas por investigadores. Segundo ele, o principal objetivo é impedir que a cidade entre num mapa de disputa de territórios e, consequentemente, acabe registrando homicídios.

—A delegacia, com o apoio da PM, possui um monitoramento constante sobre traficantes que pretendem se instalar na cidade. Rio das Flores é um município que faz divisa com Minas Gerais, ou seja, pode atrair o interesse de facções criminosas. Se isso não for combatido desde o início, o resultado é o surgimento de homicídios — afirma ele.

A porta-voz da Polícia Militar, tenente-coronel Gabryela Reis Dantas, também acredita que a disputa de territórios pelo tráfico é o que impulsiona os índices de assassinatos no Rio. Mas ela destaca que o número de prisões de pessoas que desrespeitavam medidas protetivas da Lei Maria da Penha ajudou a diminuir o número de assassinatos em cidades mais distantes da capital.

—Em muitos lugares do estado, existe uma disputa extremamente violenta entre facções rivais, não só do tráfico, mas da milícia. São guerras que ocorrem com com mais incidência nos grandes centros urbanos ou em municípios com forte atividade turística. No interior, há mais a questão passional. Temos trabalhado para evitar a violência doméstica, com a patrulha Maria da Penha.De agosto de 2019 até agora, foram 189 prisões de homens que desrespeitaram medidas preventivas. E 50% delas ocorreram no interior — informou a oficial.

Das nove integrantes da lista de cidades sem homicídios, São Fidélis é a que tem a maior população, com 38.710 habitantes, segundo dados do IBGE. Para garantir a segurança, o 8ºBPM (Campos) reativou os Destacamentos de Policiamento Ostensivos (DPOs) do município e criou grupos de WhatsApp para trocar mensagens com representantes da sociedade.

— São o caminho mais rápido para chegarmos aos problemas, para evitar ocorrências de assassinatos, inclusive os motivados por questões passionais — diz o tenente-coronel Luiz Henrique Monteiro Barboza, comandante do 8ºBPM. — Quem atua no interior precisa conquistar a confiança dos moradores, conhecê-los.