Transição mapeou servidores do Planalto supostamente envolvidos em atos golpistas

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um mapeamento, ainda antes da posse, de servidores lotados na Presidência da República que supostamente participaram dos atos antidemocráticos realizados após as eleições.

O relatório em posse do Ministério da Justiça também lista funcionários como frequentadores do acampamento golpista no Quartel-General do Exército em Brasília. O documento indica ainda manifestações deles nas redes sociais.

O mesmo dossiê produzido pela equipe de transição também apontou ao menos oito militares da ativa lotados na Presidência durante o governo de Jair Bolsonaro (PL) que compareceram aos atos antidemocráticos e ao QG do Exército.

"Há informações internas do Palácio do Planalto de que outros servidores da Diretoria de Tecnologia, da Secretaria de Administração da Presidência da República, bem como funcionários de outras unidades da Presidência da República teriam participado de manifestações antidemocráticas em frente ao QG do Exército ou em redes sociais", diz trecho do documento ao qual a Folha de S.Paulo teve acesso.

O documento foi produzido durante a transição com base em conversas obtidas de grupos de WhatsApp e acompanhamento de redes sociais.

Nele, constam fotos de cada um dos servidores acompanhados de suas respectivas funções, com exceção de um caso no qual o cargo não foi identificado e outro sem especificação da área em que o funcionário atua.

Dos 18 servidores citados no documento, 16 ainda permanecem lotados em cargos comissionados na Presidência --dois foram exonerados desde o início de janeiro.

Quatro deles, quando procurados pela Folha, negaram ter participado de atos golpistas ou frequentado o QG do Exército. Outros dois disseram só ter passado nos arredores do QG, mas sem participar das manifestações.

A Folha procurou a Secom (Secretaria de Comunicação Social da Presidência) para questionar o motivo da manutenção dos servidores, uma vez que integrantes do próprio governo mapearam a atuação deles nos atos golpistas.

Em nota, o órgão afirmou que "condena com veemência os atentados às instituições democráticas no Brasil" que ocorreram no último dia 8 em Brasília e que defende que "todas as pessoas envolvidas sejam investigadas e punidas, nos termos da lei, sendo assegurado a todos o amplo direito de defesa".

A Secom disse ainda que os servidores identificados não ingressaram na Presidência na atual gestão. "O envolvimento de cada um deles será devidamente apurado pelos órgãos competentes e as medidas cabíveis serão tomadas."

O argumento utilizado reservadamente para explicar a permanência é que o governo aguarda esta terça-feira (24), quando será feita uma reforma organizacional. De acordo com pessoas que acompanham o tema, servidores em cargos comissionados ligados à antiga gestão serão exonerados depois da reorganização.

A Folha conversou com dois servidores listados no dossiê que foram exonerados neste mês. Sérgio Bastos Dytz, que era lotado na Secretaria-Geral da Presidência, afirma que isso é "coisa do passado" e que esteve uma vez no acampamento "no comecinho, logo quando começou, num domingo à noite". Ele não soube dizer exatamente a data.

"Não participei de nada, não. Fui lá visitar, ver como é que era, o que é que tinha, mas em contato com ninguém", afirmou. "Fui apoiar a candidatura do presidente Bolsonaro na época em que ele estava concorrendo a presidente. Só isso. Como muitos. Como 70 milhões de brasileiros foram", seguiu.

Bolsonaro foi derrotado em segundo turno para Lula. O ex-presidente teve cerca de 58 milhões de votos.

Ao ser questionado se o motivo de sua exoneração foi sua presença no acampamento, Sérgio Bastos Dytz negou e disse que o novo governo está exonerando "mais de 3.000 funcionários com currículo excelente". "Trocando gente que é capacitada por gente que não sabe nem escrever."

O dossiê feito pela transição aponta que Dytz é filho de general e que ele teria participado com a sua esposa das manifestações em frente ao QG do Exército.

Coronel reformado, Renato Fernandes Morais, exonerado na semana passada e que também atuava na Secretaria-Geral da Presidência, disse à Folha que sua vida particular "não interessa a ninguém" e que ele não tem "ligação com o governo, com nada".

Ao ser questionado se esteve no QG, respondeu: "Não tenho que dizer nem sim nem não, embora eu não tenha estado".