Tranquilidade na Síria no primeiro dia da trégua turco-russa

Por Omar HAJ KADOUR con Layal ABOU RAHAL en Beirut
Menina em um acampamento para deslocados sírios em Deir Hassan, na província de Idlib, em 5 de março de 2020

Uma relativa calma reinava nesta sexta-feira na província de Idlib, cenário no noroeste da Síria de uma batalha violenta, pela primeira vez durante meses após a entrada em vigor de um cessar-fogo turco-russo.

O acordo foi selado em Moscou pelos presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, que anunciaram na quinta-feira um cessar-fogo para encerrar semanas de combates em Idlib e evitar o risco de aumento da tensão entre russos e turcos.

A trégua entrou em vigor à meia-noite (horário local, 19H00 horário de Brasília) e parecia ser respeitada nesta sexta-feira, após confrontos intermitentes à noite, de acordo com o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH) e correspondentes da AFP no local.

Os disparos intermitentes que foram ouvidos nas primeiras horas desta sexta-feira deixaram seis soldados sírios mortos e pelo menos nove jihadistas do Partido Islâmico do Turquestão (TIP), cujos membros pertencem à minoria muçulmana uigure na China, segundo o OSDH.

O presidente sírio, Bashar al-Assad, expressou sua "satisfação" pela trégua acordada entre a Turquia e a Rússia, durante uma conversa telefônica com o presidente russo, Vladimir Putin.

Por sua vez, Washington se opôs à adoção de uma declaração de apoio ao cessar fogo diante do Conselho de Segurança da ONU.

"É prematuro", disse o governo de Donald Trump diante da demanda diplomática russa.

Para o chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Josep Borell, esse acordo é uma "boa notícia".

"Ao menos é uma amostra da boa vontade, vejamos agora como funciona", disse nesta sexta em uma reunião de diplomatas europeus em Zagreb.

- Intrincado inferno -

Com esse acordo de cessar fogo, pretende-se pôr fim a semanas de intensos combates - com mais de 500 civis mortos e um milhão de deslocados - em torno de Idlib, o último reduto rebelde e jihadista no noroeste da Síria, onde a Turquia intervém contra as forças do governo de Assad, que por sua vez é apoiado pela Rússia.

Como pano de fundo, também emerge na Europa outra crise migratória após a decisão da Turquia, que acolhe quase quatro milhões de refugiados e migrantes, de permitir que milhares deles passem por sua fronteira com a Grécia, membro da União Europeia.

Segundo o texto do acordo russo-turco consultado pela AFP, os dois países realizarão patrulhas conjuntas na rodovia M4, um centro estratégico que atravessa a região síria de Idlib.

Putin disse esperar que esse texto sirva como "uma base sólida para acabar com os combates na região" e "o sofrimento da população"

Ahmad Qaddour, que vive em um acampamento de refugiados junto a sua mulher e filhos, disse esperar o pior.

"Não temos nenhuma confiança no regime (sírio) ou na Rússia", afirma o homem, de 29 anos.

A primeira grande ofensiva lançada por Damasco contra a região de Idlib remonta a fins de 2017. Foi seguida por outras duas, a última em dezembro, mas todas acabaram em tréguas não respeitadas.

Um acordo assinado entre Ancara e Moscou, em setembro de 2018, estabeleceu a criação de uma zona "desmilitarizada" para evitar uma ofensiva do regime sírio, também não tendo sido respeitada.

Desde então, o regime de Assad segue avançando militarmente e, graças ao apoio da aviação russa, conseguiu apoderar-se da metade da província de Idlib.

- "Enorme sofrimento" -

A escalada dos combates em Idlib causou tensões diplomáticas entre a Rússia, aliada da Síria, e a Turquia, apoiada pelos rebeldes, fazendo aumentar o risco de confronto direto entre os dois países que se tornaram os principais nomes internacionais do conflito sírio.

O Exército turco está no norte da Síria desde 2016.

Mais de 50 soldados turcos morreram desde fevereiro em confrontos diretos com o exército sírio, ou em bombardeios atribuídos ao regime.

Em represália, bombardeios turcos atingiram vários aviões sírios e causaram dezenas de mortes entre os soldados sírios.